Enquanto Mato Grosso continua ostentando um dos sistemas de saúde mais colapsados do país, com doentes atravessando o estado em romaria para tentar uma vaga em Cuiabá, a Assembleia Legislativa decidiu que o próximo grande passo civilizatório é… um hospital veterinário público. Isso mesmo. Os humanos seguem morrendo na fila, mas os pets, ao que tudo indica, finalmente ganharão prioridade institucional. Uau! Uau!
Max Russi, sempre muito sensível ao uso do dinheiro público, anunciou a novidade como se estivesse entregando a cura da dengue, do câncer e da burocracia de uma só vez. Gastança? Imagina. Só amor aos animais — e um leve esquecimento de que, hoje, tem gente que troca fralda de idoso na sala de emergência porque não existe leito. Mas coragem, como ele disse, é o que move a Casa. Coragem e um orçamento que não para de ronronar quando o assunto é pauta simpática.
É claro que a vida dos pets merece cuidado, carinho e estrutura decente — ninguém aqui está sugerindo que o Totó enfrente a fila do SUS. Mas enquanto o estado não consegue garantir o básico ao cidadão, soa quase como trilha sonora involuntária aquela velha música do Eduardo Dusek ecoando pelos corredores da ALMT: “Troque seu cachorro por uma criança pobre… Baptuba! Uap Baptuba!” No nosso caso, a inversão parece ter sido levada bem a sério.
No fim, a Assembleia segue celebrando, distribuindo moções e assinando cartas internacionais como se estivesse resolvendo a fome, a segurança e a saúde pública de Mato Grosso numa tacada só. E talvez esteja — desde que você seja um gato ou cachorro. Para o resto dos mortais, a fila do hospital continua ali, firme, longa e bem menos fotogênica.




