O último lugar do mundo em impacto científico

Olá pessoal. O texto de hoje é mais uma resenha do artigo que escrevi em fevereiro com Fabiano Borges, “Rumo à lanterninha mundial da ciência?”. Quem escreve a resenha é o prof. Carlos Adriano Ferraz, da Universidade Federal de Pelotas.

O Carlos é um grande estudioso da Filosofia, e um prolífico autor de artigos para a imprensa. Considero o Carlos inteligentíssimo. Ele está no momento servindo à associação Docentes pela Liberdade como Diretor Regional do Rio Grande do Sul.

Em épocas de epidemia é bom para a alma ler outros assuntos que não estejam associados à vírus, doenças e sofrimentos humanos.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”

Em uma série de artigos publicados desde o ano passado, o Professor Marcelo Hermes-Lima (Bioquímica/UnB) tem, especificamente a partir da cientometria, mensurado e avaliado o impacto da produção científica oriunda das Universidades brasileiras, e isso em diversas áreas do conhecimento.

Muitos desses artigos são em parceria com outros pesquisadores, como é o caso desse “Rumo à lanterninha mundial da ciência?”, o qual ele escreveu juntamente com Fabiano Borges (analista da CAPES).

Com efeito, tendo lido os artigos anteriores, julgo que esse artigo, em certa medida, é uma espécie de conclusão parcial das análises cientométricas feitas nos artigos que o precederam.

Isso porque ele é revelador, mostrando-nos de forma indisputável (e, mesmo, assustadora) o resultado das políticas acadêmicas que ganharam força especialmente nas administrações do PT, políticas voltadas para a quantidade (bem como para a consecução de ideologias fadadas ao fracasso) em detrimento da qualidade e da relevância.

Políticas como aquelas sob a égide do populista lema “Universidade para todos”, uma ideia que implicou em um aumento de vagas nas Universidades, na criação impensada (e frequentemente irresponsável) de novos cursos, mesmo de novas pós-graduações, levando um ex-presidente da CAPES a expressar seu orgulho em virtude do aumento exponencial dos “títulos de doutorado (de 6,9 mil em 2002 para 21,4 mil em 2017)”.

Em suma, políticas planificadoras e totalmente desvinculadas das ideias de relevância e qualidade. Planificadoras pois não consideraram que a criação de cursos e vagas (graduação e pós-graduação) desvinculada do mercado traz consequências nefastas, como, por exemplo, o custo altíssimo de um doutorando que hoje está, e vários são os casos (eu mesmo conheço muitos), trabalhando com algum aplicativo como o Uber (o índice de desemprego de doutores no Brasil é, hoje, de aproximadamente 27% – imaginem a situação dos graduados e mestres).

Desvinculadas da relevância e da qualidade porque a ênfase foi sobre a quantidade. Resultado? Ora, em ambos os casos temos desperdício e degeneração acadêmica (e, consequentemente, social – dado o impacto lesivo dessas políticas, por exemplo, sobre a economia).

Dessa forma, nossas Universidades, que deveriam ensejar o fomento da prosperidade mediante o foco em categorias basilares como ‘liberdade’, ‘meritocracia’ e ‘qualidade’, têm, ao contrário, as denegrido, solapado e rejeitado, especialmente quando as acompanhamos abandonando a meritocracia, a aproximação com a iniciativa privada (mercado – vontades individuais) e, claro, a qualidade.

Mas, em termos concretos, quais são os resultados dessas políticas planificadoras com foco na quantidade (políticas que se inserem naquilo que costumo chamar de “modelo socialista de gestão acadêmica”)?

Ora, o inescapável resultado da adoção de ideias fadadas ao fracasso é a decadência seja das Universidades mesmas seja do tecido moral social (afinal, as Universidades não podem ser dissociadas da comunidade que as sustenta e na qual elas estão inseridas). Tal resultado nós também o podemos depreender dos dados apresentados na análise cientométrica feita de forma esclarecedora em “Rumo à lanterninha mundial da ciência?”

“Invasão vertical dos bárbaros”

Basta uma breve incursão histórica para que identifiquemos os princípios que estimularam o surgimento e desenvolvimento das universidades na Europa Medieval. Vemos como as escolas, associações, corporações de ofícios, se transformaram nesse patrimônio de valor incomensurável para a humanidade, a saber, na Universitas Magistrorum et Scholarium.

