Presidente do sindicato dos Correios diz que foi vítima de perseguição política

Edmar Leite foi acusado de promover uma festa com som alto; segundo ele, policiais agiram com truculência

(Foto: Reprodução)

Acusado de desacatar e agredir policiais militares, além de ameaçar vizinhos, o presidente do Sindicato dos Correios de Mato Grosso (Sintect-MT), Edmar dos Santos Leite, afirma que a versão que consta no boletim de ocorrência sobre os fatos ocorridos na noite do último domingo (2) é mentirosa.

Segundo ele, no lugar da festa com som alto que teria incomodado os moradores de uma casa de apoio para doentes de câncer, o que houve foi uma reunião para deliberar a participação dos trabalhadores dos Correios de Mato Grosso na greve geral, programada para o próximo dia 14. E a decisão dos vizinhos de chamar a polícia teria sido motivada por uma perseguição política.

“Aquilo ali não há outra explicação, senão um ataque de cunho político”, disse em entrevista ao LIVRE, o presidente que ainda acusou os policiais militares que foram até o local de truculência.

A reportagem procurou a assessoria da Polícia Militar de Mato Grosso que afirmou, em nota, que até o momento a Corregedoria não recebeu nenhuma denúncia sobre a ação dos policiais e que, para que haja uma investigação, é necessário que a denúncia seja formalizada.

“A partir da denúncia apresentada a Corregedoria, será instaurado um procedimento investigatório para apurar a conduta dos policiais”, diz trecho da nota.

A reunião

Segundo Edmar, o encontro dos trabalhadores dos Correios no último domingo começou por volta das 9 horas da manhã. O encontro acabou se estendendo até a noite, conforme o presidente, mais ou menos até as 20h.

A demora se deu porque estavam reunidos representantes de todo Estado, decidindo as posições do sindicato frente à greve geral – que vem sendo organizada por sindicatos de todo Brasil contra a reforma da Previdência, a privatização das estatais e os cortes de verba da educação.

Edmar negou o que os vizinhos relataram à PM. Disse que após as deliberações serem finalizadas, a suposta festa, na verdade, se tratou de um jantar, já que estavam todos há horas reunidos. A comida foi bancada por uma cota, feita na hora, e participaram do evento esposas e filhos dos sindicalistas que, no momento, já estavam presentes.

“Nós estávamos entre família, com a direção do sindicato. Tinham crianças, tinham esposas, não tinha nada de balbúrdia. A gente estava com uma caixa de som pequena, dessas caixas que você compra no camelô, que o volume vai até o 32, mas o volume estava no 20. O som era ambiente, até porque a gente estava conversando, inclusive, algumas coisas do que a gente tinha discutido na reunião”, ele relatou.

As visitas da PM

Consta no boletim de ocorrência que uma equipe da Polícia Militar foi até a casa duas vezes e apenas conversou com os sindicalistas. Edmar confirma essa parte e conta que, junto com a equipe, estava uma vizinha da sede do Sindicado dos Correios. Segundo ele, nessas duas ocasiões, os policiais não quiseram entrar.

“A gente perguntou se os policiais queriam entrar e eles disseram que não era necessário, que se o som continuasse naquela altura, não tinha nenhum problema”, afirmou o sindicalista.

Edmar afirma que, por precaução, o grupo chegou a abaixar um pouco mais o som e a se policiar para falar mais baixo. Isso, porém, não teria evitado que os vizinhos chamassem a polícia uma terceira vez. Nessa ocasião, uma equipe diferente teria ido até o local, já com apoio de outras duas viaturas.

“Eles chegaram falando: ‘olha, vamos ter que levar alguém para a delegacia, vejam aí alguém, que a gente vai ter que registrar um BO’”, ele relata.

Segundo a versão do boletim registrado, nesse momento os sindicalistas teriam ido até o fundo da sede do sindicato e passado a xingar e desafiar os militares. Edmar, mais uma vez, contesta o que está escrito.

“Eles queriam um representante para acompanhar até a delegacia. Nesse interim, quando os companheiros chegam lá no fundo e estão passando o recado para nós e a gente está recolhendo as coisas, fomos surpreendidos com a invasão da polícia. Nós estávamos nos fundos do sindicato e a polícia entrou por um corredorzinho, com arma em punhos”, disse.

