A convivência entre pessoas e onças-pintadas, um dos grandes desafios do Pantanal contemporâneo, ganhou novo fôlego com o avanço da Rede Pantaneira pela Coexistência Humano-Onças. Em um bioma onde vivem algumas das maiores populações do felino no mundo, encontros entre humanos e onças são cada vez mais comuns — e a resposta, segundo especialistas, passa por diálogo, ciência e articulação conjunta.
Esse foi o foco do encontro realizado no Hotel Sesc Porto Cercado, em Poconé (MT), idealizado pela WWF-Brasil, que reuniu instituições ambientais, pesquisadores e representantes do setor produtivo de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Participaram do encontro organizações como Panthera, Aliança 5P, Instituto Homem Pantaneiro, Onçafari, Ampara Silvestre, Jaguarte, Impacto/Pousada Piuval e o Cenap/ICMBio.
Criada inicialmente como um grupo técnico de trabalho em 2024, a iniciativa evoluiu em 2025 para uma Rede estruturada, com valores e metas comuns. O novo formato marca um momento de maturidade, com foco em resultados concretos que possam reduzir tensões no campo.
Para Cyntia Cavalcante, analista de conservação do WWF-Brasil, a formalização da Rede reforça a governança das ações no bioma. “O que era articulação pontual agora se torna uma estrutura capaz de gerar impactos reais, aproximar políticas públicas e fortalecer o manejo responsável”, afirma.
A percepção também é compartilhada por quem enfrenta a realidade pantaneira diariamente. O médico veterinário e pesquisador Diego Viana, de Corumbá (MS), destaca que preservar as onças é preservar o próprio modo de vida local. “A relação entre gente e fauna é identidade do Pantanal. Manter esse equilíbrio é manter o pantaneiro de pé”, diz.
Entre os produtores, a palavra-chave é troca. Ana Paula Felício, secretária-executiva da Aliança 5P, ressalta que as soluções surgem da escuta mútua. “Não existe receita única. Cada propriedade tem suas particularidades, e o caminho sempre nasce do diálogo.”
Parceiro desde o início, o Sesc Pantanal atua como ponto de conexão entre ciência e comunidade. Para Alexandre Enout, gestor da RPPN Sesc Pantanal, o papel da instituição é integrar saberes. “Nosso objetivo é unir conhecimento técnico ao conhecimento popular para construir soluções aplicáveis.”
A Rede inicia agora a execução do plano de ações para 2026, que inclui participação na COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, em Campo Grande (MS), além de capacitações, intercâmbios e fortalecimento de laços com comunidades pantaneiras.
Coexistência na maior RPPN do país
A RPPN Sesc Pantanal, a maior reserva privada do Brasil, funciona como um laboratório vivo. Desde 2013, monitora onças-pintadas e pardas com armadilhas fotográficas, em parceria com instituições científicas. Já são 39 indivíduos identificados e mais de 300 mil registros audiovisuais catalogados.
O símbolo máximo dessa convivência talvez seja Dito Verde, único morador da RPPN, que convive em harmonia com as onças que rondam sua casa. A frase dele resume o espírito que orienta a Rede: “As onças são minhas amigas, e eu sou amigo delas”.
Colaborou Assessoria




