São Gonçalo Beira Rio: comunidade tradicional de Cuiabá enfrenta crise com união

Famílias viviam do turismo gastronômico e da venda de artesanatos, atividades que estão suspensas desde o anúncio da pandemia

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A partilha e a ajuda mútua estão garantindo a sobrevivência dos moradores da comunidade ribeirinha do São Gonçalo Beira Rio, em Cuiabá, desde que as tradicionais peixarias foram fechadas por conta da pandemia do coronavírus. Elas empregavam direta ou indiretamente grande parte dos moradores locais, que agora estão sem renda.

Luis Carlos Borges, 30 anos, por exemplo, tinha dois empregos e de uma hora para outra se viu sem nenhum. Ele fala que ainda não passou necessidade porque sempre é chamado para limpar uma das peixarias que está fechada e faz os bicos que aparecem.

“Também temos um colega que trabalha em uma empresa de carga e sempre que precisam de alguém para diária, ele nos chama aqui. Sem contar que pego serviço de ajudante de pedreiro e do que tiver”, relata.

Os quintais, que antes eram cheios de clientes, estão desertos aguardando o retorno das atividades (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A preocupação de Borges é com o futuro porque até agora o ex-patrão ajuda quando pode e o projeto Flor Ribeirinha conseguiu mediar cestas básicas para os que precisavam. Mas, não é nada fixo e ainda tem as restrições do retorno das atividades, marcado para o dia 8 de junho.

“Não vai abir como era antes. Então, vai demorar para tudo voltar ao normal, se é que vai?”, argumenta.

Só ficou quem mora na casa

O empresário Edgar Rodrigues Barros, 56 anos, diz que quase todos os comerciantes que a pagavam aluguel fecharam. Ele, bem como outros vizinhos, ficaram no local porque moram no negócio.

“Mesmo cortando os funcionários, o custo de se manter uma peixaria fechada é muito alto. Ninguém consegue ficar 3 meses fechado”, argumenta.

Segundo Barros, antes do fechamento dos estabelecimentos, ele tinha 10 funcionários e todos foram mandados embora. Todos tinha o contrato intermitente.

Empresário Edgar Rodrigues demitiu os funcionários e diz que abertura será um recomeço. (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Ele acredita que o prejuízo acumulado é de mais de R$10 mil.

“Quando retornarmos, será com 50% da capacidade, então não será do mesmo jeito. Antes, eu chegava de ter cinco família esperando para ocupar uma mesa no domingo, que era o dia mais corrido”, afirma.

Com relação ao sistema delivery, que alguns restaurantes estão usando como solução, Borges afirma que ele não se adaptar ao cliente do São Gonçalo porque as pessoas que vão à comunidade não querem apenas comer peixe, querem apreciar o rio e vivenciar o local.

“E nós trabalhamos com peixe. Tem que comer feito na hora. Depois que você abafa, fica murcho e perde a qualidade”, argumenta.

Moradores desolados

A ansiedade levou a ceramista Dalvete Maria da Silva Rosa, 65 anos, ao hospital. Ela diz que se sente agoniada com a paradeira que se transformou a comunidade. As ruas, antes movimentadas, hoje, estão um verdadeiro deserto.

Os trabalhos artesanais também foram suspensos porque a loja da comunidade está fechada e os cursos que eram oferecidos para as artesãs suspensos.

Dalvete diz que a comunidade ficou triste sem a presença habitual dos turistas (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Eu estava sempre trabalhando. Quando não era na cerâmica, era ajudando meus filhos na peixaria. Depois que as coisas pararam, fiquei muito preocupada tanto com a falta de atividade, como com a solidão e a falta de renda. Estamos vivendo da aposentadoria do meu marido”, argumenta.

Rosa lembra que houve a entrega de sacolões para quem estava com mais dificuldade, mas eles vão durar apenas algumas semanas porque algumas famílias são numerosas e a quantidade não é suficiente. Além disso, ela explica que as pessoas querem poder sustentar suas famílias.

“Mesmo tomando todos os cuidados, não sei como a reabertura da comunidade. Sei que quem decide a hora da morte é Deus, mas ele também nos oferece as orientações e devemos segui-las. Quero que tudo acabe logo e assim possamos recomeçar”, finaliza.

 

 

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