Retrospectiva 2020: as obras que (não) marcaram Cuiabá

Se os planos tivessem dado certo, a Capital terminaria 2020 de cara nova. Mas, segundo a prefeitura, eram só ideias, não promessas

Em 1952, o presidente Dutra sobrevoou Cuiabá onde iria inaugurar o Estádio de Futebol que recebeu seu nome, Eurico Gaspar Dutra, popularmente conhecido como Dutrinha. Ele viu o projeto e estava ansioso para conhecer o que deveria ser uma cópia do Maracanã. Quando “deu de cara” com a construção, ficou decepcionado e se recusou a cortar as fitas que abririam oficialmente o espaço para o jogos regionais.

Para quem conhece o Dutrinha e o Maracanã – nem que seja por fotos – o sentimento é compreensível e muito se assemelha ao dos cuiabanos diante das obras com o padrão de Dubai propostas para os 300 anos da cidade, já que muitas sequer saíram do papel.

Foto: (Ednilson Aguiar/ O Livre)

Caso todas tivessem sido executadas com êxito – a estimativa era até o fim do primeiro mandato de Emanuel Pinheiro (MDB) -, os cuiabanos poderiam passear no Morro da Luz totalmente revitalizado durante a manhã e, lá, aguardar o horário do almoço, que teria como palco um restaurante panorâmico, construído em uma belíssima torre, com vista para a cidade.

O projeto da Torre Cuiabá 300 Anos previa 3 elevadores, escada em curva e uma construção de nove pavimentos com diversos estabelecimentos, entre academias, cozinha, banheiro e mirantes.

E como não acreditar no projeto? Cidades como Seatle, nos Estados Unidos, tem a Space Needle (em português “obelisco do espaço”) e Toronto, no Canadá, tem a CN Tower. E  ambas estão entre os pontos turísticos mais famosos do mundo.

Até mesmo Campo Verde (130 km de Cuiabá), no interior de Mato Grosso, tem uma torre mirante na Praça João Paulo II, que é uma das atrações da cidade.

Torre de Campo Verde, localizada na Praça João Paulo II. (Foto: Prefeitura de Campo Verde/ Divulgação)

Mas o projeto foi planejado dentro de uma área tombada pelo Patrimônio Histórico. Sendo assim, cada um dos cuiabanos entendeu o imbróglio de uma forma. Uns acharam que o Iphan poderia infringir as regra e aprovar o projeto mesmo assim, outros defenderam que, se os técnicos da prefeitura tivessem feito uma pesquisa prévia, não teriam gerado falsas expectativas na população.

Resumindo: mais uma vez, o sonho de uma obra de padrão internacional foi pelo ralo.

Muita sede ao pote

Rodrigo Enrique, 21 anos, é trabalhador autônomo e diariamente pega ônibus às margens do Morro da Luz. Ele conta que o local precisa urgentemente de uma intervenção, mas acredita que a gestão municipal pode ter sido “afoita” no projeto.

“Eles podiam limpar, fazer umas lojinhas, tipo um shopping popular, ou algo mais simples. Só para as pessoas poderem frequentar. Cuiabá ainda não tem porte para uma obra como essa”, avalia.

Vale lembrar que o Morro da Luz é um problema crônico no centro da cidade e que teve a situação agravada com a demolição da Ilha da Banana para a passagem dos trilhos do VLT em junho de 2017.

O modal não chegou e nem vai chegar, porque o governo decidiu que não há viabilidade econômica. Contudo, os moradores de rua que habitavam a ilha migraram para o morro e adjacências.

Ruinas da Ilha da Banana serviam como abrigo para pessoas em situação de rua (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Caminho das Igrejas

Junto com o barco da torre, naufragou o projeto do caminho das igrejas, que seria uma complementação da Torre Cuiabá 300 e permitiria aos turistas o acesso – por meio de passarela – às principais igrejas do centro de Cuiabá, bem como a mesquita, que fica no Morro Luz.

