O revolucionário e o outro

(Foto: Agência Brasil)

A degradação política — capítulo da degradação do gênero humano — do século XX invadiu o terreno dos nossos dias como uma avalanche, dada a magnitude da imoralidade encenada. E a perfídia indistinta dos métodos de destruição e devastação aplicados pelos regimes mais assassinos da história parece ter aderido com a tenacidade de um carrapato à cútis do revolucionário da vez.

Depois de transformar este mundo num inferno e libertar milhões de almas não do jugo do
explorador, mas de seus cárceres corporais, a violência revolucionária, antes explícita nos grandes feitos dos “abnegados”, herdeiros do terror em França de 1783, protagonistas do assalto ao Palácio de Inverno em São Petersburgo (em 1917, Petrogrado), artífices dos campos de concentração e da maquinaria de extermínio em massa, promotores da devastadora fome ucraniana, algozes do massacre da Floresta de Katyn, condutores do Grande Salto Para a Frente chinês (eu poderia continuar por páginas e páginas…), abdica do seu caráter explícito, lava-se do sangue derramado, e assume a sua nova carapaça de socialismo light.

O revolucionário de hoje não entoará proclamações ao proletariado mundial para instigá-lo à derrubada do Estado, não pedirá a cabeça decepada do patrão explorador. Não, isso não dá certo, o proletariado entregou-se às benesses do capitalismo e deixou-se impregnar pelo nacionalismo: preferiu tombar patrioticamente em Verdun, Somme, Passchendaele, Normandia, El Alamein a romper as fronteiras e unir-se, numa só força, contra o opressor burguês.

Que isso fique para os Mauro Iasi e João Pedro Stédile da vida, essas caricaturas ambulantes. A agressividade do reformador da natureza humana bem afinado com a estratégia do dia expressa-se no rebaixamento discursivo da condição humana do outro: se este não se comporta como um joguete dócil disposto à manipulação psicológica, obediente às grandes proclamações libertárias dos arautos das ideologias raciais e de gênero, o sujeito só pode ser um desprezível reacionário, desprovido de “lugar de fala”, um estorvo para os seus companheiros de viagem, delinquente do pensamento que merece ser calado a qualquer custo, embora, desde o início, ninguém deva-lhe esforço para tentar compreender o que diz.

Os movimentos sociais de têmpera revolucionária, em vez de se apresentarem como epígonos da SA e da SS (embora não percam a oportunidade de emular alguns de seus comportamentos em momentos, digamos, propícios, e aqui menciono a título de exemplo os adeptos da estratégia blackbloc), travestem-se com a aparência das associações comunitárias de bairro, reclamando o mesmo tipo de representatividade próprio dessas entidades, mas não fundam as suas bases existenciais nos problemas que normalmente ensejariam a reunião dos cidadãos, como o buraco do asfalto na rua principal, o cano de abastecimento público de água furado, o despejo de esgoto a céu aberto, a boate
barulhenta: a cola que unta os interesses dos envolvidos são os desejos mais primários da condição humana.

As reivindicações desses grupos invariavelmente referem-se a elementos identitários do
indivíduo, como sexo, gênero e raça, alargando portentosamente esses conceitos.

Esses desejos, que assolam a espécie desde tempos imemoriais, são elevados, agora, à categoria de direitos, indiscutíveis direitos da militância, desde sempre existentes (ou, em linguagem jurídica, prima facie), diante dos quais o resto da humanidade deve prostrar-se.

É aí que começa a violência retórica contra o outro: se são desejos, dizem respeito tão somente à esfera íntima de quem os tem, o que afasta qualquer possibilidade de contato e de discussão, pois o desejo tem essa renitente característica egoística: ele não reconhece o próximo a não ser que seja domado pelas virtudes.

Mas, se um desejo é um direito, ele não se submete a qualquer tipo de repressão, nem mesmo psicológica, mas é garantia constitucional a demandar a movimentação do aparato judiciário do Estado para sua imediata implementação. E direito é exercício de poder.

Quando o movimento negro proclama que as almas dos brancos lhes pertence, quando os abortistas decretam o silêncio masculino em relação ao destino de seus rebentos, quando os gayzistas inundam o Poder Judiciário com ações objetivando intimidar e calar as denominações cristãs, estamos diante da pura materialização da estratégia incruenta de eliminação do próximo.

Da eliminação física, procedimento ineficiente, como o demonstrou todas as revoluções desde 1789, passamos à mais palatável anulação do outro.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

O LIVRE ADS