O xeque-mate aponta uma das direções

No jogo os movimentos são observados atentamente pelo oponente, estratégias são testadas e forças são medidas. Como a serpente que espreita a caça o jogador deve dissimular ao máximo suas intenções, até que já não seja possível fazê-lo.

Todavia, os sinais apontam para a direção. A economia global mostra sinais de exaustão, com queda no ritmo de crescimento, com vários economistas prevendo “o menor crescimento do mundo em uma década”. Vide.

Entretanto, pode ser pior que isso, porque os Bancos Centrais já empurraram artificialmente as taxas de juros para o piso e, na última década, inundaram a economia mundial com dinheiro novo, aumentando a liquidez, e ainda assim, a tendência de desaquecimento continua.

Na Índia as vendas de veículos de passageiros caíram 31% em julho, segundo dados divulgados pela Sociedade de Fabricantes de Automóveis da Índia (SIAM). É o nono mês consecutivo de queda e a queda mais acentuada em um mês em mais de 18 anos, disse à CNN Business o diretor geral do SIAM, Vishnu Mathur – vide.

Na China a indústria automobilística também vem dando sinais preocupantes. A Geely da China (GELYF) revelou que seu lucro líquido provavelmente caiu 40% na primeira metade do ano. Somente em junho, as vendas de carros caíram 29% – vide.

Na Europa a situação não está melhor. As montadoras europeias estão fechando várias das suas operações. Conforme citado na reportagem: “A Ford está cortando 12.000 empregos e fechando seis fábricas na Europa, incluindo uma fábrica de motores no Reino Unido. A Jaguar Land Rover, de propriedade da indiana Tata Motors (TTM), está cortando 4.500 empregos. A Honda também está fechando uma fábrica no Reino Unido” – vide a mesma matéria da CNN citada acima.

Na Alemanha os sinais são ainda mais gritantes. A manufatura germânica tem revelado uma tendência desesperadora desde o início do ano passado, melhor visualizada no gráfico a seguir – vide.

Nos EUA a situação não é muito diferente. As famílias estão endividadas e sem renda suficiente para cobrir suas despesas, numa espiral de endividamento que forma uma “bolha” na economia.

Numa reportagem de 01/08/19 o Wall Street Journal reconhece que o custo de vida aumentou enquanto a renda ficou estagnada, fazendo com que as famílias americanas fiquem a cada dia mais endividadas – vide.

É comentado que os salários estagnaram, mas os custos de vida não, assim as pessoas alugam ou financiam cada vez mais o que seus pais poderiam ter comprado. No gráfico abaixo é possível visualizar a discrepância entre o crescimento dos custos em relação aos salários em dez anos:

Michael Snyder enumerou 28 sinais de que a economia estadunidense demonstra sinais de fragilidade extrema, vide.

David Rosenberg, economista-chefe e estrategista de Gluskin Sheff, tem avisado que uma recessão está chegando. Rosenberg diz que o crescimento econômico nos Estados Unidos se tornará negativo mais cedo do que a maioria dos investidores prevê e o Federal Reserve não tem poder para reverter este quadro. “Há uma recessão nos próximos 12 meses”, afirmou ele no “Futures Now” da CNBC – vide.

Na área financeira as rachaduras também já aparecem. No artigo anterior comentei que o Deutsche Bank estava com problemas. Coincidentemente, no dia em que ele realizou sua assembleia geral anual numa tensa reunião em Frankfurt, durante a qual os acionistas cobraram raivosamente a falta de desempenho, as ações do Deutsche Bank despencaram para o nível mais baixo de todos os tempos, de € 6,35 por ação, tendo seu valor de mercado caído para ridículos US$ 15,8 bilhões, o que não aconteceu nem mesmo na crise de 2008 – vide. Os investidores já perceberam o problema e estão evitando o banco. Para se ter uma dimensão da queda o gráfico abaixo ilustra melhor:

Mas a fragilidade do sistema financeiro não dá sinais só no ocidente. Na Índia, numa fraude milionária, o Banco Cooperativo Punjab Maharashtra (PMC) deixou seus correntistas a ver navios. Como a Reuters relata, a PMC ocultou os empréstimos em atraso com 21.000 contas fictícias, o que assustou depositantes, investidores e funcionários do governo.

A BloombergQuint disse que a carteira de empréstimos da PMC tinha uma exposição de 73% aos negócios imobiliários falidos. As filas de correntistas na porta das agências causou séria comoção social, a ponto do Reserve Bank da Índia (RBI) precisar fazer um comunicado no Twitter (https://twitter.com/RBI) para tranquilizar o público que o setor bancário não está implodindo – vide.

Enquanto isso, o FED continuará a socorrer o instável sistema financeiro estadunidense para garantir a liquidez até, no mínimo, 10/10/19, com operações do tipo que informamos no último artigo. Ao fazer isso, o Fed está propositalmente embarcando em um tipo diferente de programa das compras de ativos usadas para tirar a economia da crise financeira, ainda que não o chame de QE4. O dinheiro é criado do nada para ajudar uma economia instável. Ao anunciar o programa, as próprias autoridades notaram que a última vez que esse processo aconteceu foi há 11 anos, na crise de 2008 – vide.

As tempestades virão, assim como a noite sucede ao dia. Ignorar isso não é prudente, e muito menos sábio. A diferença entre o viajante bem-sucedido e aquele que naufraga é a sabedoria de se preparar adequadamente.

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas” – Sun Tzu em “A arte da Guerra”.

O efeito dominó começou, na medida que a cada movimento um novo dominó cai e empurra outro para a queda seguinte!

Todo jogo acaba ou muda de fase. O xeque-mate se aproxima.

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Luiz Antonio Peixoto Valle é professor e administrador de empresas.

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