Redação do Enem: apenas dez cidades de Mato Grosso têm cinema

Tarefa não foi fácil para os candidatos que tiveram que argumentar mesmo sem nunca ter ido ao cinema

Foto: Imaginie

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2019 surpreendeu por seu recorte. Candidatos tiveram que dissertar sobre a Democratização do Acesso ao Cinema no Brasil.

Em um Estado como Mato Grosso, que dentre 141 municípios apenas dez têm salas comerciais de exibição, a tarefa não foi fácil, afinal, muitos candidatos nunca foram ao cinema. Sem vivenciar a magia da sétima arte e compreender sua importância social, muitos se angustiaram com a proposta.

Para boa parte dos estudantes mato-grossenses, afinal, o parque exibidor é bem miúdo e, nos locais onde há cinema, o preço salgado dos ingressos pode ser um empecilho. Ao todo, são 13 complexos e 54 salas.

Segundo o levantamento mais recente do Observatório Brasileiro do Cinema e Audiovisual (Oca) divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), há 64.943 habitantes para cada sala de cinema em Mato Grosso.

Semana de ansiedade

Nessas condições, a semana nas escolas foram permeadas pelas discussões de diversas questões do Enem, mas o tema da redação foi o assunto mais recorrente.

A diretora Danielle Aparecida Gomes da Silva, da Escola Estadual Plena Plácido de Castro, diz que os alunos ficaram nervosos com o tema proposto. A unidade de ensino público fica em Diamantino (210 km de Cuiabá).

“Estamos a uma considerável distância da capital. Boa parte dos alunos é menos abastada financeiramente e, dentro desse contexto, a acessibilidade que eles têm ao cinema é limitada ou praticamente nula”.

Em concordância com a enxurrada de críticas que apontam certo tom elitista da proposta, ela indaga: “os alunos deviam discorrer sobre a democratização do acesso, mas, será que o tema foi democrático, visto que apenas grandes centros têm cinemas e produzem cinema?”

Segundo ela, depois do fim de semana muitos falaram sobre a dificuldade que tiveram para tratar do assunto. “Um alento nisso tudo é que idealizamos nas disciplinas eletivas atividades voltadas à arte e à cultura. Mas eles se assustaram com o recorte do cinema”, conta.

Ela avalia que alguns terão mais chances, graças às atividades da eletiva que neste ano, que trabalha a história do cinema. “Mas não são todos que participam dela”, explica. Em uma das ações previstas pela disciplina, 40 alunos viajaram até Cuiabá para assistir uma sessão do filme do Homem Aranha.

O blockbuster foi o primeiro filme que muitos puderam ver no escurinho do cinema. Para complementar, o filme foi legendado, puxando a sardinha para as aulas de inglês. A experiência pode ter contribuído para que os alunos alcancem uma boa média.

Um problema a resolver

Na Escola Estadual Desembargador Milton Armando Pompeu de Barros, que fica em Colíder (648 km de Cuiabá), a professora de Língua Portuguesa Cíntia Zocolotto diz que muitos receberam com indignação o tema. Na cidade também não há cinema.

“Projetos itinerantes já passaram pela cidade, mas muitos nem participam. Não conseguem enxergar a importância de atividades culturais. Não conseguem fazer essa reflexão, pois, como nunca foram ao cinema, não sabem que é um bem relevante”.

Segundo ela, muitos nunca saíram da cidade. “Como não gostar do que não se conhece? Talvez a educação esteja sendo falha, é preciso que haja investimento em projetos culturais focados nas classes menos privilegiadas”.

Ela vê o assunto como “uma pedra no sapato”. Para Cíntia, foi bom o tema ao menos para estimular a reflexão. “É possível que haja falhas no modelo socioeconômico vigente e na educação emancipadora”.

A escola tenta driblar a realidade com aulas de teatro. “Já tive muitos alunos que me disseram: ‘nunca vou esquecer as aulas de teatro’, ou a única coisa que vou levar são as aulas de teatro’. É sinal de que, se a escola mostra, desenvolve, há mais chances de o aluno entender a importância da cultura, da arte, do cinema”.

Redação nota 1000

A professora Cíntia Zocolotto faz o Enem todos os anos para compartilhar da experiência com os alunos

Cíntia deu aulas à aluna nota 1.000 do Enem de 2017, cujo tema foi “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. Ela própria realiza as provas do Enem todo ano, para compartilhar a experiência com os alunos e se manter atualizada. Há três professores da unidade de ensino em que trabalha, que também são corretores das provas do Enem.

“Trabalho muito o modo de fazer a dissertação. E assim, por mais que seja difícil para os alunos discorrerem sobre um assunto que não conhecem, há cinco competências a que eles devem corresponder”. Com a estrutura argumentativa, é possível dissertar sobre diversos temas e como já é sabido, eles vão tratar de assuntos sociais.

“Por que o cinema não é democrático? Basta pensar na ‘causa 1’ do problema e na sequência, na ‘causa 2’, depois, é preciso fazer uma proposta de intervenção. Avaliando o agente, a ação, o meio e o efeito, os detalhando. Também os alerto sobre o domínio da norma padrão e coesão do texto. Os textos de apoio também ajudam a nortear, a exemplo, um deles falava sobre a migração das salas do interior, para os grandes centros, acompanhando a movimentação da população”. Seguindo as orientações, acredita, haverá um bom resultado.

Para Cíntia, com a visão tecnicista das escolas, não sobra espaço para refletir sobre direitos do cidadão, como à cultura e o lazer. “São necessários”. Ela acredita que a proposta da redação tenha servido para despertar mentalidades e o resultado das impressões coletadas pelas redações, impulsione a formulação de políticas públicas que aliem educação e cultura.

Como aumentar as salas de exibição?

A reportagem entrou contatou a Agência Nacional do Cinema, Ancine, para saber se há alguma programa federal que vise à ampliação do parque exibidor em Mato Grosso. Por meio de sua assessoria, a agência do governo diz que há uma política pública de indução do crescimento e modernização do parque exibidor, ancorada nos seguintes mecanismos:

– o Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica – RECINE;

– as linhas de crédito e investimento;

– o Prêmio Adicional de Renda (PAR Exibição); e

– as políticas regulatórias, inclusive de Cota de Tela.

“Além das políticas existentes , a ANCINE está realizando uma Análise de impacto Regulatório (AIR) sobre o segmento de exibição cinematográfica com o propósito de subsidiar ações de fortalecimento do mercado exibidor”.

Sobre a realização de editais de circulação de projetos de exibição, a Ancine declara que “o lançamento de novos editais depende da retomada das atividades do Comitê Gestor do FSA – Fundo Setorial do Audiovisual”.

Sendo assim, todas as atividades estão paralisadas.

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1 COMENTÁRIO

  1. Gente, pelo amor de Deus, chega de Mimimi, a democratização do acesso ao cinema implica na multiplicação das formas de assitir os filmes! Era só discorrer sobre o fato de que não é mais necessário assitir seus filmes favoritos em uma sala, mas existem outros inúmeros métodos de compartilhar cinema, tanto físico (DVDs, pen drives), como também o mundo virtual.

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