Política além do partidário: os desafios de ser primeira-dama, deputada e prefeita

Thelma de Oliveira (PSDB) faz parte da "tímida" participação das mulheres em prefeituras. Estudo aponta que elas chefiam apenas 12% dos municípios

(Foto Divulgação

Nas últimas eleições municipais, apenas 15 mulheres foram eleitas para chefiar prefeituras em Mato Grosso. O número representa 10% dos 141 municípios do Estado. À época, entre as eleitas estava Thelma de Oliveira (PSDB), 62 anos.

Ela passou a comandar Chapada dos Guimarães, município com pouco mais de 19 mil habitantes, que fica a 65 km de Cuiabá. Faz parte do que chama de “representatividade tímida”.

“A nossa representatividade é muito tímida e pequena, tendo em vista o papel que a mulher exerce em todos os setores da sociedade. Isso fica mais evidente quando se reflete a cerca de que somos mais da metade do eleitorado”, analisa.

Em números, a representatividade feminina nas últimas eleições além de “tímida”, diminuiu. Foram eleitas, em 2016, um total de 640 prefeitas em primeiro e segundo turno; 3% a menos que em 2012.

De acordo com os dados do TSE, o Brasil conta, atualmente, com 649 prefeitas e 4.919 prefeitos em exercício. Ou seja, para cada 7,5 homens, há uma mulher no comando de uma prefeitura.

O indicador é menor que o de países como a Espanha e Uruguai onde o percentual de mulheres que ocupam cargos de chefia do poder local é de 19,1% e 21,4%, respectivamente.

Para Thelma, a origem da disparidade é cultural e social.

“A mulher foi criada para ficar dentro do lar, cuidando da família. Foi também excluída por séculos dos processos políticos. Demoramos muito para começar a votar, por exemplo. Além de caminhar nesses quesitos, ainda é preciso alinhar com os partidos políticos que são comandados em 99% dos casos por homens”.

Números que destoam

A situação é realmente destoante: as mulheres são 53% do eleitorado brasileiro, 44% das filiações em partidos políticos, 57% de quem ingressa no ensino superior e 44% das vagas no mercado de trabalho formal do país.

Thelma reconhece o avanço já conquistado no espaço político, mas também enxerga outros desafios a serem superados. Entre eles chegar ao comando dos partidos.

“Já houve grandes avanços, mas ainda precisamos ocupar os espaços dentro dos partidos, porque não haverá mais avanço dessa forma. Quando uma mulher ocupa um cargo dentro de um partido é preciso empoderar outras mulheres”, considera.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Alziras revelou que 48% das prefeitas brasileiras mencionaram a falta de recursos para a campanha ao serem solicitadas a indicar até três principais dificuldades que enfrentaram na carreira política e que atribuem ao fato de ser mulher. Assédios e violências simbólicas aparecem em segundo lugar, seguido da falta de espaço na mídia.

LEIA TAMBÉM

Os dados citados foram compilados no “Perfil das prefeitas no Brasil”. O documento completo pode ser acessado clicando aqui.

Trazer outras mulheres para cargos de direção é uma das apostas de Thelma para contrapor o sistema machista. “Isso significa que outras causas que, provavelmente, não são prioridades para os homens terão visibilidade”, afirma.

Na gestão de Thelma, porém, apenas dois dos 15 principais cargos da prefeitura são ocupados por mulheres, segundo o site oficial do município.

Esposa de Dante

O currículo político de Thelma é extenso. Ela já foi deputada federal por dois mandatos (entre 2003 e 2011) e, desde 2017, comanda Chapada dos Guimarães. Faz questão de reforçar que “tudo o que a gente faz é política”, portanto, diz ter começado nesse meio  desde muito cedo.

Para além dos cargos eletivos e do envolvimento com a política partidária, Thelma se envolveu com movimentos políticos ainda na época da faculdade, quando “militava em busca de melhorias e era envolvida com questões do DCE”, explica.

Formada em Enfermagem pela UFMT, conheceu Dante de Oliveira – com quem se casou –  ainda durante a graduação, “aos 20 e poucos anos”. O ex-governador de Mato Grosso também foi prefeito de Cuiabá por dois mandatos. E a influência dele na carreira dela é apontada por muitos como o motivo de sua ascensão política. Fator que ela não nega.

“Foi através dele que fui levada para a política partidária. Mas, como sempre fiz, procurei ocupar outros espaços políticos e participar. Tem outras esposas de políticos famosos que estacionaram a vida política. Não foi o meu caso, agreguei o ativismo ao fator partidário”.

No Brasil, segundo o Instituto Alziras, 65% das prefeitas com mandato em exercício possuem algum familiar homem que já foi eleito em algum momento da vida. O Centro-Oeste (na comparação com as outras regiões) é a região que tem o maior percentual: 74%.

Tudo é política

Thelma considera viver um ato político. “Sempre que vou nos bairros e converso com o presidentes, eles dizem que não fazem política. Ora, eles passam o dia correndo atrás de melhoria para o bairro, para região. Como isso não é política?”, questiona.

A agora prefeita cita como prática política, por exemplo, o envolvimento efetivo dela com a pasta da Assistência Social, geralmente atribuída às primeiras-damas dos municípios e do Estado. “A diferença, porém, é que não fazíamos apenas o trabalho beneficente, para arrecadar fundos, comprar cobertor”.

E como tudo é política, a vida pessoal – às vezes – entra no jogo. Thelma consegue notar a diferença de tratamento de acordo com o cargo que ocupa. Na prefeitura, lidando com opositores e mais diretamente com o morador, os ataques usando fatos da vida pessoal são mais frequentes.

Atualmente ela processa um vereador que, segundo ela, foi extremamente agressivo usando a vida pessoal contra ela. “Quando não se pode atacar no campo administrativo, usam a vida particular. O que não acontece com homens”, repara. “Mas a minha vida é minha e não importa a mais ninguém”.

A situação é vivida por mais prefeitas ao redor do Brasil: 53% delas disseram que já sofreram violência ou assédio em sua carreira política pelo simples fato de ser mulher.

“Percebe-se, assim, o uso da violência pelos homens como um dos instrumentos de manutenção de seu poder, dificultando a participação de mais mulheres nesses espaços. Nesse sentido, a violência política contra mulheres tem a dupla finalidade de constranger/punir a mulher por ocupar um espaço masculino e a de restringir sua participação e sua possibilidade de tomar decisões”, alerta o Instituto Alziras.

Thelma diz que não se amedronta, mesmo após um diagnóstico de câncer de mama ela é candidata à reeleição em Chapada dos Guimarães. “Peguei uma prefeitura quebrada, que era usada como cabide de empregos e estamos colocando ordem na casa”, finaliza.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorHomem é agredido pela esposa com raquete de matar mosquito
Próximo artigoProblema antigo: o que Cuiabá tem que fazer para a saúde pública funcionar?