Piadas sujas, sexualidade e a direita brasileira

Respeito à mulher não é "coisa de esquerda": é coisa de gente digna

Alguém postou uma piada suja, dessas que reduzem a mulher a um pedaço de carne, num chat de “Whats” que só tem gente séria… professores, intelectuais, etc. Confesso que minha reação, quando finalmente entendi a piada, foi de raiva, mas mesmo assim fabriquei um “kkkkk” falso.

Tive que ler a piada várias vezes para entender. Referia-se a uma moça, sem dúvida bonita, que aparentemente ganhara uma viagem para um lugar, mas tinha que levar a “comida”. Custei para matar a charada. A “comida”, é claro, era a moça, e esta era a “punch line” da piada.

Depois de meditar na ideia por alguns segundos, fiquei me perguntando por que não havia entendido. Será que emburrei com a idade? Como dizem alguns, o computador mais usado tem que trabalhar com muito mais dados, por isto se torna mais lento…

Nada disto. Uma sensação de alívio me tomou quando entendi que o mundo que me cerca agora, já há alguns anos, não tolera esse tipo de tratamento sendo dado às mulheres. Portanto, interpretações sexualizantes e depreciativas não são a primeira coisa que ocorre como ferramenta de interpretação de uma metáfora como esta, de “trazer a comida.”

Para explicar tenho que importar um termo da ciência, dos experimentos psicológicos e cognitivos. O termo é “prime”. Quando se faz experiências em psicologia social, por exemplo, para testar uma hipótese você dá aos participantes opções de escolha, mas antes, geralmente, para preparar o cérebro da pessoa no terreno específico em que se dá a experiência, você tem que “prime” a pessoa.

Ou seja, colocar algum detalhe de informação como estímulo cognitivo na sala onde a experiência é realizada. O detalhe não pode ser muito específico, mas suficiente para engatilhar na memória cognitiva das pessoas sendo testadas aquele campo de conhecimento, para facilitar a experiência.

No ambiente cultural brasileiro o “priming” para o sexo está sempre presente. Sexo permeia tudo e informa as relações sociais de uma maneira mais agressiva e óbvia no Brasil do que nas sociedades onde convivo hoje. Metáforas relativas a cópula e a partes genitais também traduzem a dominância do tema sexual.

Uma vez, ensinado português para uma amiga na cozinha, sentia-me no dever de alertá-la para o duplo sentido das palavras. Ela então teve a liberdade de reclamar: “Mas Braulia, parece que todos os vegetais tem um correspondente sexual?? Tive que admitir que era verdade. Maçã, melão, cereja, pepino, cenoura, berinjela, bagos, banana, o que mais? Fora palavras do dia a dia, que nem preciso alistar aqui.

Até meu próprio nome, nome próprio familiar passado a mim por três ou quatro gerações anteriores de Braulias, tive que substituir por meu nome do meio quando dava palestras na Baixada Santista, para evitar risadas da plateia.

Existe um “priming” dominante para a interpretação sexualizada de temas que se referem à mulher. Piadas com essas referências claras, portanto, não são uma construção isolada ou paralela do universo cognitivo brasileiro, mas a sua essência.

Referências à forma física ou ao “grau de atratividade” das mulheres envolvidas em qualquer situação são uma constante, talvez até uma obrigação. Como já escrevi antes, o ser mulher está intrinsecamente ligado à sexualidade no universo brasileiro. Dúvidas em relação à honradez das personagens femininas e alusões pejorativas a seu comportamento na alcova, verdadeiras ou falsas, são armas de argumentação consideradas válidas.

Você deve estar se indagando onde quero chegar. Como mulher liberada e cônscia de meu valor extra-genital e extra-sexual, vejo-me sempre em estado de irritação com conversas que diminuem a mulher a apenas essas dimensões. Isto é feminismo? A direita atual no Brasil se esmera na identificação de noções comunistas. Neste sentido, acabamos imitando as reações pavlovianas do político-corretismo.

-Feminismo???

-Comunistas!!!

-Correção moral no falar?

-Fascismo politicamente-correto!!

E assim vamos reagindo a meros estímulos sonoros sem analisar as consequências das decisões que estamos fazendo.

Com isto, perdemos e muito a oportunidade que estamos tendo hoje de construir uma sociedade mais justa, mais tolerante (que é um conceito de direita sim, meu caro), e mais polida, elegante, com uma atmosfera social pública menos grosseira, e por que não dizer, menos vil.

Deixo aqui novamente o meu lamento e um apelo aos machos que leem e que tem filhas. Se você acha que reclamar da objetificação da mulher é coisa de esquerda, pense quando a sua própria filha é a pivô desse tipo de comentário. Você se sente confortável? Não percebe a sua filha como um ser total, uma pessoa integral, e não apenas seios e bunda? Se você ainda não entende a vileza do tipo de piada mencionada no início deste texto, coloque a sua filha, ou a sua mãe como protagonista dela. Que tal, mudou alguma coisa na sua percepção?

Não, meu caro, respeito à mulher não é coisa de esquerda. É coisa de gente digna. Não estou disposta a abdicar de dignidade para ganhar uma “lacração”.  O que se logra com isto é redução de nosso discurso político a um eco reativo às sandices da esquerda, e o que é pior, concedemos a eles o altar da virtude moral. Um tiro de canhão no pé da nossa direita recém-nascida.

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