Retomada do cinema mato-grossense: mais de 30 produções na nova fase

Alguns cineastas avaliam que os editais regionais – das secretarias de município e Estado - tenham dado um grande impulso. Nova leva deve sair pelos próximos anos

Ilustrativa/Divulgação Box de Curtas

Dos primeiros registros de produções na década de 1980 aos dias atuais, os últimos três anos registraram um grande salto no número de realizações. Mais de 30 produções entre as já lançadas de 2015 até o momento, retratam um período singular, de grande efervescência no cenário do audiovisual mato-grossense. Muitas delas têm circulado e sido premiadas em festivais nacionais e internacionais de notoriedade.

Alguns cineastas avaliam que os últimos editais regionais – das secretarias de município e Estado em parceria com o Governo Federal – tenham dado um grande impulso. Os incentivos que contemplam abordagens e formatos variados contribuíram para a pluralidade de projetos. A cineasta Maria Thereza Azevedo, que teve telefilme documental aprovado em edital do município avalia que este seja um momento de colheita resultado também, de uma política cultural voltada à descentralização iniciada já algum tempo em nível nacional.

Ela assina o roteiro e direção do filme As Cores que Habitamos, em fase de finalização. “É um momento precioso. Expandiram-se as fronteiras além do eixo Rio-São Paulo. Com esse processo de descentralização percebeu-se que existem determinados conteúdos, modos de viver e de olhar que só são possíveis fora deste eixo. E junto aos editais que privilegiam essa descentralização, os realizadores mato-grossenses ganharam mais chances e cada vez mais eles têm apresentado propostas, muitas vezes, selecionadas. “, destaca.

No caso das duas edições do edital lançado em uma parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura, Fundo Setorial do Audiovisual e Ancine, a primeira delas resultou em diversas produções de curta-metragem, média-metragem, documentários, pilotos de séries para a TV e até longas-metragens. Dos longas, Bruno Bini está concluindo as filmagens de Loop, enquanto o diretor Severino Neto dá início à produção de Shangri-la e Duflair Barradas, ao filme O Anel de Eva.

A segunda versão está em curso com análise dos projetos inscritos. Isso deve garantir movimentação no setor nos próximos anos, somada à consolidação do curso de Cinema da Faculdade de Comunicação e Artes da UFMT, que recebe a primeira turma neste primeiro semestre.

Bruno Bini realiza filmagens de seu primeiro longa-metragem. Aqui, aparece ao lado do protagonista do filme, Bruno Gagliasso

 

“Vivenciamos um movimento de retomada, são os primeiros passos, esta é a base para um novo panorama. Depois de anos complicadíssimos não só no audiovisual, como na cultura como um todo que ficou esquecida ou era tratada como coadjuvante dos planejamentos estaduais e municipais, hoje podemos nos beneficiar da sensibilidade dos gestores”, aponta.

Os incentivos, em consonância com a evolução técnica e capacitação dos profissionais locais, para Bini, são atestados de um futuro promissor para a indústria audiovisual mato-grossense. Ele fala isso com propriedade. Testemunhou a evolução do setor.

Indústria do Cinema   

A primeira produção foi em 1999, como videomaker. De lá para cá, conquistou grande destaque no cenário nacional, com um número representativo de curtas sendo exibidos em grandes festivais com direito a prêmios.

“Vivi essa evolução, dos filmes em película aos dois últimos, digitais. Vi uma amplificação no acesso à tecnologia. Hoje, conseguimos economizar recursos, sem precisar contratar pessoal de fora, ou ir a São Paulo ou Rio de Janeiro para finalizar, editar e mixar. Tudo já pode ser feito por aqui mesmo”, diz.

“O Cinema, quando tratado como indústria, é um bom negócio. Não só pelo bem material e imaterial, como também, pela geração de renda. Quanto mais investe, mais se fortalece. Sem contar que o audiovisual movimenta ao menos 24 bilhões a cada ano. Precisamos ter discussões de políticas que permitam colocar Mato Grosso”.

Retomada

A produtora executiva de Cinema, Keiko Okamura, avalia também, que o incentivo público tem garantido novo fôlego. “Isso aconteceu no final dos anos 1990, quando a Secretaria de Estado de Cultura, passou de fundo a uma secretaria autônoma. “A Lei Hermes de Abreu coincidiu com a incursão de diretores de outros Estados, que utilizaram cenários mato-grossenses como locação. À época, poucos atuavam nesta área técnica”.

Ela aponta que nesta época, assim como Bruno Bini, outros entusiastas da sétima arte davam início às suas primeiras produções, caso de Júlio Bedin, Rômulo Fraga, Ana Paula Sant´Ana, Márcio Moreira, Ana Paula Duarte, José Augusto Barbosa e Menotti Griggi. Glória Albues e Amauri Tangará já possuíam um trabalho muito consistente na área.

