Reflexões do momento – a greve

Greve dos caminhoneira deve ser vista além de mera chateação e perturbação do cotidiano dos brasileiros

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Em geral, o establishment repugna o fato de que é pendurado nas mãos da patuleia e esta muitas vezes custa a perceber que tem a corda entre os dedos.

Não nos enganemos, estado de Direito e garantia da lei e da ordem foram criados também para assegurar que a massa não se insufle contra o status quo.

Em tempos digitais, a complexidade se intensifica. Não há mais líderes, não há centro de comando e o espectro da pauta é amplo e heterogêneo. Não há onde ir, com quem falar e o que arguir pra tentar aplacar movimentações sociais com essa característica.

Como no “passe livre” em 2013, quando se decidiu voltar atrás com o preço da passagem de ônibus, já era tarde demais, agora  redução no preço do Diesel não acalmará mais a turba. Burocratas não conseguem acompanhar a velocidade da “rede” e a cada notícia que chega de que aviões não decolam e alimentos se escasseiam, ânimos se fortalecem numa espiral que se retroalimenta.

Estamos em ano de eleições gerais e nos arrastamos até aqui com o tecido social e institucional brasileiro em frangalhos: estados falidos, corrupção generalizada, bancarrota fiscal, legislador inerte, judiciário indo além da prestação jurisdicional e governo central sem legitimidade, visto o mandato “tampão” que é o de Michel Temer.

Com esse cenário de encruzilhada, penso que talvez chega em boa hora a tentativa dos caminhoneiros de colapsar o país. Essas ações de lockout vão (ou pelo menos deveriam) forçar a elite política, empresarial e financeira a sair da zona de conforto e do falso protestantismo e efetivamente traçar uma agenda para o país. Pergunta-se: o que vem ocorrendo já não seria suficiente para enxergar que tem-se matriz de transporte distorcida, escatologia tributária e mais um rol extenso de outras problemáticas?

No limite, a casta dirigente poderia barganhar seu apoio, com candidatos que se comprometessem documentalmente a um conteúdo programático de reformas. Elas são necessárias, todos sabem, há muito tempo, em muitas áreas, estamos atrasados. Mas os tempos atuais pedem disrrupção e é exatamente por isso que o colapso (ou sua iminência) pode contribuir. Ao menos no mundo dos negócios, os velhos modelos estão caindo de maduros por força de novas ideias que simplesmente empurra quem se manteve inerte para a sepultura. Será que a toalha só deve vir mesmo depois de o copo entornar?

Kaike Rachid Maia, Economista, Arquiteto e consultor de empresas.

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