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População de rua e a covid: como vacinar quem tem o mundo como endereço?

Foto de Caroline Rodrigues
Caroline Rodrigues

Entre a lucidez do “eu estava esperando vocês chegarem” à alucinação de “a vacina é um chip líquido feitos por alienígenas”, as 16 servidoras dos dois Consultórios de Rua de Cuiabá dão sequência a imunização contra a covid-19 dos que não moram em baixo de um teto ou cercado por paredes.

Porém, isso não significa que não tenham endereço. Coordenadora do Consultório de Rua, Vera Lúcia Ferreira explica que existe um mapeamento das pessoas em situação de rua e algumas chegam a ficar 20 anos no mesmo local, que elas passam a chamar de casa.

Tudo bem que isso não é característica de todo o público que, muita vezes, também é formado por errantes e que vivem em constante mudança. São dois perfis totalmente diferentes que precisam ser atendidos pelo mesmo serviço, o de imunização.

Segundo a coordenadora, houve uma dificuldade em se encontrar os idosos que receberam a primeira dose da vacina na hora de receber a segunda, mas a quantidade de não encontrados seguiu uma relação de 15 vacinados com a primeira dose para 2 não encontrados para a segunda.

O resultado não significa que parte do trabalho foi perdido porque, como os caminhoneiros e outras profissões, basta o morador de rua procurar o Consultório de Rua da cidade onde está ou o serviço de saúde para completar o esquema vacinal.

Para eles, não é exigido o comprovante de residência e a falta de documentos também não é um limitador. Basta a pessoa informar o nome completo, a data de nascimento e o nome da mãe para que a unidade de saúde faça a busca pelo cartão do Sistema Único de Saúde.

De posse dos dados, é possível identificar quando a primeira dose foi aplicada e qual o tipo de vacina.

Foto: (Prefeitura de Cuiabá/Luiz Alves)

Aceitação

Até hoje, o grupo já aplicou 235 doses da vacina contra a covid-19, o que corresponde a 36,5% do total da população de rua da Capital, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Eles estão trabalhando por grupos e já se instalaram na região do Porto, Beco do Candeeiro, Jardim Leblon e Rodoviária.

Vera Lúcia Ferreira relata que, ao contrário do que é massificado, os moradores de rua são informados. Eles questionam os prós e contras de cada vacina, estão atentos as questões políticas que envolvem o processo de imunização e têm acesso a informação pelo whatsApp e Internet.

No processo de vacinação, 3 a cada 30 se recusavam a tomar a vacina, sendo que parte deles estavam sobre efeito de entorpecente. “Alguns até hesitaram no começo, mas depois aceitaram quando viram os demais vacinando”, explica.

Agora, quando o consultório sair para a terceira etapa do processo, haverá uma nova aproximação das pessoas que se recusaram, para que elas também aceitem o imunizante.

Como encontrá-los?

O tradicional fuxico, unido à tecnologia do Whatsapp, ajuda as servidoras do Consultório de Rua a achar quem mudou de lugar antes da última dose. Segundo a coordenadora, bastava perguntar “onde está fulano?” e rapidinho chegava a informação.

A rede de comunicação da população de rua é muito eficiente e dificilmente os técnicos davam viagem perdida. E, nesse “trabalho de formiguinha”, as pessoas foram sendo encontradas e vacinadas.

Foto: (Prefeitura de Cuiabá/Luiz Alves)

Por que não usar a vacina de única dose?

Na segunda etapa do processo, o consultório chegou a usar a vacina da Janssen, que é de dose única. Contudo, ela está em falta no estoque do município e não é viável interromper os atendimentos por conta disso, já que existe a possibilidade do morador de rua se vacinar em outro município.

Isso sem contar que a porcentagem de pessoas não encontradas para a segunda dose foi baixa. Por esse motivo, na terceira etapa do trabalho, que encerou-se na semana passada, foram usadas as vacinas Astrazeneca e Coronavac.

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