Profissão caminhoneira: aqui o sistema é bruto, mas a força é feminina

Morando no caminhão, é alvo de curiosos nos postos de gasolina de Mato Grosso

Há sete anos Luana roda as estradas do país transportando cargas (Reprodução Instagram)

Sabe aquela sensação de liberdade tão presente nos road movies? A caminhoneira Luana da Silva Paiva, a experimenta diariamente. Assim como nos filmes em que o personagem se descobre na estrada, foi viajando que assumiu o protagonismo da sua vida.

Com as unhas pintadas e mãos delicadas, ela dirige um caminhão de carga. E a força e a autonomia dessa jovem mulher pode ser que incomode, mas na maior parte das vezes, é alvo de surpresa.

“Foram várias as vezes em que desci do caminhão em um posto de gasolina, por exemplo, e juntou um pessoal em volta”. Quase sempre querem tirar foto.

“Eles se surpreendem ao ver uma mulher dirigindo um bitrem nove eixos. Querem saber como é minha rotina. Mas há quem desafie”.

Dia desses um caminhoneiro mais experiente a chamou e disse: “dirigir caminhão automático é fácil, queria ver é dirigir um bate-alavanca”.

Pois orgulhosamente ela o respondeu de pronto: “foi justamente com um bate-alavanca que trabalhei os primeiros anos, só agora consegui comprar um automático”.

A jovem que começou com carga seca – grãos -, passou a carregar combustível – carga perigosa – e hoje, transporta carne em câmara fria.

A pioneira, Neiva Chaves Zelaya, que no início dos anos 1950 tornou-se a primeira mulher habilitada a transportar cargas, é exemplo para ela e outras milhares, mais que ainda assim, são minoria em um universo predominantemente masculino.

“Muito respeito pela Neiva. Assim como ela, tenho orgulho do que faço. Sou a única da família. Na contramão do desejo dos meus pais de que eu tivesse cursado uma faculdade. Mas não tinha como ser de outro jeito”.

 

A menina que só brincava com caminhão

Desde a infância, a brincadeira preferida envolvia caminhões. “Eram de plástico. Mas depois de tanto a minha pedir para eu brincar de boneca com minha irmã, vendo que não ia ser diferente, se rendeu e me deu um grande, de madeira, com caçamba. Eu nunca me esqueço disso”.

A jovem natural de Santo Antônio da Platina (PR) quando criança morava na zona rural. “Na adolescência fomos para a cidade. E então, aos 21 tirei a habilitação para caminhões. Logo, comprei minha casa”.

Mas ela ressalta logo depois: “minha segunda casa, que eu só visito. Morar, moro mesmo é no caminhão”. O bairro é a estrada, a cidade, qualquer uma.

“Pego carga em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Goiás, Rio Grande do Sul, subo para o Nordeste… Mas em Mato Grosso passo boa parte do meu tempo, de uma cidade do interior a outra, passando por Cuiabá, curtindo aquele calorzinho gostoso”, se diverte.

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O sistema é bruto, mas a vaidade “fala alto”

A rotina começa bem cedo para as viagens renderem mais. “Tomo café da manhã, almoço, janto na estrada. Roupas deixo em um lugar e na volta pego. Para cuidar do visual, frequento salões em vários lugares. Quando estou chegando já aviso: ‘preciso fazer o cabelo, a unha’. Sempre sou atendida porque as meninas sabem da minha rotina”.

Dormir, claro, na cama do caminhão, estacionado em algum posto na beira da estrada. “Daí levanto e sigo caminhada. Vivo acelerando, vendo paisagens maravilhosas. Como as de Mato Grosso. Tenho muito carinho. É um Estado de gente acolhedora”.

Mas é claro, nem tudo são flores. “Perrengue já passei bastante. Já aconteceu de caminhão estragar onde não pegava celular, daí o lugar é deserto, você tem que acionar guincho… mas os companheiros de estrada estão sempre por ali para ajudar”.

E companheiras também. “Fico muito feliz quando isso acontece porque trocamos dicas, eu mesma já orientei muita mulher que estava começando”.

Quanto ao que considera pequenos obstáculos pode acontecer de chegar para descarregar em uma empresa que não tem banheiro feminino, por exemplo. “Mas sobre uma coisa muito ruim que pode acontecer, o assédio, graças a Deus, nunca passei por isso. Às vezes rolam umas cantadinhas, mas nem dou bola”.

No momento, está solteira. “É difícil encontrar alguém que entenda essa vida. Mas o que é meu está guardado”.

Mas diferente do que mentes fechadas podem imaginar, Luana não abre mão de ficar sempre bonita.

“Sou bastante vaidosa. Acordo cedo, faço maquiagem, arrumo sempre um tempo para ir ao salão. Faço as unhas, hidrato o cabelo, gosto de estar sempre apresentável. A gente sabe que o sistema é bruto, mas a vaidade fala mais alto”.

 

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Enquanto não descarrega a gente faz as unhas.. 😍

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Caminhoneira tem poder

A tal sensação de liberdade e de autonomia, faz todo esforço valer a pena. “Pense bem, viajo para vários lugares, conheço várias pessoas, organizo meu tempo, faço meus horários, corro atrás das cargas e quando descarrego e cumpro o contrato, me traz muita satisfação ver a cara de felicidade do contratante”.

Mas há espaço para lazer? “É raro, mas como caminhoneiros fazem muitos amigos… Chego nos lugares e se tiver um tempinho vou ao shopping, assisto a um filme no cinema, aproveito um churrasco entre amigos”.

Depois, volta ao batente. “Quando me perguntam sobre ser mulher e ser caminhoneira me vem logo à mente o poder que eu sinto de dirigir um caminhão com um porte desses por grandes e desertas rodovias. A sensação de liberdade não tem igual”.

Pequeno universo

Luana representa uma parcela mínima de profissionais que serve de modelo para outras mulheres que sonham com o ofício.

De acordo com dados mais atuais divulgados pelo Ministério das Cidades, em 2018, das 2,3 milhões de pessoas habilitadas a dirigir caminhões e carretas, pouco mais de 153,8 mil eram mulheres. A fatia mínima representa não chega a 7%.

Em Mato Grosso elas são pouco mais de 1 mil mulheres. Confira a tabela produzida pelo site Universa. Os dados são de 2018.

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