Pesquisa em Química no Brasil: muita quantidade, pouco impacto

Uma solução precisa ser rapidamente encontrada se queremos reverter a queda e ocuparmos posições de liderança em ciência

Foto: EBC

Olá pessoal. Em um artigo recente desta coluna falei de alguns resultados de cientometria da área de Química que apresentei para o presidente Bolsonaro no dia 25 de novembro de 2019.

Entretanto, fiz apenas uma apresentação superficial sobre o que acontece na área no Brasil, em comparação com o resto do mundo.

Mostrei ao presidente, por exemplo, que apesar de estarmos “bombando” em quantidade de artigos – 15º lugar no mundo (mesmo assim, nada excepcional para a 8ª economia mundial) -, amargamos o 45º lugar em impacto em Química, dentre uma lista de 57 países (Link 1).

Deixei claro ao presidente que, em ciência, quantidade é diferente de qualidade. Isso poderia significar “muito joio e pouco trigo”.

No presente artigo, escrito em conjunto com Eduardo Gonçalves P. Fox (biólogo pesquisador), Mateus da Silveira Alferes Mulato (estudante da UFC), e Prof. Marcos Eberlin (Universidade Mackenzie), vamos nos aprofundar sobre o que acontece com a Química do Brasil.

A Figura 1 mostra nas duas últimas décadas como a Química Brasileira “explodiu” em quantidade de publicações. Isso é fato. Produzíamos menos de 1000 trabalhos em 1996, mas passamos para mais de 5000 artigos nos últimos anos, o que representa um aumento acima de 400%. Por exemplo, em 2018 , publicamos 3 vezes mais do que Portugal. Impressionante.

Figura 1 – Produção de artigos de Química pelo Brasil e Portugal entre 1996 e 2018.

Mas o entusiasmo logo se desfaz quando percebemos que caímos de 80% do impacto médio do mundo em 1998 para 65% em 2017 (Figura 2). Vamos exemplificar. Em 1998, o valor mundial médio de citações por publicações (CPP, o indicador de impacto que utilizamos) foi de 30,2. Nesse ano, a Química do Brasil obteve um CPP = 24,6, que representava 81,5% do CPP mundial. Duas décadas depois, caímos para 64% do impacto mundial.

Figura 2: CPP dos artigos de Química do Brasil em relação ao CPP mundial (círculos azuis). Ou em relação ao CPP do país de maior impacto no ano (círculos vermelhos).

Quando comparamos, portanto, o CPP da Química Brasileira com a média mundial ou com o 1º lugar do mundo em impacto em Química, verificamos a mesma tendência de queda. Por exemplo, em 1998, a Dinamarca apresentou o maior CPP do mundo dentre países com pelo menos 500 publicações em Química (CPP = 50,0). O impacto do Brasil em 1998 (CPP = 24,6) representava então 49% do valor da Dinamarca.

Quase duas décadas depois, o impacto do Brasil cai para apenas 34% do CPP do 1º lugar do mundo (Figura 2), que agora é Singapura. Esse pequeno país, com apenas 12% da área do DF, tem sido 1º lugar do mundo em impacto desde 2009. Os pontos vermelhos na Figura 2, acima, mostram claramente essa perda de impacto.

Quatro áreas da Química

Mas será que todas áreas da Química apresentaram essa mesma redução de impacto ao longo da linha do tempo? A resposta é não. A Química Orgânica, em impacto, manteve-se relativamente estável entre 1996 e 2018, com cerca de 60% do impacto do 1º lugar (Figura 3). Singapura foi “medalha de ouro” em Orgânica entre países com pelo menos 100 publicações na área (por se tratar se subárea da Química, reduzimos o valor do “cut off”, senão teríamos poucos países para fazer ranking) entre 2008 e 2018, só perdendo esse posto em 2015 para Hong Kong.

A Química Inorgânica, porém, apresentou uma queda acentuada de impacto, quando comparamos tanto o período de 1996-2000 (em que a média de impacto foi de 60% do CPP do 1º lugar, apesar de grande flutuação de valores) e 2016-2018 (~ 45% do CPP do 1º lugar) (Figura 3). É uma queda significativa de impacto, de 15 pontos percentuais. A título de curiosidade, Singapura e Hong Kong foram os “medalhas de ouro” em impacto nos últimos três anos na área.

Figura 3. Impacto dos artigos das 4 subáreas da Química do Brasil em relação ao CPP mundial (pontos azuis) ou em relação ao CPP do 1º lugar do mundo (pontos vermelhos).

