Onde está o Papai Noel Pantaneiro? Pandemia já o afasta há dois anos do shopping

Afastado do mundo por causa da pandemia, Clóvis Matos perdeu 19kg, curou a diabetes e encontrou formas de seguir com seus dois projetos à distância: o Inclusão Literária e o Papai Noel Pantaneiro

(Foto: Kelly Lelis Fotografia)

Ele é, sem dúvidas, o Papai Noel mais famoso de Cuiabá: o Pantaneiro, dos livros, do 3 Américas… dentre tantas outras denominações que falam do historiador Clóvis Matos, 66 anos, uma figura incrível que ganhou o coração dos cuiabanos e até dos demais brasileiros, quando passou no Caldeirão do Huck.

Mas com a pandemia da covid-19, ele precisou se trancar dentro de casa, afinal, a idade o fazia de risco. E assim foram meses de isolamento total, sem a presença nem mesmo da família.

Porém, engana-se quem pensa que o isolamento iria parar o incansável incentivador da leitura. Clóvis deu um jeito de que seu projeto de vida, o Inclusão Literária, continuasse, mesmo com ele à distância, por toda a pandemia e conta orgulhoso que durante esse período foram distribuídos mais de 15 mil livros.

Seu segundo projeto, o Papai Noel Pantaneiro, em que ele leva presentes e doações para crianças e famílias ribeirinhas do Pantanal Mato-grossense, também não parou. Em 2020 ele não pôde estar presente, mas em 2021 está se preparando para ir.

Mas é no Shopping 3 Américas que a maioria dos cuiabanos está acostumado a ver Clóvis Matos e achava que iria encontrá-lo novamente em 2021. Diante da ausência, o LIVRE foi atrás de descobrir por onde esteve o Papai Noel Pantaneiro nesses quase dois anos de Pandemia e descobriu que ele esteve escondido, mas nunca parado.

(Foto: Kelly Lelis Fotografia)

Inclusão Literária

A princípio o Inclusão Literária foi muito prejudicado com a pandemia. Clóvis não tinha uma estratégia de trabalho sem que ele levasse os livros até as pessoas. Então, ao longo de 2020 ele precisou criar estratégias para que o projeto não parasse.

“Uma das estratégias que criamos foi colocar pequenas caixas com livros, que nós chamamos de bibliotecas de rua, pontos de leitura, lá no Cine Teatro tem uma instalada. Passaram a pegar muito mais que antes da pandemia. Todo mundo passou a ler mais e ler de tudo, não só livros, mas também revistas, o que aparecia as pessoas estavam lendo”, contou.

Além disso, já que ele não podia levar, as pessoas passaram a buscar os livros na casa de Clóvis, sem ter contato com ele.

“Eu arrumava o tanto de livros necessários em uma mesa na frente. A pessoa chegava, pegava e levava embora. Eu fotografava de longe. Não me arrependo e faria tudo de novo se fosse necessário. Eu me preservei, preservei as pessoas e o projeto aconteceu”, lembrou.

Segundo o historiador, foram dois anos muito produtivos, com mais de 15 mil livros distribuídos. Ele acredita que por as pessoas ficarem dentro de casa, passaram a ler mais.

Papai Noel Pantaneiro

O Papai Noel Pantaneiro, por sua vez, foi prejudicado por Clóvis Matos optar por não fazer o trabalho de Papai Noel no shopping no ano passado e neste ano, visto que desde o começo, o trabalho no shopping foi realizado pelo historiador para bancar o projeto solidário.

“Eu comecei a fazer Papai Noel por causa do projeto. Eu criei o projeto em 2005 e falei: ‘E agora? Preciso de uma fonte de renda’. Ai eu fui fazer Papai Noel no shopping, que já me chamava há muito tempo para fazer isso”, contou.

Sem a renda do shopping, o projeto de Natal no Pantanal foi muito complicado, ainda mais que, diante da pandemia, Clóvis nem mesmo podia ir participar. Ainda assim, o projeto não deixou de existir.

Voluntários levaram os presentes e doações e uma pessoa em cada comunidade ficou responsável por receber os presentes e distribuir, para que não acontecesse tumulto.

“O Papai Noel não podia ir lá, porque havia dois riscos, um de eu levar o vírus e outro de eles trazerem para mim. E funcionou muito bem, claro que numa escala menor que nos outros anos, mas não deixou de acontecer, como esse ano não vai deixar de acontecer”, disse Clóvis.

