Pressa para chegar: bebês nascem nas estradas de Mato Grosso com apoio de socorristas

Melissa, por exemplo, nasceu dentro do carro que levava sua mãe à maternidade

Melissa veio ao mundo dentro do carro e depois foi para a ambulância para receber mais cuidados (Divulgação Rota do Oeste)

O nascimento de um filho marca um novo tempo na vida da mulher. Além dos desafios das transformações físicas e hormonais e o turbilhão de emoções durante a gravidez, têm ainda a ansiedade pela temida dor do parto ou do pós-operatório, no caso da cesariana.

Mas e se além disso tudo – nas horas ou minutos que antecedem o parto – ela ainda tiver que lidar com o impasse de não saber se consegue chegar até a maternidade? A auxiliar de produção, Ivanete Gurkievicz, 39 viveu uma emoção como esta. Ela é uma das dezenas de mulheres cujas bebês vieram ao mundo em plena estrada.

Desde o início do funcionamento dos serviços operacionais a Rota do Oeste já auxiliou e realizou 17 partos ao longo do trecho de 850,9 km sob concessão da BR-163. Mulheres saíam de municípios de abrangência da concessionária em direção a Cuiabá, quando tiveram que ter seus filhos dentro de ambulância ou até chegar à elas, dentro do carro mesmo.

Bebê escorregou

Ivanete viu quando a filha quase encostava a cabeça no “chão do carro”. “Eu comecei a passar mal em casa e saímos correndo para Cuiabá. Mas eu dizia para o pai da Melissa que não conseguiria chegar até lá. Paramos em uma base da Rota Oeste e enquanto ele desceu para chamar o médico, Melissa já foi saindo. Foi o enfermeiro que a pegou praticamente no ar. Ela escorregou”, diz a mãe que agora se diverte ao lembrar da situação.

Ela conta que no dia 25 de novembro daquele ano quando estava em Cuiabá para uma consulta e temendo pela distância pediu ao médico que realizasse uma cesariana, mas ele pediu que ela aguardasse até o dia 30. Se não houvessem contrações até aí o parto seria feito no dia seguinte. Mas Melissa mal podia esperar para vir ao mundo.

Ivanete começou a sentir as contrações à meia-noite do dia 30. No dia seguinte ela iria à Cuiabá. “Mas foi tudo muito rápido. À meia-noite desse mesmo dia comecei a sentir as contrações e saí de casa às 0h30 correndo. O parto aconteceu à 1h”.

Amor incondicional

Ela guarda boas lembranças daquela data. Hoje mãe solteira de Melissa, ela se derrete ao falar da filha: “ela é bem tagarela, muito meiga e muito carinhosa”. A única coisa que tiraria desse momento é o desdém do pai, que segundo Ivanete, nunca pegou a filha no colo. “Nem mesmo nesse dia. Ele nunca a quis. Os médicos tinham cortado o umbigo e envolvido ela na mantinha. Na mesma hora foram entregá-la para que ele a carregasse no colo, mas ele não quis. Rapidamente eles a entregaram para minha filha mais velha, que estava conosco”.

Ele conviveu com a família dela por cinco anos, mas hoje, mora em outro local. A família foi desfeita e Ivanete mora hoje no bairro Jardim Industriário. O ex-marido tinha um estabelecimento na estrada e foi justamente um dos clientes deles que lhe deu uma oportunidade de trabalho. “Graças a Deus com a ajuda da minha filha mais velha, a Sabrina, que também trabalha, não nos falta nada”. Ivanete tem ainda Byanca, de 11 e Hérika, de 15.

“Quando eu estava grávida mesmo, nunca me apoiou em nada. Eu ia de ônibus para fazer os exames. Quando era particular, eu mesma pagava a conta. Nunca deu um par de meia de presente para a filha. A única coisa que ele faz é de vez em quando, dar uns 200 ou 300 reais por medo de ter que pagar pensão. Mas eu nunca vou exigir nada dele”.

É com o relato dela que é confirmada a máxima de que os desafios de uma mãe vão muito além da gravidez e do parto. “O que eu fiz com alguém assim? Bom, não podia prever. Eu só tentei ter uma família”.

Anjos da estrada

A Rota do Oeste dispõe hoje de 18 ambulâncias, sendo 5 com equipamentos de UTI móvel, para prestar atendimento ao longo dos 850,9 km sob concessão. Cada unidade fica disponível em uma base de atendimento da Concessionária, localizada a uma distância média de 47 km, uma da outra.

Segundo a assessoria da Rota do Oeste, o primeiro parto na rodovia foi realizado em 24 de setembro de 2014, em Vera (a 486 km de Cuiabá).

Melissa veio ao mundo com 3,2 quilos e 48 centímetros e os primeiros cuidados foram prestados pela equipe da Base do Sistema de Atendimento ao Usuário (SAU) 07, em Santo Antônio de Leverger.

Até então, o médico Thiago Castro Silva, o enfermeiro Vinicius Camolesi e condutor-socorrista Agno Costa, nunca tinham ajudado em um parto.

À época, o médico narrou a emoção do momento. “Eu e o Vinicius temos filhos e o Agno tem um sobrinho. Foi bem emocionante auxiliar no parto, mais ainda quando entregamos a Melissa para a irmã mais velha segurar”, recorda.

Segundo o médico, Ivanete chegou já no estágio expulsivo e o trabalho que a equipe teve foi de amparar a criança e de realizar os procedimentos padrões para a situação. “Ela nasceu com uma saúde boa, choro forte. Foi um dia bem diferente para nós, que somos acostumados a atender vítimas de acidente”.

Mesmo com o turbilhão de coisas acontecendo naquele momento, Ivanete lembra que els estavam nervosos. “Mas foi só no começo, depois foi a maior animação. Eles tiraram fotos com a bebê e comigo”. Ela conta que nunca mais teve a oportunidade de vê-los, “mas sou muito agradecida a eles”.

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