Na sico-Química houve estabilidade em impacto até 2010 (cerca de 50% do CPP do 1º lugar), mas uma tendência de queda nos últimos anos, chegando em 2018 com um CPP menor que 40% do 1º colocado (Figura 3). A Arábia Saudita foi “medalha de ouro” em 2017 e 2018 em impacto. Finalmente, quem se salva e bem na química brasileira é a Química Analítica onde há uma melhora substancial em impacto do Brasil. A área passa de 65% do 1º lugar em 2005-2007 para aproximadamente 80% em 2016-2018. Nessa área, a Áustria foi o “medalha de ouro” em 2018.

Nessas 4 áreas da Química as mesmas tendência de aumento ou queda são verificadas pelos dois indicadores, ou seja, quando comparamos o Brasil versus o 1º lugar do mundo (pontos vermelhos) ou o CPP mundial (pontos azuis nos gráficos da Figura 3).

Resultados de Rank Score

Vejamos agora como tem se comportado o impacto das pesquisas dos químicos brasileiros usando o indicador Rank Score. Nesse indicador, entendemos que as tendências ficam mais nítidas pois a “nota 10” é auferida quando o CPP do país está em 1º lugar do mundo, e “zero” quando o faz o último colocado. Analisando, por exemplo, o ranking CPP de 2018 dos países em Química, verificamos que os dois primeiros lugares - dentre 57 países que publicaram ao menos 500 estudos - foram Singapura e Hong Kong.

Nesse ranking de impacto, o Brasil – 8ª economia mundial –  se posicionou perto do fundo do poço, com o 45º lugar (Rank Score = 2,1). Ficamos bem baixo de Portugal (22º lugar; Rank Score = 6,1), posição que não surpreenderia quem tem lido nossos artigos (Link 2). Mas surpreende saber de alguns países que jamais “imaginaríamos” estar na nossa frente:  Arábia Saudita (3º lugar; Rank Score = 9,5), Irã (24º lugar; Rank Score = 5,8), Paquistão (26º lugar; 24º lugar; Rank Score = 5,4) e Índia (35º lugar; Rank Score = 3,9). Ganhamos da Argentina (Rank Score = 1,4), mas não vemos motivo de comemoração aqui! Estados Unidos e China, os líderes em publicação em Química (em quantidade) ficaram em 7º e 19º lugares, respectivamente, em impacto.

A Figura 4 compara o Rank Score do Brasil com cinco países entre 2015 e 2018. Enquanto todos tendem a melhorar (com um grande destaque para o Irã), o Brasil estaciona com uma péssima nota, um pouco acima de 2,0.

Figura 4. Rank score de seis países em termos de impacto da produção de Química.

Quando olhamos a evolução do Rank Score da Química do Brasil de 1996 a 2018, verificamos que, apesar do aumento de mais de 400% em quantidade de publicações, caímos de aproximadamente 3,0 na virada do século para meros 2,0 nos últimos anos (Figura 5). É a mesma tendência de perda de qualidade que observamos por meio do indicador CPP.

Figura 5. Rank score da Química do Brasil e quatro subáreas. Valores de “cut-off” nas subáreas: Orgânica, Analítica e Físico-Química = 200 publicações; Inorgânica = 100 publicações.

Analisando as áreas específicas entre 1998 e 2018, o Rank Score apresenta também a mesma tendência do CPP, mas mais nitidamente. A Química Analítica, inicia-se com queda, mas reverte essa tendência para uma melhora acentuada nos últimos anos. Nas outras subáreas, porém, a queda de impacto é acentuada e constante (Figura 5). A Orgânica caiu de 4,5 em Rank Score para abaixo de 1,0 em 2018 (38º lugar de 42 países).

A Inorgânica também despenca de forma visível, chegando em valores abaixo de 2,0 (36º lugar de 41 países). A sico-Química cai mais discretamente até 2016, ficando com Rank Score médio de 2,0. Entretanto, há uma queda acentuada e preocupante em 2018,  pois amarga um Rank score de 0,7 (42º lugar de 45 países), encostando no zero, no último lugar! (Figura 5).

Discussão Geral

Entendemos que a Química Orgânica manteve-se relativamente estável (com tendência de queda suave pelo indicador CPP), pois é uma área que, comparativamente, requer menos recursos e depende de muito mais talento e dedicação árdua de seus pesquisadores. São características dos pesquisadores da área no Brasil. Mas a queda no Rank Score em Orgânica indica que outros países estão ultrapassando o Brasil em termos de impacto.

No longo prazo essa queda tende a acentuar-se, pois apenas “hard work” não é mais suficiente para vencer a competição mundial, cada vez mais focada em biomoléculas e sínteses assimétricas e de moléculas complexas que demandam acesso rápido a reagentes e insumos e instrumentação avançada.

A queda de impacto na Química Inorgânica deu-se, assim pensamos, pela “diluição” de sua relevância, um efeito mundial, frente a uma forte e crescente competição com a chamada “química da vida” (Bioquímica), que é muito mais focada em macromoléculas orgânicas. Até  mesmo catalizadores metálicos tem sido substituídos por pequenas moléculas orgânicas.

