Pátria é o velho, a mãe, o pai, a criança – e não o Estado

Lembro-me de gostar do Sete de Setembro quando era criança. Belo Horizonte tinha bonitas paradas militares. Portentosos, os militares desfilavam para a diversão dos cidadãos oprimidos pela ditadura. Engraçada a alma brasileira. Até o poder autoritário nos diverte se acompanhado por música e ritmo. Eu amava as paradas militares e seu show de armamentos. Não sabia na época que o Exército Brasileiro é um dos mais mal armados e obsoletos do mundo.

Vivendo na terra do Tio Sam, nos últimos anos assisti algumas paradas na celebração da independência deles, o Quatro de Julho. No primeiro ano fomos recrutados por dois amigos brasileiros (sim, brasileiros) para marchar em seu bloco eleitoral. Um dos brasileiros, já cidadão americano, concorria a uma vaga de vereador na câmara do município. Este cargo aqui é voluntário.

Isto mesmo, voluntário, não-remunerado. E eles se reelegem de dois em dois anos. A outra pessoa era uma mulher, negra, também nascida no Brasil e adotada com seis anos de idade por uma família americana. Ela concorria ao cargo de deputada estadual, também voluntário (isto mesmo) e bianual.

Nós nos vimos no meio da parada, entre velhinhos de cadeira de rodas, obesos rotundos, crianças nos ombros de pais orgulhosos, casais de mãos dadas, sem-teto com seus carrinhos de supermercado cheios de tranqueiras. Tinha de tudo. Todo mundo celebrando, cada bloquinho com sua música e camisetas lembrando a bandeira.

Marchavam candidatos e seus apoiadores de camisas iguais. Marchavam donos de pequenos negócios, ONGs, igrejas locais, todos os pedacinhos que compõem a sociedade local. O lugar estava coalhado de fuscas velhos, Jeeps de guerra mais velhos ainda, candidatos passeando com araras nos braços. Eram polinésios, coreanos, chineses tailandeses, havaianos nativos, brancos americanos.

Tinha ONGs de ajuda aos cegos, de velhinhos, de socorro ao sem-teto. Desfilaram inúmeras associações de veteranos de várias guerras, gangues de motociclistas, músicos, academias de ginástica, centros de apoio a crianças deficientes. O que não vi foram militantes profissionais, ou membros de “movimento social” como chamamos no Brasil. Todos ali eram a própria sociedade, e não pretensos representantes dela. Mas tudo me pareceu sem graça e pobre, beirando o ridículo.

Desapontei-me ao comparar aquele arremedo de pompa com a glória das paradas de Sete de Setembro que assisti na infância. Mas o fato é que, para nós, infelizmente não existe pátria sem o todo poderoso Estado. Pátria não sou eu, mas o diabo que me carrega. Somos como a mulher do malandro, escravos daquele que nos tortura. Até o desenho dos prédios de Brasília, obra do celebrado Niemeyer, deixa exposta a cosmovisão que nos arruína.

O governo moderno, majestoso, desenhado com linhas retas e limpas, é cheio de catacumbas subterrâneas onde o verdadeiro poder se hospeda. A esperança do sucesso, do progresso, do novo Brasil construído por Juscelino se amparava no governo, não no povo.

Finalmente entendi a cola que unia os diversos personagens da parada de Quatro de Julho. Por que a reverência que todos pareciam ter uns com os outros, celebrando-se mutuamente no dia da pátria? A parada americana era “A Banda” do Chico. Aquele desfile tosco, com as deficiências típicas de cidadezinha de interior, os carros velhos, as crianças, os pássaros, a moça feia que sai para ver, ouvir e dar passagem, aquilo era a pátria.

A Pátria não é o militar com sua artilharia pesada, ou o governo a mostrar seu potencial cada vez maior de esmagar o cidadão. Para os Americanos isto se exibe lá fora. Aparato do Estado se tem para preservar aqueles que compõem a pátria. Pátria é o velho, a mãe, o pai, a criança. São estes que desfilam, celebrando-se a si, numa profusão de lugares-comuns e insuficiências ordinárias.

Pátria sou eu, o famoso Zé-Ninguém. Todos aqueles “ninguém” juntos ali sabiam que este era seu dia, porque eles são a América. Tive que dar a mão à palmatória e aprender finalmente o que é na verdade uma pátria da qual se tem orgulho.