“Para consolidar esse momento, nascia o Vídeos do Mato, de Luiz Borges, que deu visibilidade a essas produções e estimulou o surgimento de novos nomes. Contávamos também com exibições em cineclubes – bastante populares à época. Mais tarde, viria o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá”, relembra.

Vitrine  

O Festival proporcionou também, um diálogo entre as produções regionais e nacionais, formando e ampliando plateia para o Cinema Nacional. “Mas quando o cinema estava se estruturando, eis que entre 2000 e 2005 por falta de políticas de incentivo, houve um hiato na produção mato-grossense”.

Keiko também tem bons pressentimentos com o momento atual e as iniciativas de incentivo do poder público. “O Cinema se utiliza de uma estrutura maior. Os profissionais do audiovisual de nosso Estado têm se mobilizado para conquistar maior força política, atuando inclusive, em conjunto com a gestão pública. Recentemente, os editais fortaleceram o mercado”.

A produtora executiva, Keiko Okamura, ao lado do diretor Maurício Pinto, nos bastidores de Aquilo Que Me Olha

 

Film Comission

Em meio à numerosa soma de produções agora a tendência é melhorar fase de comercialização dos produtos. “Agora, o foco não é apenas exibir em festivais e salas de cinema, mas também, garantir uma continuidade. Inclusive, em atrair produções nacionais para nosso Estado. É aí que entra a Film Comission”, destaca.

Mato Grosso passa a figurar na lista ao lado de outros 16 estados brasileiros em fase de implantação de uma Film Commission, importante motor de desenvolvimento do audiovisual como indústria. Agentes e poder público têm trabalhado em conjunto ao firmar uma cooperação para o desenvolvimento conjunto de iniciativas que visem proporcionar incentivos, subsídios e isenções.

Pensando nisso, uma frente consolidada com a parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura (SEC-MT), MTCine e Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MT), começa a se mobilizar. Ao estimular a chegada de outras produções em Mato Grosso, o panorama deve ganhar novos contornos e os profissionais locais, novas oportunidades. Com os cenários mato-grossenses como coadjuvantes, a economia no Estado se aquece por meio da contratação de serviços nos mais diversos setores e se consolida a cadeia produtiva local, garantindo emprego e renda para centenas de profissionais.

Engajamento

A cineasta Gloria Albues tem acompanhando a movimentação. Trabalhando atualmente em novos roteiros, ela também acredita que o engajamento político-cultural favoreça o mercado. Há que se ressaltar, Gloria é a mulher a produzir cinema em Mato Grosso.

Na década de 1980 realizou documentários etnográficos sobre a cultura local, muitos deles, temperados pelo viés político, como o cultuado PS Glauber, te Vejo em Cuiabá, com Meire Pedroso e Liu Arruda como protagonistas. O primeiro foi E o Rei Decretou Folia, a partir das pesquisas de Carlos Rosa, produzido em 1981, filmado em U-Matic, à época, o melhor equipamento, utilizado por grandes emissoras de TV.

Glorinha tem atuação expressiva. Foram 17 produções ao longo de sua trajetória frente ao audiovisual, vale ressaltar, Glória vem da vanguarda do teatro mato-grossense. Sempre antenada aos editais nacionais, também acredita que a política cultural tem colaborado muito, porém, em meio ao panorama local, acredita que seja importante que os profissionais continuem se capacitando, daí a necessidade da oferta de mais atividades de formação.

Gloria, homenageada em noite de Latitude 15º, ladeada por outros importantes realizadores do audiovisual mato-grossense: Luiz marchetti, Moacir Francisco, Luzo Reis, Daniele Bertolini, Severino Moreira Reino e Gilson Costa

 

A cineasta realça ainda, a demanda de políticas culturais que visem a exibição, circulação e uma “longa-vida” de circulação destas obras, especialmente, para que um filme possa concorrer a festivais por muito mais tempo. Além disso, ressalta a importância de um festival local que seja um espaço de confluência do debate, da exibição e da formação. “O cinema é uma grande engrenagem que demanda constante atualização e janelas de exibição. Há que se ressaltar a importância do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá que investia neste tipo de ações”, finaliza.

Um vínculo centenário

O idealizador do Festival, Luiz Borges, lamenta o hiato em sua realização. “Depois de uma dissertação de mestrado, percebi que era necessário que o mato-grossense tivesse contato com sua história, com as obras dos realizadores locais. Realizei a mostra Vídeos do Mato, em 1991. Mais tarde, em 1993, ganhou corpo e tornou-se o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Mas como tudo muda a cada governador, não há uma política pública continuada. Prova disso é que nesta gestão do governo, o festival foi interrompido”, desabafa.

