Quem são os milhares de eleitores sem candidato e que podem mudar o cenário político?

Votos brancos e eleitores ausentes, se somados, elegeriam um candidato chamado "desinteresse"

Cerca de 600 mil pessoas não compareceram aos locais de votação ou votaram em branco nas últimas duas eleições em Mato Grosso. No pleito de 2018, foram 662 mil apenas no primeiro turno. Já nas eleições municipais, em 2020, o número chegou a 679 mil eleitores nesta condição.

Na comparação com o restante do país, as pessoas que não se identificam com nenhum candidato em Mato Grosso nos últimos seis anos estão na média, que variou entre 20% e 23%. O peso desses eleitores, contudo, fica evidente se os números são confrontados com os resultados dos votos em candidatos nas mesmas eleições. 

Em 2018, a ex-juíza Selma Arruda foi considerada um fenômeno na disputa e recebeu 678.542 votos. A diferença para os eleitores sem candidato foi de apenas 16 mil votos. No mesmo ano, na eleição ao governo, Welington Fagundes e Pedro Taques somaram 552.007 votos. Ou seja, na disputa com um hipotético candidato dos insatisfeitos, eles perderiam. 

Novo eleitor 

Mas, quem são essas pessoas que têm um peso considerável nas eleições e estão deixando de votar. Pelos números, as estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que a maioria são jovens entre 21 e 34 anos de idade, acompanhados por eleitores um pouco mais velhos, na faixa etária de 34 a 39 anos. 

Os homens estão em maior número, mas sem distância que não possa ser coberta no próximo pleito. Nas eleições de 2018 eles equivaleram a 26% do total do público sem candidatos e as mulheres a 23,1%. Em 2020, as proporções subiram para 27% e 23,4%. 

O analista político Onofre Ribeiro diz que esse público é o mesmo que pode fazer a diferença nas eleições deste ano. A avaliação parte de dois critérios. Primeiro, o número de eleitores mais jovens com participação nas eleições tende a aumentar em 2022. 

Conforme o TSE, houve uma marca histórica na emissão de títulos para jovens entre 16 e 18 anos no Brasil que estarão aptos a votar em outubro. O número até o fechamento da data em maio ultrapassou 2 milhões no país. 

“As pessoas que deixaram de voto e registraram voto num candidato são, na maioria, jovens que terminaram a faculdade, vindo de ensino fundamental e médio muito ruins e não conseguem entrar no mercado de trabalho. São jovens que não ligam muito pra essa coisa de política, porque não veem reflexo dos interesses deles naquilo que está sendo proposto”, comenta. 

O contingente dos eleitores mais jovens nos números deste ano teria o mesmo perfil e seguiria a mesma perspectiva. A novidade que parece ter catalisado a procura por títulos é polarização política do Brasil, mais ou menos entre direita e esquerda. 

Despertaram para política, mas não sabem como fazê-la 

Segundo o analista, a situação que ficou mais evidente em 2018, hoje serve combustível para a manifestação dos jovens e o que eles entenderam seria justamente o peso deles via voto. 

Contudo, o cenário pode mais ganhar força para fogo do que para apaziguar o ambiente quente da política. Os motivos aparecem consequentes, mas têm histórias próprias. Onofre Ribeiro diz que os políticos brasileiros têm errado em não abrir os olhos para o novo perfil de eleitores que surge. 

Os números expressivos das eleições passadas de eleitor sem candidato são vistos como reflexão da persistência num modelo de política herdeira do conflito entre o capitalismo e a socialdemocracia. 

“Para enxergar esse público, a política brasileira precisa mudar, e mudança não é uma coisa que agrade muito os políticos. A proposta que têm hoje é a mesma de 30, 40 anos atrás, quando o cenário da política era outro e o perfil dos eleitores era outro também”, comenta. 

Os jovens hoje estão mais conectados ao mundo virtual e o mundo é visto sem fronteira. Ter uma política que faça ou não sentido para um grupo de pessoas identificadas é uma questão quase borrada para o novo eleitor. E as dificuldades econômicas do país, somadas a um alheamento político, fazem o mundo ser visto como espaço aberto com mais nitidez. 

“É projeção da modernidade líquida que foi identificada décadas atrás. O mundo do jovem hoje em dia é um celular na mão conectados à internet – e nisso eles são melhores do que ninguém – e uma mochila nas contas. Eles não têm apego com comunidade ou se têm alguma ligação é muito frouxa. São mais individualistas”, afirma. 

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