Pequenos no tamanho, gigantes em talento: cuiabanos brilham no jiu-jitsu

Frutos do projeto filantrópico Atletas do Rei, Saulo e Kauã já têm mais de 20 medalhas

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Nove anos de idade, três anos de treinamento de jiu-jitsu e, juntos, mais de 20 medalhas conquistadas. Os cuiabanos Kauã Oliveira e Saulo Santana estão brilhando no mundo do jiu-jitsu, levando o nome de Mato Grosso a pódios do Brasil e até de outras partes do mundo. Nessa jornada, mostram que, mesmo pequenos em tamanho, o que não falta é talento, além de uma pitada de treinamento oferecido pelo professor Júlio César Santos, 41 anos.

Saulo começou primeiro, levado à academia de Júlio – localizada no Bairro Coophema, em Cuiabá, onde ele realiza o projeto solidário “Atletas do Rei” – pelo pai, Fábio Araújo, ele já fazia judô e acabou se apaixonando também pelo jiu-jitsu. Hoje, o pequeno atleta pratica as duas lutas.

Kauã, por sua vez, teve a primeira experiência com esportes pelas mãos de Júlio, depois que o professor insistiu bastante para que o pai do futuro atleta, o consultor jurídico Wesley Oliveira, 29 anos, levasse o filho para uma aula experimental.

“Eu não planejava nenhum esporte para o Kauã, era tudo muito corrido: faculdade, serviço. Mas o Júlio me conhece desde pequeno e eu passava na frente da academia todo dia e ele falava: ‘Ô Wesley, traz o Kauã aqui para conhecer o projeto’. Aí eu falava: ‘Ta bom, Júlio, vou trazer’. Acabou que um dia eu trouxe e, desde o primeiro dia, ele gostou”, contou o pai.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Atletas do Rei

A insistência no convite de Júlio tinha um motivo, ele sonha em transformar a vida de crianças e adolescentes carentes – e de toda a comunidade onde elas vivem – através do jiu-jitsu. Para isso, há 10 anos, criou um projeto Atletas do Rei, por meio do qual oferece a crianças que não têm condições de pagar, aulas de jiu-jitsu com bolsas de 50% ou até 100%.

A iniciativa surgiu quando Júlio começou a receber em sua academia adolescentes que não tinham condições de pagar a mensalidade ou comprar material, mas tinham muita vontade de praticar um esporte. Aos poucos, ele foi encontrando formas de treinar esses alunos e doar quimonos para eles.

“Aí eu fui vendo que era a oportunidade que faltava para mudar algo na vida deles. E isso começou a ser benéfico para esses adolescentes”, lembrou Júlio.

Quatro anos depois, Júlio abriu uma turma para crianças. A maioria faz as aulas de forma gratuita. As cujos pais têm condição de ajudar, pagam cerca de R$ 60 por mês, dinheiro utilizado para comprar quimonos para os colegas que não têm dinheiro ou ajudar os meninos do projeto que buscam competir.

“É muito difícil hoje uma ajuda. Tem campeonatos, inscrições, quimono… O jiu-jitsu tem que ter o quimono e é caro. Então, as crianças que têm condições apoiam as que não têm”, conta Júlio, que atualmente atende 40 crianças no projeto, com aulas às terças, quintas e sextas-feiras.

Crianças do projeto Atletas do Rei

O projeto é 100% filantrópico e são raras as vezes que o professor Júlio consegue alguma doação extra para compra de materiais, o que o entristece, mas nunca desanima ou faz desistir.

“A gente consegue uma ajuda ou outra, mas nunca é constante, tudo com limitação. Não conseguimos atender todas as crianças como eu queria. Meu sonho é que as crianças venham aqui todas cadastradas, certinho, organizado e que não tivesse custo para nenhuma, que todas pudessem treinar de graça”, disse o professor.

Para participar, Júlio cobra apenas que a criança esteja estudando e mantenha bom comportamento com os pais e na escola, sempre com boas notas, já que o professor se preocupa com o futuro dos pequenos atletas.

Para conquistar mais doações, Júlio criou uma página no site de arrecadação coletiva Vakinha Online. Para doar, é só clicar  AQUI.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Pequenos campeões

Por meio dos ensinamentos de Júlio, Kauã e Saulo têm conquistado pódios no Brasil e no mundo. Dos 12 campeonatos que participou, Kauã só não ganhou medalha em dois. Já Saulo participou de cerca de 15 e só não esteve no pódio do brasileiro de 2018.

Questionados, os dois atletas são convictos ao dizer qual foi a conquista mais importante: “o brasileiro”, disseram ao mesmo tempo, lembrando do Campeonato Brasileiro da CBJJ (Confederação Brasileira de Jiu-jitsu) de 2019, em que Saulo ficou em 2º lugar e Kauã em 3º.

E embora já estejam, de certa forma, experientes, Saulo disse que ainda sente um friozinho na barriga em cada competição. Já Kauã afirmou que os consecutivos campeonatos o trouxeram a tranquilidade para lutar sem perder a concentração e a calma.

“Eu senti nervoso quando comecei a competir e alegria com a primeira medalha, mas fico nervoso até hoje em todas as competições”, contou Saulo.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Eu fiquei confuso, meio assustado. Aí quando ganhei me senti muito feliz por ter colocado em prática tudo que eu treinei. Agora me sinto normal, já me sinto calmo quando vou para as competições”, afirmou Kauã.