Cineasta e pesquisador, Luiz Borges criou uma das primeiras e mais importantes “janelas” do cinema em MT

 

A história do cinema em Mato Grosso, levantada pelo pesquisador, revela muitas curiosidades. Há mais um século, precisamente em 1903 houve a primeira sessão de cinema em Corumbá. Como a navegação era feita pelo Rio Paraguai, Cuiabá só registrou a sua primeira projeção de filmes, em 1908. “À época, o filme era exibido em fitas seriadas de curtíssimas-metragens, bem diferente do que conhecemos hoje. Os primeiros filmes a serem exibidos em Cuiabá, foram os longas metragens O Descobrimento da América por Cristóvão Colombo, a Paixão de Cristo e a Guerra Russo Sul japonesa. O primeiro brasileiro, A Chegada dos Restos Mortais dos Almirantes Barroso e Saldanha Gama.

Produção independente

Ainda em meio à crise econômica, sem ajuda de patrocinadores ou editais, outros realizadores contornam os obstáculos com a produção de obras independentes, como é o caso de João Manteufel. Nos últimos anos, lançou quatro produções, duas com apoio de editais e mais duas independentes: O Mundo Animal de Gervane de Paula e o Poder da Palavra.

“Utilizo a minha estrutura, equipamentos e encontro parceiros que cooperam a partir de cachês simbólicos. Os amigos cobram, mas a preço bem baixo. São entusiastas como eu”, declara.

E assim, o cinema mato-grossense segue em crescimento mobilizado, essencialmente, pela força e coragem de seus desbravadores e realizadores!

Confira a lista de filmes:

 Curta-metragem 

Samanta Col Debella, realizadora de Teodora Quer Dançar, da nova safra de filmes mato-grossenses. O filme também integra o Box de Curtas, resultado da união de forças de produtoras locais associadas

Réquiem Para Flores, Caio Ribeiro

Status: Lançado

Bala Perdida, Luiz Marchetti e Justino Astrevo

Status: Lançado

Teodora quer Dançar, Samantha Col Debella

Status: Lançado

A Gente Nasce só de Mãe, Caru Roelis

Status: Lançado

Juba, Severino Neto e Rafael Carvalho

Status: Lançado

Três Tipos de Medo, Bruno Bini

Status: Lançado

Aquilo que Me Olha, Felippy Damian

Status: Em finalização.

Pandorga, Mauricio Pinto

Status: Prestes a ser lançado

Sísmico, Severino Neto –  curta-doc –

Status: Prestes a ser lançado

Um Peixe Para Dois, animação de Mário Zugair

Status: Em fase de pré-produção

Filhos da Lua Na Terra do Sol, de Danielle Bertolini

Status: Lançado

Aquele Disco da Gal, Juliana Curvo e Diego Baraldi

Status: Lançado

Diretores de Aquele Disco da Gal, Diego Baraldi e Juliana Curvo. Filme também integrou projeto de produtoras associadas

 

 Média-metragem 

A Garota que Existiu dentro de um Mistério, Carol Damasceno e Wuldson Marcelo

Status: Lançado

Veredas do Araguaia, Latitude Filmes com coprodução NPD/UFMT

Status: Lançado

 Longa-metragem 

Loop, Bruno Bini

Status: Filmando

A Batalha de Shangri-lá, de Severino Neto e Rafael Carvalho

Status: Em pré-produção

O Anel de Eva, Duflair Barradas

Status: Em pré-produção

 Piloto de Série 

Tem Que Ser Agora, Duflair Barradas

Status: Em produção

Fé e Tradição, Duflair Barradas

Status: Em finalização

Ciranda, Fellipy Damian e Angela Coradini

Status: Lançado

Diretores do piloto de série Ciranda, já lançado, Ângela Coradini e Felippy Damian

 Série 

Cidade Invisível, Thiago Foresti

Status: Lançado

Ser Tão Araguaia, Amauri Tangará

Status: Lançado

Insustentáveis, Cérberos Filmes

Status: Em finalização

O Pantanal e Outros Bichos, Amauri Tangará

Status: Em finalização

Belíssimo registro de cena de O Pantanal e Outros Bichos, pelo olhar do fotógrafo Ahmad Jarrah

 Documentário 

Ilha da Banana, de Ahmad Jarrah e Bruna Obadowski

Status: Prestes a ser lançado

O Poder da Palavra, João Manteufel

Status: Lançado

Irigaray na Cidade das Artes, João Manteufel

Status: Lançado

O Mundo Animal de Gervane de Paula, João Manteufel

Status: Lançado

Xavante: Memória, Cultura e Resistência, Gilson Costa – documentário

Status: Lançado

Meu Rio Vermelho, de Rafael Irineu

Status: Lançado

Meu Rio Vermelho, do jovem cineasta Rafael Irineu, já está circulando por festivais e mostras

 Telefilme Documental 

As Cores que Habitamos, Maria Thereza

Status: Em finalização

Vila Haiti, Luzo Reis

Status: Em finalização

Quem Tem Medo de Luciene Carvalho, Juliana Curvo

Status: Filmando

Missivas, Maurício Pinto (Brasil, Cuba e Chile)

Status: Filmando

Mata Grossa, Tati Mendes e Amauri Tangará

Status: Em pré-produção

Bendito o Santo que Subia: Entre o Sagrado e o Profano, Izis Negreiros

Status: Em finalização

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