O rap domina a cena audiovisual! Conheça a novíssima produção independente de MT

Lançamentos, selos criativos e recentes iniciativas coletivas que buscam profissionalização do segmento, sem perder a essência “nós por nós”

Osíris Produtora (Foto: Divulgação Facebook)

“Junta mais aqui pra dar volume galera, nossa batalha vai ser vista no Youtube!”. Flashes de celular de um lado e de outro iluminam o agrupamento na Praça da República, que fica escura na imagem da câmera crua. Acabou a bateria do som portátil que conecta o beat na internet 3G do celular via bluetooth, os MC’s continuam no gogó. Toda produção de improviso voltada para a “melhoria da cena” que, no hip-hop, é, essencialmente, independente e coletiva.

Produtoras, coletivos e selos criativos são os responsáveis pelos registros que se disseminam nas redes sociais em um novo momento produtivo para a cultura alternativa mato-grossense. Fenômeno que na geração passada foi visto no rock, mas que já é tendência local – e do hip-hop nacional, segundo Dj Taba – desde os anos 1980.

Experiências reinventadas a partir de aprendizados e do aperfeiçoamento de possibilidades digitais e online. Mais que sempre, é a vez do rap!

Batalha da Alencastro (Foto: Rodolfo Luiz/Daza Crew)

“As primeiras gravadoras e iniciativas do rap nos anos 80 foram independentes, ganhando mais corpo com as crews, coletivos de MC’s que se identificavam em determinadas ‘quebradas’. É um processo natural do nosso olhar de independência sob o hip-hop que é diferente da indústria da música em um mercado que se volta para outros segmentos, como o sertanejo. Nós, temos que fazer por nós mesmo”, explica o Dj Taba, referência local quando o assunto é hip-hop.

Na nova dinâmica fonográfica – onde sucessos vêm mostrando ser melhor um single bem produzido em formato audiovisual que um disco inteiro – vídeos, videoclipes e fotografias são disseminadas em fanpages que se multiplicam no Facebook e em canais no Youtube, mais ou menos organizados ou orgânicos. Produção que cresce na proporção que batalhas de rima se espalham pela capital de domingo a domingo, formando novos MC’s que agora precisam divulgar seus trabalhos em clipes.

Leia mais: Unindo rap e maracatu, Pacha Ana lança clipe de Omo Oyá, single de seu primeiro disco

DJ e fomentador do hip-hop mato-grossense, Taba Silva (Foto: Ricardo Correia/Nova Era Session)

Identidade

“Quem em Cuiabá que tem um clipe no Morro da Luz hoje?”
“E um Miss Gay Poconé nesse clipe?”
“Quem tem um clipe na Rodoviária?”

O MC DeGa Ghunnar Rhfg e os haitianos Metkoze e Damenn (em um feat) têm. Eles se uniram aos produtores Rodolfo Luiz, Ahim Kellen, Gabriel Oliveira e Felipe Rodrigues (ou MC Havel), que se organizam no selo Daza Crew para realizar suas produções. “É uma coisa que quem não está na rua não pensa”, explicam. E assim pretendem ficar, sem pretensão de buscar muito recurso porque, para eles, “não dá para se prender a isso”.

“Nem sempre a gente vai atingir a qualidade que quer ou de produtora, mas a gente vai tentar de forma criativa”, explica Rodolfo. “As vezes os caras fazem umas coisas mega gigante e fica escrota, porque eles perdem a criatividade. Tem medo de arriscar, sair da zona de conforto”, completa Dega que, estrategicamente, lançou o clipe produzido pelo Daza só no Facebook. “Acho que isso que ajudou a bater 7 K de visualizações, fica mais acessível questão de 3G, gurizada ajudou compartilhando”.

Com uma câmera na mão e um notebook em casa, entusiastas da cultura hip-hop e estudantes de Comunicação Social na UFMT (Ahim estuda Música) – em área diferentes, mas com metas parecidas – eles produzem fotografias, registros audiovisuais e vem se aventurando na produção de clipes desde o fim do ano passado.

Sedentos por produzir, mas ainda sem objeto e sem rolê, encontraram no rap a demanda e a identificação necessária. Rodolfo, que é fotógrafo, conta ter se sentido reconhecido e abraçado por um segmento pela primeira vez e acredita na importância de incorporar elementos do cotidiano da cidade nas produções do Daza, assim como faz em seu trabalho pessoal.

(Foto: Rodolfo Luiz/Daza Crew)

“A minha fotografia é muito do rolê de onde eu passo. É assim na minha produção até de stories no Instagram. Isso que eu quero para mim e isso que eu quero mostrar que sou”. Havel concorda, mas explica: “Não a identidade óbvia, da chita. Isso é superficial”. Mesmo DeGa, natural de Curitiba, brinca: “Aqui, que é onde você está sendo criado, até o ódio pela cidade inspira”. “Mas não dá para incorporar uma identidade local sem ser”, ressalta.