Clóvis fez uma participação na Eletrofios para arrecadar brinquedos para o Papai Noel Pantaneiro 2021 (Foto: Kelly Lelis Fotografia)

Esse ano, inclusive, Clóvis ainda recebeu um pedido especial pela primeira vez: uma cadeira de rodas para um morador do Pantanal. Ele fez uma rifa para tentar arrecadar o dinheiro, não conseguiu 100%, mas comprou a cadeira.

“Uma situação muito ruim para ele e para a família, que são pobres e moram longe, quase 200km de Cuiabá a casa dele. Não levantei toda a grana, mas comprei a cadeira. O sorteio vai ocorrer dia 20, mas não está vendendo mais. Mas eu fiz um financiamento no banco e comprei a cadeira, chega semana que vem”.

Para se preservar, o historiador segue evitando sair de casa, não está fazendo presenças como Papai Noel, nem mesmo em eventos solidários, como ama fazer – e lamenta não poder continuar -, mas irá ao Papai Noel Pantaneiro no Pantanal.

“E eu fico mais sentido ainda das pessoas não entenderem porque não estou fazendo e darem respostas ríspidas. Eu fico chateado com isso. Mas o que importa é que as duas coisas que eu realizo estão acontecendo mesmo com toda a dificuldade do mundo, eu estou fazendo o Papai Noel Pantaneiro e principalmente o Inclusão Literária, que eu faço sem parar, esse enquanto eu receber livros eu estarei na estrada”, disse.

Zilda Zompeiro é uma das grandes apoiadoras dos projetos de Clóvis (Foto: Kelly Lelis Fotografia)

Mudança de vida

Nesse tempo que ficou em casa, o Papai Noel Pantaneiro não ficou parado. Ele leu, escreveu e trabalhou bastante. Além disso, Clóvis resolveu mudar sua alimentação, emagreceu 19 quilos e acabou com a diabetes.

“O médico já tinha falado: ‘se você emagrecer a diabetes some, é diabetes tipo 2’. E acabou. Minha glicemia está normal, minha pressão está normal. Apesar do estresse de toda essa coisa, eu não entrei em depressão”, contou.

O historiador também resolveu se livrar do desperdício e viver uma vida mais minimalista.

O que mais o pegou durante o período sozinho foi a saudade da família, em especial de Júlia, a neta, hoje com cinco anos, mas que no começo da pandemia tinha apenas três.

“Ela mandava mensagem pra mim: ‘Vovô, o corona não foi embora ainda? Quando é que ele vai embora?’. Ficamos oito meses sem ela em casa. Ai um dia ela foi. Hoje já estamos passeando, brincando, pego ela na escola. Foi uma falta imensa”, lembrou Clóvis.

Júlia, a neta do Papai Noel Pantaneiro

Mas essa não é sua única saudade. Após 15 anos fazendo o Papai Noel no shopping, as crianças da Grande Cuiabá também fazem falta e até a conversa dos adultos, principalmente os idosos.

“Eu me acostumei demais, eu sinto falta da fala das crianças comigo, esse barulho todo. E engraçado que, pelo menos nesses três últimos anos que estive no shopping, os adultos, principalmente os idosos, passaram a me procurar demais para conversar com o Papai Noel. Não sei se eu estava me tornando um psicólogo, mas muito adulto me procurava. Mas eu sinto muita falta mesmo das crianças, mas as crianças se expõe demais. Lá no Pantanal mesmo eu sei que não vou poder abraçar as crianças”.

Para suavizar a saudade, ele manteve contato por vídeo. No final do ano passado por meio do próprio shopping no período de Natal e durante o ano todo através de pessoas que pediam que ele mandasse mensagens, como de aniversário, por exemplo.

“Fiquei craque em fazer vídeo e editar para mandar para a criançada. Aprendi outra coisa que eu tinha preguiça de fazer, edição de vídeo. Claro que não sou profissional, mas hoje faço filmes”, contou.

Mas assim que a pandemia acabar e sentir-se seguro, o Papai Noel pretende sair de casa e voltar a dar os abraços nas crianças que tanto ama, afinal, como o próprio disse, “uma vez Papai Noel, sempre Papai Noel”.

“Não tem como deixar de ser mais. Se eu cortar o cabelo e tirar a barba eu sou Papai Noel, as pessoas não me veem de outra forma. Hoje eu sou muito mais conhecido como Papai Noel Pantaneiro do que como o cara dos livros. Papai Noel dos livros que me chamam. Uma hora eu volto”.

(Foto: Kelly Lelis Fotografia)

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