Rap mato-grossense desponta e ocupa a cidade de terça a domingo

Parte do movimento Hip Hop, as batalhas de rap são tradicionais. Nelas, um número geralmente par de MC’s se reúnem para batalhar em duplas. No duelo, em três rounds eliminatórios, os participantes competem com suas rimas ao som do beat – nome que se dá à música que acompanha ao fundo. O vencedor é escolhido por juri popular.

Em Cuiabá e Várzea Grande, o movimento cresce a cada ano que passa. Batalhas surgem em regiões centrais e periféricas, combatendo a marginalização e atraindo grande parte da juventude da cidade. Hoje existem seis batalhas que acorrem de terça a domingo, consolidando um movimento cultural e despontando como ferramenta de movimentação social.

Batalha da Alencastro

A primeira e maior batalha de rap realizada na capital começou quando, há três anos, o MC DeGa Ghunnar chegou à Cuiabá e percebeu uma cena muito fragmentada. “Tinham alguns roles, rodas de rap, mas não tinha nada semanal, com regras, data e hora marcada”. Com a experiência acumulada em Curitiba (PR), onde participou de rodas de rap desde os 13 anos, começou a organizar os MC’s cuiabanos e apresentar a batalha direto, sem faltar a nenhuma edição. “Para mostrar compromisso, sempre batendo na tecla do som autoral”, conta ele.

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Aniversário de 2 anos da Batalha da Alencastro

A Praça Alencastro, localizada em frente à Prefeitura de Cuiabá, foi escolhida pela tradição underground. Ali já havia uma forte movimentação com a galera do skate e do rock, além de ser um local acessível. “Você pode estar lá na saída de Chapada que vai ter um ônibus que vai te deixar aqui no centro”, afirma DeGa. De 2015 para cá, já foram realizadas 128 edições.

Emily Almeida, outra figura importante no movimento, veio de Belo Horizonte (MG) e chegou em Cuiabá no primeiro ano da batalha. Ela já trabalha há 7 anos com movimentos de rua e eventos comunitários, e passou a contribuir para consolidar a Batalha da Alencastro como um movimento cultural no estado. Para ela, o poder público se aproveita da juventude e a inexperiência dos agentes com a burocracia para não investir no movimento ou reconhecer sua importância.

“Existe uma marginalização muito grande das batalhas. O rap tem a questão ‘nós por nós’ muito enraizada e distorcida. Quando você pega qualquer apoio do estado, seja um alvará de autorização do espaço ou uma verba, a gurizada ainda entende isso como uma aliança com estado, mas é uma retomada do que é meu, é pegar um dinheiro que eu invisto em imposto e retornar para a cultura”, afirma Emily.

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2 anos de Batalha da Alencastro 

Ela acredita que a batalha e seu envolvidos precisam ser reconhecidos enquanto movimento, agentes e produtores culturais. “O que a gente faz aqui é produção cultural, saca? O Dega não é só um fundador da batalha, ele é um produtor cultural independente, porque movimenta outras ideias também”. A iniciativa acabou por incentivar outras batalhas dentro e fora da cidade, como a Batalha do Mirante, realizada no CPA III, e a Batalha do Pedra 90, realizada no bairro.

Ainda assim, Emily reforça a necessidade de continuar ocupando um ponto central, pois a batalha cumpre um papel de ponte do centro da cidade com a periferia. “Ela é o que está na rua, é a primeira coisa que vai puxar o moleque para o movimento cultural, é algo que eles vivem e têm a oportunidade de serem ativos. A função do movimento Hip Hop é transformar violência em cultura”.

Após o primeiro ano de repressão recorrente e conflitos com a Polícia Militar, os organizadores da batalha conseguiram iniciar um diálogo com a base do Centro. Mas ainda reclamam da relação que os governos fazem do movimento Hip Hop com o tráfico de drogas e do repasse da administração da Praça Alencastro para a associação de comerciantes, atitude que consideram uma privatização, pois, com a segurança contratada no local, estão com dificuldades de ocupá-lo.

Desde então, mesmo com as adversidades, a Batalha da Alencastro se consolidou enquanto um coletivo, com organização distribuída em funções e articulação nacional. Pela primeira vez, Cuiabá terá um representante na batalha nacional de MCs em Belo Horizonte. “Na minha cabeça, existe um rap cuiabano antes e outro depois da Batalha da Alencastro”, afirma Dega.

