Rogers Jarbas: suposto affair é crucial para desvendar trama que levou Perri ao engano

Rogers Jarbas redigiu 96 páginas contando a sua versão sobre as “entranhas” do esquema das escutas telefônicas clandestinas

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Afastado de suas funções como delegado e cumprindo medidas cautelares, o ex-secretário de Estado de Segurança Pública Rogers Jarbas redigiu, há exatamente um ano, 96 páginas contando a sua versão sobre as “entranhas” do esquema das escutas telefônicas clandestinas, conhecido como Grampolândia Pantaneira. Maior escândalo do Governo Pedro Taques (PSDB), o caso é classificado por Rogers como a “mais audaciosa e articulada trama criminosa operada por autoridades policiais em Mato Grosso”.

Obtida com exclusividade pelo LIVRE, a defesa do ex-secretário aponta um suposto relacionamento amoroso entre a delegada de polícia Ana Cristina Feldner e o tenente-coronel PM José Henrique da Costa Soares como ponto inicial para o “descortinamento” do que ele chama de “trama maquiavélica” construída pelos dois e pelo também delegado de polícia Flávio Stringueta.

Os dois delegados eram responsáveis pela investigação dos grampos antes de os autos serem remetidos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Já o tenente-coronel Soares, preso acusado de envolvimento nas interceptações ilegais, foi autor da delação que resultou na deflagração da Operação Esdras, quando Rogers e outras sete pessoas foram presas acusadas de participação em uma trama que teria o objetivo de afastar o relator do caso no Tribunal de Justiça, o desembargador Orlando Perri.

“A eventual confirmação do romance existente entre Ana Cristina Feldner e o ten-cel Soares é o ponto inicial para o descortinamento da ‘trama maquiavélica’ construída por Flávio Stringueta e os dois primeiros, tanto para ‘inocentar’ a dita ‘testemunha’, ten-cel Soares, como para ‘incriminar’, falaciosamente, este subscritor e outros investigados, dando efetividade à mais audaciosa e articulada trama criminosa operada por autoridades policiais em Mato Grosso, as quais não mediram esforços, ao que tudo indica, para enganar o desembargador Orlando Perri”, diz Rogers Jarbas em trecho de sua defesa.

Além disso, ele traz detalhes – sempre segundo sua ótica – da relação que mantinha com Stringueta e Ana Cristina antes da “Grampolândia Panteira”, bem como com outras “peças-chave” da apuração dos fatos. Também aponta detalhes sobre as investigações que seriam desconhecidos da Justiça – e se defende das acusações de ameaças e injúrias, contando sua versão dos acontecimentos.

Na introdução, Roges afirma que, para que os fatos sejam totalmente compreendidos, “circunstâncias ocultas”, anteriores às investigações, precisam ser reveladas, pois produziram um desejo “doentio e sem limites de punir o inimigo, custe o que custar, e de gerar humilhação a seus odiados”.

O ex-secretário alega ainda que foi preso e cumpre medidas cautelares com base em um único elemento, que é controverso e carece de idoneidade, sustentado pela declaração do tenente-coronel que é investigado no mesmo caso.

“Com a devida vênia, de testemunha não se trata. Ele é o responsável principal pela prática dos referidos atos, de forma que sua posição é, no mínimo, de investigado. Além disso, todos os indícios derivam de suposição da ‘testemunha’, de que o secretário de Estado de Segurança Pública estaria por trás da conduta dos demais investigados, inexistindo sequer indício de prova concreta de suas alegações”, argumenta.

A defesa de Rogers, escrita por ele mesmo, é dividida em nove tópicos intitulados de: fatos preliminares sobre o delegado de polícia Flávio Stringueta; fatos preliminares sobre a delegado de polícia Ana Cristina Feldner; os “grampos ilegais” – surgimento, apuração e o “envolvimento” proposital de inocentes; situações que envolvem este “investigado” e que merecem maior detalhamento; da “testemunha” Tenente Coronel PM José Henrique da Costa Soares; da atuação irregular dos delegados após a avocação da competência pelo Superior Tribunal de Justiça; da simulação de ameaças e injúrias pelos delegados de polícia Flávio Stringueta e Ana Cristina Feldner; da suposta relação amorosa existente entre Ana Cristina Feldner e o Ten Cel PM José Henrique da Costa Soares; e diligências investigativas sugeridas (com a devida urgência).

O envolvimento de Rogers Jarbas, segundo Rogers Jarbas

Acusado de usar o cargo e sua influência para interferir nas investigações, o ex-secretário assegura que só teria tido duas participações envolvendo o escândalo dos grampos ilegais.

A primeira, segundo ele, foi quando o governador despachou à Secretaria de Segurança Pública (Sesp) solicitando providências quanto aos fatos apurados pela 7ª Vara Criminal, então sob a juíza Selma Arruda, envolvendo a delegada Alana Cardoso na suposta barriga de aluguel.

Enquanto Alana alega que foi “convocada” sem saber do que se tratava e “constrangida” por Rorges, ele afirma que apenas requereu as informações “como ato de gestão e não medida investigativa”, uma vez que “não teria hierarquia para convocá-la”. O ex-secretário pontua ainda que a delegada foi até a Sesp e, após ler o despacho da magistrada, teria confessado que era tudo verdade, mas que os fatos não teriam ocorrido exatamente daquela maneira.

Então, continua ele, Alana Cardoso teria dito que redigiria sua própria declaração e assim o fez. Na oportunidade, Rogers diz que fez apenas três perguntas à delegada, sendo elas o nome do analista que ela dizia que teria ouvido os áudios da Operação Pequi (inserido os números ilegais); se a conduta havia sido solicitada pelo então chefe da Casa Civil Paulo Taques e se os fatos eram de conhecimento do então secretário de Segurança Pública Mauro Zaque.

