Marlon Brando, manteiga e o futuro do #metoo

(Imagem: EBC (Wolfmann/Wikimedia Commons - CC-BY))

O movimento feminista sempre me foi simpático. Minha mãe que era uma mulher liberada com uma vida profissional rica e só se casou depois dos 30 anos, não me criou para ser sombra de ninguém. Recebi dela e de meu pai a “licença” para ser um ser humano completo. Eu não me sentia inferior aos homens nem no matrimônio, a única via possível de realização pessoa. Fui criada para me ver como um ser humano capaz de lutar por meu próprio destino, para dizer sim ou não à vida de acordo com o que eu pensava ser certo. Eu era igual aos homens no meu valor social: diferente biologicamente, mas igual em valor inerente. Todas as noções que por osmose absorvi quando criança eram caras às raízes do movimento feminista. Atualmente, porém, esta mensagem de igualdade intrínseca perdeu a força, e foi sufocada pelo lamento do #metoo, a campanha feminista que acredita que podemos livrar o mundo dos machos abusadores, e pela negação da diferença de gênero.

O feminismo de hoje inverteu a equação que dava sentido ao movimento original. Num exercício de engodo intelectual, o discurso público agora quer nos convencer de que a mulher é igual biologicamente aos homens, mas desigual na sua capacidade de autodeterminação e agência, exatamente o oposto do que queriam nossas avós. Todas as marcas de diferenciação sexual, biológicas e psicológicas, cientificamente claras em seres humanos e no mundo animal, tem que ser ignoradas. Mas a suposição de inferioridade intrínseca da mulher em todo e qualquer contexto recebe atenção especial. Os gritos de “é o lobo” se impõem, autoritários – ai de quem ouse duvidar.

O macho predador é todo poderoso, por isto a mulher tem que ser percebida como vítima em todos os casos, verificáveis ou não. Some a isto a ojeriza à família tradicional, que é considerada um instrumento de dominação que deve ser destruída a todo custo. Ironicamente, uma das vozes que se opõem a estas palavras de ordem é Camille Paglia, que é talvez a maior intelectual do feminismo original. Lésbica e advogada da ambiguidade da “persona” sexual, Paglia está em pé de guerra com o #metoo e não reconhece a versão milênio do que movimento ajudou a promover.

Recentemente o cineasta Bernardo Bertolucci caiu nas malhas do #metoo. Parece que durante a filmagem do filme “O Último Tango em Paris” ele arquitetou com Marlon Brando uma cena de sexo que era praticamente um estupro. A história tem várias versões, mas a mais popular, divulgada pela própria atriz Maria Schneider, era de que a cena não estava no roteiro e de que o diretor, com a conivência de Brando, decidiu ocultar o que aconteceria para poder documentar no filme a reação dela como mulher, de apenas 19 anos, praticamente uma menina. A cena é repulsiva. A raiva que Paul, o homem de meia idade, fracassado, sente de si mesmo encontra um bode expiatório, a jovem. Brando a toma de surpresa e, forçando-a no chão, a obriga a um coito anal não consentido usando manteiga. Ao sodomizá-la, o personagem de Brando ganha talvez uma sensação fugidia de poder e expressa seu ódio do sistema. A conversa que o personagem Paul tem com a menina faz com que ela repita com dificuldade enquanto a viola nos esclarece:

“Eu vou falar com você sobre família, esta instituição santa, que pretende produzir virtude em selvagens. Santa família, a igreja dos bons cidadãos, onde as crianças são torturadas até que digam a primeira mentira – onde a vontade é quebrada pela repressão, onde a liberdade é assassinada pelo egoísmo – a família – família f… família f…”

Ao fazer isto Paul está repetindo o grito de guerra bem familiar aos adeptos da revolução. A frase poderia facilmente ter sido extraída dos escritos de Max Horkheimer, Adorno, Marcuse ou qualquer um dos teóricos alemães que defendiam o fim das instituições “bourgeois”, como a família e a moral sexual. A ideia da domesticação obrigatória de seu instinto de predador sexual é repulsiva a Paul e aos filósofos alemães da revolução. Através do rompimento com normas sexuais se estabelece a liberdade plena e a verdadeira consciência individual. Neste mover político freudiano, egoísmo é se privar de prazer.

É isto mesmo, você não está entendendo errado. O macho “egoísta,” nesse prisma, é o pai dedicado à esposa e aos filhos que se sacrifica dia após dia por eles. A verdadeira virtude, se é que podemos usar este termo, é dar vazão à natureza selvagem e desprezar tudo o que foi construído pela racionalidade burguesa e a religião. O macho predador, que o #metoo evidencia em suas denúncias, na boca de Brando vira o verdadeiro ser humano, liberado de obrigação “egoísta” que a família e a moral sexual burguesa lhe impõe. Como podemos ter num mesmo movimento o alvo de atingir a liberação total e de proteger as mulheres dela ao mesmo tempo? Neste mundo dos espelhos o vilão é também o herói. Dá pra entender?

Eu me pergunto, como mulher, se o #metoo e o feminismo tem algum futuro. Conciliar num mesmo movimento o espírito revolucionário, que tem como alvo se livrar das instituições burguesas, e a consciência de que o abuso em qualquer forma não pode ser tolerado, é uma impossibilidade lógica. A mulher e o homem, sem os limites que a família lhe impõe sexualmente, vão experimentar dor, abuso e abandono. O que o #metoo ignora é que a instituição da família burguesa odiada pelas feministas atuais é a única proteção da mulher contra a selvageria masculina. Ruim com ela? Pior sem ela.

A mulher em seu papel de mãe e esposa é a grande força domesticadora do homem, talvez a única. Além disto, ao concordar com a eliminação da diferença de gênero, o feminismo pede a própria destruição. Se mulheres e homens são absolutamente iguais biologicamente , e gênero é apenas uma construção social, como justificar um movimento social inteiro reivindicando proteção para esta mera construção, a mulher? Ao declarar a necessidade de um tratamento especial para a mulher, o feminismo não está reforçando o próprio conceito de gênero no qual diz não acreditar?

Infelizmente, nem com toda a manteiga do mundo este supositório de contradições vai servir de remédio para nos livrar das mazelas e dores da nossa cultura pós-moderna.

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