Pequenos empresários agonizam enquanto auxílios “empacam” na burocracia e política

Crise gerada pela pandemia já modificou o histórico recente de crescimento de setores, que ainda começavam a se recuperar da crise de 2014

Analista diz que os setores de serviços e turismo são os mais atingidos por crise e os últimos a retomar suas atividades

A procura de micro e pequenos empresários por crédito financeiro cresceu conforme passavam os dois primeiros meses de isolamento social em Mato Grosso. Eles estão atrás de recursos para quitar dívidas que vão de salário de funcionários a contas com fornecedores. 

São donos de estabelecimentos que viram seus negócios decaírem da noite para o dia, por causa da crise gerada pela pandemia do novo coronavírus. Em alguns casos, o fluxo de caixa simplesmente estagnou. 

A realidade para eles, hoje, é de angústia, principalmente, por das incertezas sobre a condução da economia brasileira e a falta de apoio financeiro mais urgente até a situação do país ficar menos caótica. 

“O fluxo de caixa é o maior problema dos micro e pequenos empresários hoje. Em média nacional, eles conseguem sobreviver até um mês sem o fluxo de caixa e já estão há dois meses parados. A cada tempo que esse prazo se prolonga para eles, mais é incerto o retorno das atividades pós-pandemia”, explica o analista do Serviço de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em Mato Grosso, Fábio Apolinário. 

Segundo ele, a entidade ainda levanta o número de empresários que já procuraram caminhos para acessar crédito de instituições financeiras para cobrir suas despesas. Uma prévia indica que os volumes de empréstimos variam de R$ 20 mil a R$ 100 mil. 

“Nós ainda estamos levantando os números para saber em quanto aumentou a procura por crédito durante a pandemia. Mas, é sensível a quantidade de empresários que estão atrás de crédito. Eles precisam de recurso para quitar as dívidas feitas antes da crise”, disse. 

De uma crise à outra 

O analista explica que a situação das micro e pequenas empresas, hoje, em Mato Grosso varia e essa condição tem um fator no valor de empréstimo à procura. 

Em alguns casos, a situação era semelhante à conjuntura econômica do país: são estabelecimentos que haviam começado a se recuperar da crise de 2014. Finalmente haviam terminado de pagar dívidas e foram pegos de surpresas pelo pânico do mercado na esteira do contágio. 

“Tem empresários que sequer conseguiu se recuperar e entrou em uma nova crise. Outras já tinham assinado contrato com fornecedores e tiveram que fechar seus negócios por causa do isolamento. E também há casos de empresas que não fecharam. Tudo isso está influenciando o cenário atual”, cita Apolinário. 

No intervalo de cinco anos, vários segmentos do mercado entraram em duas crises econômicas e os efeitos do atual quadro só começará ser identificado daqui alguns meses (Foto: Ednilson Aguiar / O LIVRE)

Contudo, já se sabe que os setores mais atingidos pelos primeiros meses da crise são o de serviços e de turismo. Conforme o Fábio Apolinário, os empresários desses segmentos têm sido os concorrentes mais frequentes aos créditos financeiros. 

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A crise deve modificar a participação dos micro e pequenos no mercado estadual. Nos últimos três anos, a quantidade de registro dessas empresas saltou de 21 mil para 28 mil, alta 33%, conforme dados do Sebrae-MT.  

E o maior número de empresas novas nesse período está concentrado em 2019, ano em que os efeitos da crise iniciada em 2014 já eram menos intensos. Passou de 22 mil em 2018 para os 28 mil. 

Auxílio (quase) tardio 

Uma pesquisa realizada pelo Sebrae, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, mostra que 86% dos donos de pequenos negócios ainda aguardam resposta de instituições financeiras e do governo aos pedidos de crédito financeiro. 

A demora na reposta se mantém, mesmo com o aumento na procura por esses financiamentos por um grupo de empresários que, segundo o Sebrae, não tem o hábito recorrer aos empréstimos. 

“Geralmente, há muita dificuldade desses empresários conseguirem acesso aos créditos oferecidos. Seja porque falta lastro de garantia ou porque os juros são muito altos ou porque eles têm restrição junto aos governos”, comenta o analista. 

Conforme a pesquisa, dos que buscaram, 88% o fizeram em instituições bancárias. Já entre os que procuraram em fontes alternativas, parentes e amigos (43%) são a fonte de empréstimos mais citada, seguidos de instituições de microcrédito (23%) e negociação de dívidas com fornecedores (16%).    

Da parte do governo, uma nova linha de financiamentos só foi sancionada nessa terça-feira (19) pelo presidente Jair Bolsonaro. Micro e pequenos empresários poderão pedir empréstimos de valor correspondente a até 30% de sua receita bruta obtida em 2019. 

Caso a empresa tenha menos de um ano de funcionamento, o limite do empréstimo será de até 50% do seu capital social ou a até 30% da média de seu faturamento mensal apurado desde o início de suas atividades, o que for mais vantajoso. 

“Mas vale lembrar que isso ainda precisa ser regularizado para os bancos começarem a trabalhar a linha de crédito. E quanto mais o tempo passa, mais difícil fica para os pequenos”, diz Apolinário. 

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