Se formos às origens das Universidades encontraremos sua “alma”, expressa em seus propósitos mais elevados: 1. Fomento e busca pela verdade, 2. Solidificação dos pilares morais do mundo civilizado e 3. Promoção da prosperidade material (riqueza, avanço científico, etc) e “espiritual” (cultural, moral, estética, etc). Nesse sentido, elas (as Universidades), desde suas origens, estavam preocupadas com a prosperidade. Noutros termos: Elas assoalharam o caminho para a civilização e suas benesses, das quais todos, em alguma medida, nos beneficiamos.

Mas o que ocorre quando esses propósitos são solapados, como é sobejamente demonstrado em “Rumo à lanterninha mundial da ciência?”?

Eis que entram, então, as conclusões e a importância do seminal artigo aqui resenhado. Nele encontramos a análise e a mensuração do impacto da produção “científica” realizada no Brasil nos últimos anos. E os resultados apresentados apontam para conclusões nada auspiciosas: Produzimos, em nossas universidades, muito (frequentemente com recursos estatais). Mas o impacto é pífio e, na maioria das vezes, nulo (na verdade, poder-se-ia dizer que muitas vezes é negativo, dadas suas perniciosas consequências).

Noutros termos, temos focado na quantidade em detrimento da qualidade e da relevância. Ou, em termos simples: Os muitíssimos artigos publicados por nossos pesquisadores não têm, no quadro geral, qualquer impacto positivo (temos, é claro, algumas ilhas de excelência – como, conforme exposto no artigo, a Astronomia – em um oceano de irrelevância e mediocridade. Ou, como lemos no artigo, “há muito trigo no meio do joio da Academia”).

Eles não têm, na maioria dos casos analisados, qualquer influência, mesmo em suas áreas (o mesmo poderia ser dito, aliás, das caríssimas dissertações e teses defendidas em nossos programas de pós-graduação, as quais servem amiúde para atender a uma mera formalidade: dar um título ou de mestre ou de doutor). Trata-se de um investimento altíssimo para resultados que beiram a total nulidade.

Assim, diante do quadro detalhadamente descrito nas análises cientométricas do Professor Marcelo Hermes (algumas, como a que aqui estamos resenhando, em parceria com outros pesquisadores), cabe uma mudança radical com foco na educação, na liberdade e, consequentemente, na excelência.

Afinal, entendemos que resultados como os descritos pelo Professor Hermes apontam para um problema gravíssimo na forma como nossas políticas para a educação, aqui especialmente para a pesquisa, têm sido elaboradas. Esse modelo, que vigeu nas administrações do PT (que acima chamei de “modelo socialista de gestão acadêmica”), esteve desconectado de alguns pilares sobre os quais as Universidades se constituíram em um caminho para a prosperidade, dentre os quais caberia destacar a liberdade, a excelência e a educação mesma.

Tal modelo, além de desvinculado da realidade (e do mercado – das vontades individuais), não teve qualquer preocupação com o sucesso. Trata-se de um modelo pensado por sujeitos que não precisavam que suas ideias funcionassem. E elas, hoje sabemos, não funcionaram. Como diz a notória passagem bíblica, “portanto, pelos seus frutos os conhecereis”. E os frutos estão sendo mostrados pelo Professor Hermes e seus colaboradores. Daí a necessidade de estudos como o que encontramos em “Rumo à lanterninha mundial da ciência?”.

Para esclarecer ainda mais o problema, tomemos apenas um exemplo, o qual serve de paradigma para a compreensão de nosso desastre, qual seja, o da mais ilustre Universidade brasileira, a Universidade de São Paulo (USP). Utilizando o Leiden Ranking (que leva em consideração os indicadores de impacto das pesquisas a partir da base de dados Web Science – usada também pelas principais agências internacionais), encontramos que ela “está em 8º lugar do mundo em quantidade de artigos”. Isso é, aliás, o que a mídia em geral alardeia.

Parece bom, não é mesmo? Mas, embora pareça algo bom, nosso otimismo acaba quando descobrimos que ela está “em 775o lugar do mundo no ranking de impacto”, provando que produzimos muito, mas que se trata de um foco na quantidade sem qualquer preocupação com a relevância. Para que se tenha uma ideia, em termos de quantidade o Massachusetts Institute of Technology (MIT) “está em 57o lugar do mundo, muito abaixo da USP” (a qual está em 8o lugar no quesito quantidade).