Todos concordam que a iniciativa Daza Crew é mais que um trampo, hobbie ou uma forma militância. “É uma responsabilidade. Para muita gente que está começando agora, a gente vira referência e as vezes nem sabe disso. Não é mais só mais um tio da antiga, entende?”.

MC’s Havel e DeGa (Foto: Rodolfo Luiz/Daza Crew)

Profissionalização

Na periferia de Várzea Grande, Allex Costak convidou 15 MC’s – entre beat-makers, gesseiro, tatuador, servente de pedreiro e cantores – para integrar o projeto idealizado com a companheira Tatiana Oliveira, a produtora Osíris. Na casa que reformam para morar e abrigar um estúdio, eles querem um espaço para dar oportunidade de profissionalização e formação a músicos e produtores.

“Quando a gente começa, a gente não tem nada”, explica Costak, que aos 21 anos, já atua na cena há pelos cinco, produzindo para MC’s em cenário nacional e cantando no grupo Família THC. “Era mil reais para gravar uma música, tivemos sempre que burlar o sistema, pegar um beat na internet que 10 mil pessoas já baixaram”.

A ideia é produção musical e audiovisual. Videoclipe, instrumental, gravação, mixagem, girando nome Osíris para vender serviços para artistas e MC’s de fora. Futuramente também pretendem entrar nas escolas para trabalhar com os alunos e ensinar poesia.

“Já comprei um monitor dos melhores para produzir a gurizada e de pouco em pouco a gente vai fazendo cotinha e comprando o que precisa. Estamos prestes a lançar a grife, marca de roupa para fazer o dinheiro girar. Com 17 artistas a gente também tem shows e pessoas suficientes para produzir eventos próprios”

Renascente da Central Única das Favelas (CUFA), em Cuiabá, Costak presenciou no fim da experiência a importância e os perigos da tentativa profissionalização, carregando aprendizados dos traumas conflitos da geração passada, meados de 2000.

“O hip-hop mato-grossense há anos atrás tinha tudo que você pensar. Você podia chegar lá, abrir sua grife e pintar suas camisetas, usar o som do estúdio, saia um artista formado. Vi de tudo, gente falando que estava unida, mas, na pratica, só dava mancada. Nessa época, nós, mais novos, ainda tinhamos gás, sonho e vontade. “Como eu não entendia de verba e projeto, era tudo lindo e maravilhoso, só cantar rap e ir embora para casa, mas depois a gente vê que não é. O rap começou a ressurgir mesmo há quatro anos, antes era briga demais”, reflete Costak.

Making Off de “Arebaba”, por Osíris Produtora (Foto: Divulgação Facebook)

Para ele, o grande problema das experiências passadas foi o dinheiro, mas, ainda assim, defende a necessidade de políticas públicas e vem buscando aprender a trabalhar dentro da burocracia. Para isso, participa de reuniões do Movimento Rota todas as sextas-feiras, “na miúda”, aprendendo a mexer em um site próprio e a escrever projeto para apresentar em editais.

Os integrantes da Osíris se reúnem todas as segundas-feiras: a primeira do mês é para planejar as ideias, a segunda para ir a rua executá-las, a terceira e quarta do mês é para produção. Todo mês é realizado um trabalho solo para cada artista do coletivo e quatro músicas coletivas. Em três meses dessa dinâmica, já são 22 trabalhos prontos, por enquanto dois postados. “O nosso sonho é poder trabalhar de maneira profissional, incluindo pessoas mais velhas no rolê que estejam de fora para gente aprender”, explica, na humildade.

Coletividade

“Estava procurando um projeto para fazer o que eu gosto, sem necessariamente trocar minha arte por dinheiro por enquanto. Quando tive a ideia, mandei um e-mail para o MC Marechal, que é um cara que me inspira muito com as letras. Ele me aconselhou a olhar para nossa cena local”, conta o publicitário Ricardo Correia.

Ativo no mercado em agência e como freelancer, em meio a coincidências e passos certeiros, Ricardo encontrou o músico Lucas Sant’ana tocando Marechal no Metade Cheio e com ele idealizou o projeto Nova Era Session, em dezembro do ano passado. Hoje a produtora é cadastrada nas plataformas digitais, sem custo e incorporação da autoria, como selo – Spotfy, Dizeer, Apple Music, Google Play e irão cadastrar letras na União Brasileira dos Compositores (UBC).

“Eu tinha uma câmera, ele tinha uma música, a gente tinha uma ideia e saímos só para gravar um clipe. Mas começamos a conversar e percebemos ideias super alinhadas de produzir para artistas independentes que não tem condição de ir para um estúdio gravar uma faixa, ou que quando grava não tem condição de fazer um audiovisual”, conta.