Mas os pequenos atletas foram convictos quando questionados sobre qual a parte mais importante que o esporte traz para a vida deles. Deixaram as medalhas de lado e, juntos, responderam: “experiência, respeito, união e amizade”.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Campeonatos x patrocínio

Sem patrocínio, os pequenos campeões têm enfrentado dificuldades para chegar em campeonatos e representar Cuiabá e Mato Grosso. Ainda assim, os pais dos dois, junto ao professor Júlio, têm se esforçado para levá-los ao máximo de competições possíveis.

Durante os meses de junho e julho, os meninos gostariam de participar, com grandes chances de medalhadas, de quatro competições:

O Campeonato Brasileiro da CBJJE (Confederação Brasileiro de Jiu-Jitsu Esportivo), que será nos dias 14, 15 e 16 de junho, em São Paulo (SP); o Campeonato Mato-grossense da FJJE (Federação de Jiu-jitsu Esportivo do Estado de Mato Grosso), a realizar-se no dia 7 de julho em Cuiabá; o Campeonato Sul Americano da CBJJ (Conferação Brasileira de Jiu-jitsu), nos dias 20 e 21 de julho no Rio de Janeiro (RJ); e o Campeonato Mundial da CBJJE, nos dias 25, 26, 27 e 28 de julho, em São Paulo (SP).

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Sem nenhum auxílio financeiro, o pai de Kauã resolveu criar uma onda de solidariedade entre amigos que acompanham o sucesso de Kauã e Saulo. Eles começaram a fazer doações para auxiliar nas despesas das viagens que os dois farão.

“A federação disponibiliza um ônibus para ir no campeonato em São Paulo, mas é massacrante para crianças desse tamanho ir de ônibus daqui até São Paulo, para chegar lá e ainda lutar”, afirmou o professor Júlio.

Se alguma empresa ou instituição quiser patrocinar os meninos, os pais e o professor se comprometem a anunciar a marca nas mídias sociais dos dois, no quimono, em camisetas, bonés e tudo que puder ser usado por eles e combinado anteriormente.

“A ajuda para essa molecada é muito importante, porque estará ajudando na realização de sonhos”, disse Júlio.

Para quem quiser ajudar com dinheiro, o pai de Kauã, Wesley Oliveira, também criou uma página no site Vakinha Online, convidando a todos para “ajudar os dois pequenos campeões a representar Mato Grosso”. Para doar qualquer valor, clique AQUI.

Exemplo

Para Júlio, Kauã e Saulo se tornaram espelhos para as demais crianças do Atletas do Rei e até mesmo para as não atletas, visto que ele e os pais dos meninos recebem diversas mensagens elogiando não só as vitórias, mas também o caráter.

“Isso, para mim, é o mais importante. Eles não estão só se tornando bons atletas, estão formando também um excelente caráter. Eu prezo muito isso aqui: o respeito e a humildade de chegar no lugar e ter postura de campeão, de uma pessoa que respeita a todos e tem algo para passar também”, disse Júlio.

Ao vê-los tornando-se referência no esporte e na vida, Júlio disse que se enche de orgulho e satisfação, já que ele acaba se vendo como um segundo pai para as crianças. A verdadeira vitória do seu árduo trabalho voluntário.

Competidor até hoje, aos 41 anos, depois de 20 anos de prática de jiu-jitsu e 10 dando aula, Júlio, que é faixa preta, diz que se orgulha ao ver seus alunos tão novos, aos nove anos de idade, já entendendo a essência do esporte.

“Eu sei como é. Não é fácil. O treino, dedicação. Ainda mais nessa idade, que tem muitas coisas que tiram o foco. Quando eu vejo uma criança dedicada ao esporte assim, que começa a entender desde cedo a essência do esporte, isso aí me deixa muito feliz. Quando eles estão lá em cima no pódio, eu não vejo a medalha, eu vejo – e agradeço a Deus – mais um passo para concretizar os sonhos deles. Porque a medalha nada mais é do que a recompensa do sacrifício que cada um fez. É esse sacrifício que vai ficar, essa experiência que eles vão poder passar para outra criança que está começando”, disse o professor.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Wesley, pai de Kauã, que também adotou Saulo no coração devido à amizade que os meninos desenvolveram durante os anos treinando juntos – eles até evitam lutar e entregam a disputa um para o outro se precisarem competir em algum campeonato – diz também muito se orgulhar do feito dos meninos.

“Como pai eu fico feliz. Qual pai não fica? E fico pelos dois, porque tenho o Saulo como um filho meu também. Inclusive, todo lugar que eu vou, levo ele também. Eu não tive isso quando criança, só estudava e trabalhava, comecei a trabalhar cedo. Então, estou fazendo pelo meu filho o que queria que tivessem feito por mim. Enquanto eu puder, estarei levando ele e o Saulo para as competições, mesmo sem incentivo financeiro”, disse Wesley.

E as crianças já sonham alto, tendo Júlio não só como professor, mas como mestre, eles contam ter exatamente o mesmo sonho para o futuro:

“Eu sonho em competir profissionalmente, ser faixa preta de jiu-jitsu, ser professor e dar aula igual o mestre Júlio”, disse Kauã, seguido por Saulo que já logo falou: “Eu tenho exatamente o mesmo sonho”.

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

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