Não obstante, no quesito impacto, relevância, o MIT está em 1º. lugar no mundo. Disso se depreende que quantidade e qualidade são incompatíveis? De forma alguma: “Harvard está 4o lugar do mundo em impacto, mas é a 1a em quantidade de artigos. Assim, está provado que possível uma instituição produzir muita ciência com boa qualidade”.

Dessa maneira, insisto que o problema que enfrentamos, o do naufrágio de nosso ensino e pesquisa, está ligado a uma concepção equivocada de gestão e política acadêmicas, uma concepção destinada ao fracasso (o qual pode ser, como vemos no artigo aqui resenhado, mensurado).

Uma vez que temos uma riqueza em recursos humanos, urge separarmos o “joio do trigo”. É o momento de fomentarmos a excelência, de cultivarmos o “trigo” e nos desfazermos do “joio”. E, cabe notar, há muito “trigo” na Academia. Mas no momento ele está sufocado pelo “joio” (pelo establishment).

Nesse sentido, à guisa de conclusão, gostaria de indicar que um dos projetos mais ousados e empreendedores (e, mesmo, revolucionários) para a resolução dos problemas oriundos do “modelo socialista de gestão acadêmica” se encontra no programa ‘Future-se’ (Programa Institutos e Universidades Empreendedoras e Inovadoras), recentemente apresentado pelo Ministério da Educação (MEC), o qual foi projetado para servir como fio condutor para a gestão universitária e para futuras políticas acadêmicas (afetando positivamente, pois, a pesquisa).

Tal programa, segundo vejo, tem encontrado resistência precisamente por ser uma visão oposta ao establishment vigente, segundo o qual o que importa, por exemplo, é a quantidade de publicações. Tal establishment resiste às mudanças necessárias. Não apenas isso, ela insiste em nos conduzir tragicamente ao naufrágio total, visto que, cabe enfatizar, já estamos afundando.

Não obstante, uma das alternativas para mudarmos esse quadro (de naufrágio total) está em focarmos na inovação, no empreendedorismo, bem como em uma aproximação com a iniciativa privada. Tal aproximação traria avanços imensuráveis para a Academia mesma, bem como para a iniciativa privada e, consequentemente, para a sociedade, a qual colheria os frutos daquela interação.

Instituições de destaque internacional, paradigmas de Universidades, como o já citado MIT e as oito universidades que constituem a Ivy League (apenas para citarmos as mais célebres), mantém um intenso intercâmbio com a iniciativa privada. Dotadas de uma riqueza em recursos humanos, elas desenvolvem pesquisas em parceria com indústrias, recebem bolsas dessas indústrias para subsidiar seus estudantes mais destacados, mantém laboratórios às expensas da iniciativa privada, etc.

Citamos apenas alguns exemplos oriundos das mais prestigiosas universidades do mundo, as quais são centros cosmopolitas de pesquisa de altíssimo nível (e com grande impacto). Em todas temos uma aproximação entre universidade e iniciativa privada, resultando em benefícios para ambas e, claro, para a sociedade.

E esse é o ponto: nossas Universidades, conduzidas por políticas equivocadas, têm focado sobretudo em critérios quantitativos (muitas vagas, muitos cursos, muitas Universidades, muitas dissertações, muitas teses, muitos artigos, etc), o que obliterou a preocupação com a qualidade e com a relevância. Com isso elas deixaram de servir como causa de prosperidade, seja material seja “espiritual”.

Ao final, aqueles que pagam, mediante impostos altíssimos, por esse “muito”, não se beneficiam minimamente. Pelo contrário, sofrem as consequências dessas políticas fracassadas. Nesse sentido, é preciso que as Universidades deixem de ser “realidades paralelas”, isoladas da sociedade, do mercado e da realidade, e sejam imediatamente auditadas, levando-se em consideração sua relevância para a prosperidade.

Faz-se necessário revertermos o atual quadro, e isso só será possível conhecendo a verdade, reconhecendo o fracasso do modelo vigente, e adotando políticas que assegurem a relevância e o impacto daquilo que é pesquisado e produzido em nossas Universidades. Do contrário, nosso destino será a lanterninha.

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PS: Para ler outras resenhas do nosso artigo acesse os links abaixo.

https://olivre.com.br/situacao-da-pesquisa-cientifica-no-brasil
https://olivre.com.br/os-doutores-analfabetos-do-brasil

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