Nas produções, algumas diretrizes e estratégias – como não soltar clipes muito parecidos, o conteúdo não pode ter objetificação de mulher ou apologia a droga. “Mas não tem muita restrição ou uma curadoria, a gente faz tudo que nos procuram”.

“A gente ajuda a produzir as letras, as melodias, a criar um conceito visual para um álbum ou uma faixa”, explica. “As vezes a galera acha que a gente é especialista, mas sempre tento deixar claro que a gente não está na posição de falar se um produto é bom”, ressalta.

(Foto: Nova Era Session)

A dinâmica de trabalho parte de no mínimo uma reunião por mês para discutir ideias e funções, mas muito das criações e as adesões saem de encontros comuns e as produções geralmente improvisadas, sem agenda fixa. A produtora é composta por vários artistas que têm outros trabalhos ou projetos paralelos.

“Exige esforço, nesses momentos onde nos encontramos no estúdio que montamos na casa do Lucas quando a gente vê já é 5h e temos que trabalhar às 8h, por isso usamos mais o fim de semana. Todo mundo tem a expectativa de sair do trabalho fixo e trabalhar com isso”.

Atualmente se apresentam em eventos coletivos com uma “combinação que deixa o deixa o ambiente muito animado”, conta. Planejam também oficinas em escolas e bairros e pocket shows itinerantes. “Caixas amplificadas, sistema de som, coloca em um carro, encosta na praça, desce todo mundo e começa a fazer um show ali mesmo. Atitude hip-hop na cidade”.

Além da atitude hip-hop na cidade, o coletivo tem a união da cena como palavra de ordem. “A Nova Era não é uma banca de MC’s, é um projeto, um selo criativo e um coletivo de artistas”. Atualmente também ajudam o Dj Taba na formação de uma Liga das batalhas e a ideia é transforma o Nova Era em um portal para reunir o conteúdo da cena.

“As informações estão muito dispersas, não tem um lugar que une todo conteúdo. A gente quer construir algo que informasse sobre todas as batalhas, horário e local que elas acontecem, telefone de quem organiza, tudo isso para fortalecer porque a cena é muito dividida. O Youtube, por exemplo, não deixa monetizar um canal pequeno, para chegar no parâmetro que a plataforma pede demora muito tempo, então precisamos de um canal unificado para servir de escada para esses artistas”.

Conheça algumas (afinal, a gama é ampla) das (novíssimas) produções independentes de MT!

(Foto: Rodolfo Luiz/Daza Crew)

 DAZA CREW 

Primeiro clipe do MC DeGa Ghunnar Rhfg, natural de Curitiba, residente em Cuiabá, produzido pelo Daza Crew, na capital mato-grossense:

Mais uma produção Daza, dessa vez com Frantzno Metkoze o feat. hatiano com Metkoze e Damenn:

O selo criativo também está no Instagram.

 NOVA ERA SESSION 

O primeiro projeto, Cypher Quimera, que idealizou a Nova Era Session:

Segundo vídeo mais visto do mesmo canal:

Live clipe da Cypher Quimera, filmado no aniversário de 1 ano do campeonato de poesia Slam do Capim Xeroso:

Primeiro episódio do projeto MARGinART com a rapper PachaAna:

Conheça os membros do projeto e os trabalhos já produzidos no Site da Nova Era Session. A produtora também está no Facebook.

 PRODUTORA OSÍRIS 

Confira algumas das produções que idealizaram o projeto Osíris:

A produtora também já começa a aparecer no Facebook e na página do produtor e músico Allex Costak. Acompanhe!

 INDRIYA PRODUTORA  

Indriya Produtora, gerenciada por Heitor Gomes (Ahgave), de Cuiabá, também se destaca na cena com a produção de Agroypher, uma crítica ao agronegócio rimada por rappers mato-grossenses.

A Indriya Produtora também tem Site e está no Youtube

 URRÈPÍ.TV 

A UrrèPí.TV é a nova iniciativa audiovisual que surge no Facebook para concentrar informações sobre as seletivas para o Duelo Mato-Grossense de MC’s 2018, que começam no dia 16 de agosto, na Batalha da Alencastro, além de news gerais sobre a cena – apresentadas pelo primeiro representante mato-grossense no Duelo de MCs Nacional de 2017.

Episódio piloto do projeto uPapo, da UrrèPí.TV, programa de entrevistas realizada com Flor Costa, integrante cuiabana do coletivo paulistano WU TREM CLAN Rimadores do Vagão. No episódio, ela fala sobre suas experiências morando em São Paulo.

 DON PABLO 

Destaque para o clipe de Sonho Latino, autoria do veterano DJ Taba, produzido por Don Pablo, uma das primeiras iniciativas a produzir Mato Grosso em iniciativa pioneira no hip-hop brasileiro. Don Pablo Videoclipes também está no Facebook.

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