Roteiro “ítalo-cuiabano” com drag queens emplaca edital nacional

“Drag Nostra” é o filme do jovem roteirista e diretor, Paulo Victor Vidotti, previsto para começar a filmar em abril

Um filme policial, de comédia, máfia, Drag Queens e um filme “de família” em pleno vapor no audiovisual mato-grossense. “Drag Nostra” dispensa gênero único, assim como as três personagens transformistas que protagonizam a trama, fruto da criatividade do jovem cuiabano Paulo Victor Vidotti.

No ano passado, ele emplacou o edital nacional de fomento a curtas-metragens de ficção, com roteiro selecionado entre obras audiovisuais de diferentes regiões do país – três de Mato Grosso. Em fase de pré-produção, o jovem contou ao LIVRE como uniu dois universos tão diferentes em um só curta: os clássicos enredos do cinema italiano com o movimento artístico e cultural Drag Queen.

O marco da narrativa é um assalto a banco, quando as transformistas não só vestem saias e salto alto, como também passam pela transição de artistas a infratoras. Com enredo inspirado no clássico gênero audiovisual “Casa Nostra”, Franchesco Vidotto, que também é Sunshine, conta como sua família Drag assume, em uma narrativa linear de acontecimentos, o legado dos “Vidotto”, sua família civil.

“O filme remete a debates sociais, sobre como uma cultura cinematográfica machista como a da ‘Casa Nostra’ pode ser tomada e vivenciada da maneira épica por uma quadrilha de Drag Queens”, conta Paulo Victor, que é um fã “gigantesco” do cinema italiano, em suas palavras, principalmente da obra em questão.

O jovem é um estreante na direção de cinema “com verba”, como ele brinca. Já trabalhou na produção dos filmes “S2” e “Três Tipos de Medo”, de Bruno Bini, no Box de Curtas, projeto mato-grossense que transformou Cuiabá em um set de filmagens, além da atuar em produções audiovisuais na música, como o projeto Guitarra de Cocho, de Billy Espindola.

Já a cultura Drag chegou a ele pela namorada. “Ela sempre me falava da série RuPaul’s, mas eu nunca escutava porque é reality show né, não sou muito desses aficionados por realidades alheias. Mas um dia sentei para ver um episódio e quando me dei conta, tinha terminado as oito temporadas e dois all stars, esperando a nona arduamente”, brinca.

O encanto pelo completo desconhecido o levou a “Paris Is Burning”, que o fez mergulhar a fundo nas produções cinematográficas da temática. “Eu achei peculiar o quanto elas exaltam a família e como essa família se ajuda no dia a dia em um mundo tão absurdo com preconceitos”, releva.

A criação do roteiro que também incorporou referências de “Poderoso Chefão”, “Sopranos” e uma pitada de “Death Prof”, do Tarantino, foi arrematada por uma experiência musical. “Um belo dia estava escutando uma banda italiana, chamada Calibro 35, e o ritmo da música me fez ligar esses dois mundos”, completa.

Aliás, quando escreveu o roteiro, Paulo estava em São Paulo, onde conheceu o projeto Casa Um, um centro cultural e uma república de acolhida para LGBTs abandonadas, no Bairro Bela Vista. “Me remeteu muito a essa coisa da família clássica e a um sentimento base de outcast [marginalização] que fez o ‘Casa Nostra’ começar. Por isso ‘Drag Nostra’, diga-se de passagem”.

Com produção executiva de Barbara Varela, direção de fotografia de Marcelo Biss, acompanhado da equipe da Cafeína, o filme está em fase de pré-produção e captação de recursos, previsto para rodar em abril.

“Eu precisaria de muito mais recursos se não fosse minha equipe de produção foda. Com os 80 mil do edital já vai dar para fazer um filme massa. Estou tentando agregar valor não na parte técnica, mas na parte criativa, com profissionais fantásticos e diferenciados”, explica.

Sobre o elenco, o diretor adianta pouco, mas garante – poderia ser Pablo Vittar, mas serão Drags conhecidas daqui mesmo, de Cuiabá. “A história se passa por aqui, acho que fica mais fidedigno ao roteiro e mostra o quanto essas meninas são talentosas, mesmo não devidamente reconhecidas como artistas aqui”.

Para isso, ele conta estar em constante estudo e diálogo com o universo representado, para não cair na falta de vivência. “Quero criar junto com quem vive a experiência Drag, dando profundidade aos personagens criados, já que sou um homem branco e heterossexual. Não é porque é uma comédia que é uma piada”, completa.