Vídeos

Imagens das câmeras de segurança do sindicato – fornecidas ao LIVRE por Edmar – mostram alguns policiais pulando o muro. Revelam também que a vizinha denunciante entregou um pé de cabra na mão de um militar e que o instrumento foi utilizado para quebrar o cadeado do portão. Veja:

“Eles chegaram lá no fundo todos já alterados, vários sem identificação, todos com arma em punho. Um policial saca a arma e dá um tiro para cima, o que já assusta todo mundo. E eles chegam dizendo: ‘mãos para cima, seus vagabundos’. A todo momento a gente tenta argumentar dizendo: ‘calma, gente, não precisa disso’”, afirmou o presidente.

No registro da ocorrência, os militares afirmaram terem sido agredidos pelos sindicalistas, que teriam tentado tomar a arma de um policial e colocado outro contra parede. Edmar, porém, nega as acusações, afirmando que em momento algum houve reação e que todos tentaram apenas conversar. Segundo ele, partiu dos policiais a primeira agressão, com spray de pimenta.

“Os policiais vieram direto até mim, que sou o presidente do sindicato, dizendo: ‘nós temos que te levar, você tem que ir, você vai ser preso, tem que ser você’. Minha esposa tentou filmar e foi empurrada pelos policiais”, ele disse.

Nesse momento, segundo o presidente do sindicato, o carteiro e diretor do Sintect na região de Sinop (500 km de Cuiabá), José Pereira Miguel, teria sido jogado no chão por um militar. Ele teria sido cercado por uma equipe e espancado.

“Um policial o espanca, apoia o joelho no seu peito, ele caído no chão, prensado contra a parede, um policial o espanca no rosto. A gente levou ele para o hospital ontem [terça-feira, 4], porque o inchaço não passava. Foi feito um exame de imagem e foi constatado que ele teve um osso da face fraturado. Ele está internado”, afirmou Edmar.

Segundo o presidente do sindicato, depois que José Miguel foi agredido, os policiais teriam se voltado em direção a ele. A princípio dois militares, depois três, até o cercarem, agredirem e prenderem. “Me jogam no chão, me dão mata leão, me dão gravata, me esmurram e eu a todo momento só tentando dialogar”, disse Edmar.

A câmera de segurança do Sintect flagrou a ação. Veja:

A prisão

“Sem nenhuma defesa, com as mãos para trás, eu bato o rosto no chão, tanto que eu estou com hematomas no rosto. Já deitado no chão e algemado, é aplicado novamente spray de pimenta nos meus olhos. Aí fui conduzido para a delegacia”, continuou relatando o presidente do sindicato.

Edmar conta ainda que, quando estavam saindo do sindicato algemados, ouviu os vizinhos denunciantes gritando: “fora daqui, seus petistas”.

Conforme o sindicalista, só os vizinhos da casa ao lado à sede do sindicato denunciaram o encontro. Os demais não teriam prestado queixa, como foi citado no boletim de ocorrência. Os residentes da casa de apoio que fica em frente ao Sintect teriam sido incluídos na denúncia, portanto, de forma irregular.

“No boletim de ocorrência, consta que eu ameacei a vizinha, consta o meu nome como uma das pessoas que a ameaçou de morte, mas isso nunca aconteceu, até porque eu nunca os encontrei pessoalmente”, afirmou Edmar.

Denúncia

Em posse das imagens das câmeras de segurança, o Sindicato dos Correios vai entrar com uma ação na Corregedoria da Polícia Militar e no seguimento dos direitos humanos, alegando que os militares agiram com violência.

O Sintect também está analisando outras medida que possam ser adotadas contra a, segundo o presidente, denunciação caluniosa.

Edmar afirmou ainda que, após a prisão dos sindicalistas, todas as anotações feitas durante a reunião do domingo (2) desapareceram.

“A relatoria da reunião, que estava sobre a mesa do sindicato, desde então desapareceu. Isso nos remete aos tempos da ditadura militar, polícia invadindo sindicatos, documentos desaparecendo”, afirmou Edmar.

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