Batalha das Mina

Como alternativa às relações de poder e desigualdade de gênero existentes em uma batalha de rima, mulheres MCs e entusiastas do rap se emanciparam e criaram a sua própria. Articuladas, se organizam em reuniões semanais que acorrem nas terças-feiras, às 18h30, na Praça Alencastro, e nas quartas-feiras, às 18h, na Praça Ipiranga, que antecedem as batalhas que estão marcadas no mesmo local – todas as quartas-feiras, às 19h.

A iniciativa surgiu do anseio que Roberta Beatriz, a Rb8, encontrou em suas primeiras rimas que fizeram coro com as de outras meninas. “Duas semanas antes da gente se organizar, eu tinha decidido que ia começar a rimar e estava indo em todas as batalhas dos meninos. Na segunda semana, eu comecei a ver que tinham outras meninas que colavam e a gente começou a ir nos roles e batalhar juntas”, afirma.

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Batalha das minas

RB8 na primeira edição da Batalha das Minas

A Batalha das Minas está em sua 5ª edição, mas não é a primeira tentativa de existir. Ano passado, a rapper Ana Gabriela já havia criado um grupo nas redes sociais para aglutinar as MC’s. “A gente tentou fazer duas edições, na primeira deu três meninas e depois não veio mais ninguém”, contou Pacha Ana. Um post da amiga Natália Menezes, que apontava a necessidade de ver mulheres rimando, principalmente as mulheres negras, reativou o grupo.

Pacha Ana ainda completa que, agora, até as meninas que não batalham querem organizar e ver acontecer. Hoje são quase 40 mulheres se articulando, mesmo não batalhando. Assim, a BdM se consolida como um espaço confortável para muitas delas começarem.

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batalha das minas

Primeira edição da Batalha das Minas, realizada no dia 25 de outubro 

“Existe uma necessidade de colar num role de Hip Hop organizado por mulheres e para mulheres, para que a gente possa escutar coisas que nossos ouvidos se sintam bem, em outras batalhas a gente encontra muita patifaria”, afirma Pacha Ana, que já vem batalhando há algum tempo em várias delas. Natália explica que esse é um dos motivos de realizarem mais “batalhas de conhecimento” que, diferente das “batalhas de sangue”, são temáticas. “É uma forma de sermos ouvidas e não somente se atacar”.

Batalha do Ocupa

Outro exemplo literal do rap como carro chefe de mobilização social acorre, em Várzea Grande, na Batalha do Ocupa. A história da batalha acompanha as sequências de ocupações de espaços públicos na cidade, sempre conduzidas pelo ativista Tiago Chaveiro, também conhecido como Santiago do Pântano.

As primeiras batalhas surgiram em 2013, de forma eventual, quando um grupo de jovens ocuparam o Ginásio Ferreirão, no Bairro Cristo Rei, abandonado há 10 anos. “Primeiro a gente ocupou com o Skate e foi abrangendo para outras atividades, como as batalhas, o Basquete, a Capoeira, o Jiu Jtsu e até Balé clássico, com um professor Belga que dava aulas de francês”, conta Santiago.

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Batalha do Ocupa, na Biblioteca Laurinda Coelho

Quando os Campos assumiram a administração da cidade, em 2016, derrubaram o Ferreirão. Após a desocupação, o grupo partiu para a Biblioteca Laurinda Coelho, que já haviam ocupado na rua Mário Machado. Mas o local também foi desocupado e as batalhas passaram a acontecer ativamente em um campinho próximo, ao lado da CMEI São Domingos Sávio. “É um lugar que também já foi muito atacado pela especulação imobiliária, uma área que a população brigou bastante para manter e não perdeu”.

Desde então, a Batalha do Ocupa nunca mais parou e ocorre todo domingo, o que deu força para o movimento ocupar a biblioteca mais três vezes e conquistar a reforma do local. “Se não fossem as batalhas de rap, possivelmente o Ocupa estaria enfraquecido. Ela deu uma força para a juventude de Várzea Grande, como uma ponte de expressão, onde a gente pode passar muito ideia”, afirma Tiago.

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