O obra estava com orçamento previsto em R$ 52 milhões e daria condições para o turista ir até a Igreja do Seminário, depois passar pela do Rosário e São Benedito. Caso o calor de Cuiabá não o tivesse desanimado, ele poderia ainda seguir a mesma rota até as igrejas Bomdespacho, Senhor dos Passos, Santuário Maria Auxiliadora e fecharia o percursos com as igreja Universal do Reino de Deus e a mesquita.

Contudo, o investimento acabou suspenso por conta do mesmo problema técnico que envolvia a construção da torre.

Times Square de Chapa e Cruz

Foto: (Ednilson Aguiar/ O Livre)

Cenário de muitos filmes estadunidenses, a Times Square é um cruzamento entre duas avenidas famosas de Nova Iorque. Com um espaço amplo e prédios tomados por letreiros recheados de publicidades, tornou-se um dos pontos turísticos da cidade.

Entre as intervenções previstas para Cuiabá 300 estava a criação da Times Square Cuiabana, que começaria na Praça Alencastro, com a revitalização e instalação de letreiros. Também não saiu do papel.

Foto da Times Square em Nova Iorque.

O pedreiro João Bosco, 65 anos, morador do Parque Geórgia, no Coxipó, já viu a Times Square em filmes várias vezes e acha o local lindo. No entanto, acredita que Cuiabá tem muitos espaços que precisam de manutenção e um investimento desse não seria coerente.

“O mercado municipal e o Horto Florestal podem ser pontos turísticos e precisam de reforma”, argumenta.

Também foi descartada a revitalização do clube Dom Bosco, um prédio que já recebeu vários eventos e momentos importantes da história cuiabana, porém está abandonado.

Ainda em construção

O tradicional Mercado do Porto foi agraciado com uma reforma dentro do projeto 300 anos. Porém, não ficou pronto para a data marcada e segue em construção.

Os comerciantes foram readequados em espaços improvisados em dezembro do ano passado e, conforme a Prefeitura de Cuiabá, o trabalho está concentrado na montagem dos pilares pré-moldados, vigas e lajes alveolares.

O LIVRE foi ao local na véspera do Natal e a obra estava sem operários e os comerciantes relataram que ela seguia em um ritmo lento. Não se sabe se por culpa da pandemia.

Foto: (Ednilson Aguiar/ O Livre)

De acordo com a prefeitura, a obra segue o cronograma e nas próximas fases serão executados os serviços de concretagem do capamento das lajes. Posteriormente, a cobertura de alvenaria. A obra está orçada em R$ 13 milhões.

Distante de uma solução

O Mercado Miguel Sutil, conhecido como Mercado Municipal, também estava nos planos do projeto Cuiabá 300. Há muitos anos, o prédio está subutilizado e com instalações e infraestrutura precárias.

Muitos comerciantes abandonaram os boxes e a esperança dos mais tradicionais era presenciar a retomada do espaço pela cuiabania, o que ainda depende de muitos pormenores.

A Secretaria Municipal de Gestão informou por meio de nota que está sendo realizado um estudo de viabilidade para revitalização do mercado e que, em razão da pandemia, o prazo para finalização do estudo foi prorrogado.

O levantamento deve contar com informações técnicas, econômicas, financeiras e jurídicas que apontem para a viabilidade de execução dos projetos. O resultado também mostrará se há possibilidade para criação de uma parceria público-privada (PPP) para o desenvolvimento das obras.

O trabalho está sendo conduzido pela Promulti Engenharia, Infraestrutura e Meio Ambiente, habilitada em Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) aberto pela Prefeitura de Cuiabá em dezembro de 2019.

Cais do porto

A obra começou em fevereiro de 2019 e a previsão é que estaria pronta em novembro do mesmo ano. Contudo, ainda não foi concluída e até mesmo as placas que a anunciavam  foram retiradas.

Em 15 de outubro de 2018, os seis imóveis comerciais que estavam no local foram desapropriados e demolidos para o início das obras. Houve a movimentação de máquinas, mas, agora, está tudo limpo e o investimento declinou.

O que diz a prefeitura?

Em nota, a Prefeitura de Cuiabá afirmou que os projetos anunciados eram apenas ideias e não promessas. As obras não executadas não se enquadraram nos critérios de viabilidade de execução estrutural, financeira e necessidade para o Município.

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