Cada vez mais a Química move-se também de seus “laboratórios obscuros” de metais e solventes para as clínicas e hospitais, onde se procuram biomarcadores proteicos e lipídicos, e para os laboratórios de bioquímica e microbiologia, onde se caracterizam e se estudam as interações e trocas químicas de biomoléculas entre seres vivos, e até mesmo a impressão 3D de tecidos e órgãos.

Isso tem desestimulado os jovens brasileiros mais talentosos de dedicarem-se à subárea da Inorgânica. A química de novos materiais como os compósitos de grafeno e as nanopartículas tem revertido essa tendência no mundo e pode reverter essa tendência também no Brasil.

A sico Química tem perdido espaço também por “diluição”. É uma subárea essencialmente acadêmica, onde se estudam fundamentos - mas que se torna cada vez mais aplicada. Por outro lado, cálculos de estrutura e dinâmica molecular de biomoléculas, em estreita parceria com médicos, farmacêuticos e biólogos, têm revertido essa tendência no mundo, mas a Físico Química brasileira parece se mover lentamente nessa direção. Assim, esta tendência poderia também ser revertida no Brasil.

Na Química Analítica, que apresentou melhora de impacto, houve um fator importante: até o final do século 20, o Brasil tinha recursos limitados para a pesquisa científica e assim adquirir equipamentos de médio ou grande porte era um privilégio para poucos. Assim, nosso parque de instrumentos analíticos era pífio, com raros oásis de excelência pelo Brasil. Outras áreas como a Orgânica e a Inorgânica, mais focadas em trabalhos experimentais de bancada, ainda se viravam bem com poucos recursos e fizeram esforços tremendos e se mantinham relativamente bem posicionadas até a virada do século.

Mas a Química Analítica sofria mais. Mas felizmente, nas últimas duas décadas, muito se investiu no Brasil em equipamentos analíticos de “médio e grande porte” como por exemplo, espectrômetros de massas, equipamentos de ressonância magnética nuclear de alta eficiência, e vários tipos de espectrofotômetros. Apesar de desperdícios  (por exemplo, equipamentos muito caros que sequer foram desempacotados), muitos novos laboratórios foram montados com instrumentação de ponta e equipes de jovens pesquisadores.

Essa virada pode, por exemplo, ser contatada pela instalação recente no Brasil de quase todas as maiores fabricantes de instrumentação analítica, não só com assistência técnica mais eficiente e numerosa, como também com grandes centros de treinamento e atendimento a clientes.

Hoje temos no país muitos laboratórios de Química Analítica , interagindo e colaborando multidisciplinariamente , com instrumentação nova e de ponta, alguns dentre os melhores do mundo, com os quais competem de igual para igual. Em muitos casos, até com melhores condições do que outros laboratórios no “Velho Mundo”, com instrumentação mais antiga e equipes menores de pesquisadores. Temos tudo, portanto, para continuar a crescer em Analítica.

Outro fator que emperra a ciência nacional e em particular a química é a extrema dificuldade burocrática de acesso a reagentes e insumos. Enquanto aqui esperamos por meses, e tudo em inspecionado em alfândegas, em outros países o acesso pode ser quase imediato. A Química tem se tornado cada vez mais dinâmica e novos planos são traçados hoje “diariamente”.

Uma solução precisa ser rapidamente encontrada se queremos reverter a queda e ocuparmos posições de liderança em ciência que o Brasil, pela sua potencialidade, deveria ocupar.

Uma sugestão seria a criação de um catálogo nacional de pesquisadores e seus projetos, que estariam autorizados a adquirir reagentes e insumos diretamente nos sites de fabricantes, com entrega direta e desburocratizada em seus laboratórios, com auditorias eventuais não em alfandegas, mas “in loco”.

PS: Valores de Rank score de Brasil e Portugal nas 4 subáreas da Química (2018):

Brasil               Portugal

Inorgânica                   1,2                   9,0

Orgânica                      1,0                   5,2

Físico-Química             0,7                   5,3

Analítica                      4,7                   7,4

PS 2: Agradecemos o esforço do estudante Matheus Alferes Mulato (UFC) em fazer as análises cientométricas. Em algumas análises de impacto em relação ao CPP do 1º lugar, foi necessário utlizar o 2º colocado (ocorreu em 13 casos de 115 análises).

Link 1: https://olivre.com.br/minha-conversa-com-o-presidente

Link 2: https://olivre.com.br/impacto-do-brasil-em-24-areas-em-comparacao-com-portugal

Para acessar o script R dos gráficos desse artigo, aqui vai o link:

https://gist.github.com/eduardofox2/7cc442e00cf164d45fce84984454432e

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