Depois de redigir as declarações, ela teria concordado em apresentar os fatos ao delegado-geral da Polícia Judiciária Civil, Fernando Vasco. Por isso, o ex-secretário sugere em sua defesa que é imprescindível a oitiva de Vasco e de outras testemunhas, bem como o acesso aos extratos telefônicos de todas as pessoas com as quais ele diz ter entrado em contato, procedimento que não teria sido feito nas investigações de Stringueta e Feldner.

“Naquele dia ela confirmou sua participação, de Stringueta e de Alessandra nas interceptações ilegais e depois tentou desqualificar sua própria declaração, distorcendo os fatos e trazendo à tona uma pseudo-investigação do promotor de justiça Mauro Zaque, a qual nunca ocorreu”, diz Rogers.

“Temperamento forte”

O ex-secretário contesta ainda a data em que a delegada alega ter sido “recrutada”, quando, segundo ele, o governo sequer tinha recebido o ofício da 7ª Vara. “Como a própria declarante Alana Cardoso indica à delegada de polícia Ana Cristina Feldner, ela poderia ter gritado, falado alto, não assinado, saído da sala (comportamento plenamente condizente com seu temperamento forte, o que pode ser confirmado por outros colegas delegados de polícia). Entretanto, não o fez! Por que? Pois são inverídicos!”.

A segunda situação em que teve participação no caso, conforme o ex-secretário, foi quando solicitou a Stringueta, também a pedido de Pedro Taques, cópia dos procedimentos investigatórios eventualmente em andamento e que tratassem de “barriga de aluguel” praticada no Estado.

“Não há o que se cogitar ‘ordem’ ao delegado, pois inexiste atribuição para tal, e mais, conforme consta nos autos, referida autoridade policial, de acordo com sua total discricionariedade, negou cópia dos procedimentos investigativos, sob o fundamento de se tratar de uma investigação sigilosa”, sustenta.

Rogers assegura que nunca tentou interferir nas investigações, nem ameaçou ou intimidou ninguém. Ele cita ainda, no documento, o encontro que teve com Stringueta em um supermercado da Capital, no qual o delegado disse ter sido ameaçado por ele. O ex-secretário afirma que foi Stringueta quem tentou provocá-lo, sem sucesso.

No mesmo dia, Rogers diz que Ana Cristina tentou causar outra cena, desta vez no condomínio onde moram e envolvendo sua esposa, e que o único objetivo de ambos os delegados ao provocar as confusões era que ele voltasse para a cadeia por descumprir as medidas cautelares impostas pela Justiça.

Grampolândia pantaneira

O esquema de grampos ilegais foi denunciado pelo promotor de Justiça Mauro Zaque à Procuradoria Geral da República (PGR), que afirmou que o governo do Estado tinha conhecimento de escutas ilegais instaladas em Mato Grosso.

Inicialmente, o pedido de interceptação telefônica foi autorizado pela Justiça Estadual, mas teve a finalidade alterada depois de números de pessoas sem envolvimento em crimes terem sido incluídos – uma manobra chamada de “barriga de aluguel”.

Depois de ter alertado o governador Pedro Taques, Zaque procurou a PRG, em janeiro de 2017. O escândalo veio à tona após uma reportagem veiculada pelo Fantástico, em maio de 2017, na qual o promotor reafirma as denúncias.

O caso resultou em 13 pessoas presas, quatro secretários exonerados e dez inquéritos criminais. O possível envolvimento do governador Pedro Taques (PSDB) está nas mãos do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que em outubro do ano passado, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), determinou o desmembramento do inquérito.

Com a decisão, apenas o governador permaneceu sendo investigado pela Corte Superior, enquanto os demais foram remetidos para a primeira instância de Mato Grosso. Nesta semana, a Polícia Judiciária Civil definiu o nome dos novos delegados que irão conduzir as investigações, sendo eles Rafael Mendes Scatolon, Luciana Batista Canaverde e Jannira Laranjeira Siqueira Campos.

Os delegados Flávio Stringueta e Ana Cristina Feldner foram convidados para assumir novamente o trabalho, mas recusaram, por motivos profissionais e pessoais.

Outro lado

Ao LIVRE, o delegado Flávio Stringueta declarou que defender-se é um direito do ex-secretário e que não tinha interesse em saber o que ele havia argumentado. “Nada do que nós fizemos foi considerado nulo. O Rogers sequer conseguiu habeas corpus da prisão dele, foi solto porque o STJ deixou o prazo das prisões transcorrer um pouco a mais, então não quero nem saber qual é a defesa dele”.

Segundo Stringueta, o ex-secretário está atacando a pessoa errada. “Em nenhum momento eu assinei qualquer documento das investigações do Rogers, quem investigou não fui eu. Nenhum inquérito dele eu presidi, fiz algum ato de investigação. Isso é desespero de quem está se defendendo. As coisas que ele andou dizendo já contra mim, em depoimento que ele prestou, já está na Justiça para ele responder. A pessoa quando não tem como se defender, ela ataca, quando não tem argumento, ataca o investigador”.

O LIVRE tentou entrar em contato com a delegada Ana Cristina Feldner por telefone e por meio da assessoria de imprensa da Polícia Judiciária Civil (PSC), mas não obteve retorno até o momento.

A reportagem também tentou entrar em contato com a delegada Alana Cardoso e com o desembargador Orlando Perri, mas as ligações não foram atendidas e não houve retorno. O espaço continua aberto para manifestações.

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