O que a esquerda continua não entendendo sobre a ministra Damares

Ao pensar políticas de reparação social, Damares não está sendo esquerdista, está sendo cristã

(Valter Campanato/Agência Brasil)

Os índices de aprovação da ministra Damares Alves confundem os intelectuais e articuladores da esquerda. Um artigo de Gabriel Trigueiro na revista Época[1] descreve um pouco da perplexidade esquerdista diante da postura da ministra e da boa vontade com a qual suas políticas são recebidas principalmente pelos famigerados “pobres” que a esquerda tanto corteja, mas não entende.

Trigueiro diz que a ministra surpreende ao usar o léxico “identitário” comumente associado à esquerda. Ele se refere ao reconhecimento pela ministra da realidade das travestis, mencionada explicitamente pela ministra em sua entrevista à BBC, à defesa dos direitos adquiridos pelos gays nas últimas décadas, entre outras políticas de direitos humanos que o ministério está se propondo a manter.

O que Trigueiro não sabe é que isto não é visto pelos cidadãos de bem como “política identitária” – nome da ação torpe de instrumentalização de um léxico específico para criar uma narrativa de superioridade moral para os que dele se utilizam e assim coibir pensamentos diferentes, uniformizando respostas e atitudes debaixo do controle rígido do Deus-Estado.

Quando a ministra se refere às travestis que ela ajudou e alimentou nas ruas em sua caminhada como cristã, ela não as está utilizando como um instrumento político, ou adotando uma linguagem comum à esquerda para confundir ou cooptar militantes ou qualquer baboseira do tipo.

Ela está simplesmente sendo moral. E por moral entenda-se uma pessoa que sabe a diferença real entre o bem e o mal.  O sr. Trigueiro e seus camaradas esquecem de que ser bom, cuidar dos pobres e dos necessitados, sejam eles de que gênero forem, é simplesmente parte intrínseca da conduta e do coração do cristão. Ao pensar políticas de reparação social, Damares não está sendo esquerdista, está sendo cristã.

Aliás, o território principal da compaixão é a emoção religiosa e não a política. Quando falamos de dar ao próximo, de socorrer o faminto e até de criar programas de desenvolvimento pessoal para que populações em alto-risco possam ter mais agência sobre seu destino, estamos falando de compaixão e não de política.

Caro Trigueiro, estude mais.  A ideia de Direitos Humanos não é “liberal”. Não é nem um mero produto cultural do conjunto de  ideias cultivadas pela civilização judaico-cristã. Cultura é um conceito moralmente vazio, por isto hoje, em nome da cultura justifica-se todos os tipos de barbaridades.

A ideia da sacralidade da vida humana, todos os seres humanos da terra têm o mesmo valor intrínseco, deriva de uma fonte apenas, a Bíblia. Esse conceito não é auto evidente, e não foi construído ao acaso. É uma noção fundamental da religião judaico-cristã. “E Deus criou o ser humano, à sua imagem o criou”.

Podemos dizer que toda a moral do ocidente é construída em cima desta pressuposição. Porque Deus existe e nos criou a todos iguais com o mesmo valor, devemos a Deus e uns aos outros o comportamento que gere o melhor resultado possível para todos. Este é famoso imperativo moral de Kant.

Moral é um sentimento imperiosamente religioso, goste o senhor ou não. Na verdade, o que os seus “liberais” fizeram foi criar teorias que se distanciam dessa ideia de uma moral universal. É só você ler sobre a vergonhosa participação de alguns intelectuais de prestígio na época da elaboração da DH.

Entre eles se destaca o antropólogo Melville Herskovitz, que por incrível que pareça ainda tem um artigo na versão atual da DH publicada pela Unesco.

Ele diz: “Até os fatos do mundo físico são discernidos através de um tecido enculturativo, de maneira que as percepções de tempo, distância peso, tamanho e outras “realidades” é mediada pelas convenções de cada grupo”.

Melville Herskovitz era um relativista tão extremo que não acreditava nem na realidade sensorial. Formular uma ideia de moral universal a partir dessa visão maluca se torna um absurdo total, se nem no mundo físico ele acredita.

Ele não esconde o seu constrangimento em seu artigo de apresentação da DH à Unesco[2], e se sente no dever de relativizá-la, para que se acomode ao padrão de cada cultura. Para Herskovitz, nem o nazismo podia ser condenado porque era uma expressão cultural legitimamente professada por uma sociedade.

Não há dúvida de que para os liberais como o sr. Trigueiro, que se jactam de serem os donos da ideia dos direitos humanos, a melhor filosofia moral é o utilitarismo de Peter Singer, que acredita que animais e seres humanos têm o mesmo valor, todos são “seres sensíveis” – e colocar o ser humano como sendo mais valioso do que, por exemplo, um rato, ou uma formiga, é uma espécie de tirania.

Imagine o seguinte cenário:  seu cachorro está se afogando e também o garoto do vizinho. De acordo com Singer, você tem a mesma obrigação moral com o cachorro do que com o menino. Pelo menos Singer e seus colegas são honestos o suficiente para dizer que a ideia da sacralidade da vida humana é “medieval”. Por medieval leia-se “cristã”. Para esses liberais a construção de qualquer direito inerente ao ser humano é uma bobagem.

Lógica x Retórica

Trigueiro afirma que Damares utiliza a mesma retórica da fluidez sexual defendida pela comunidade LGBT, para chegar a uma conclusão contrária e validar a liberdade para a prática da cura gay. A diferença da conclusão de Damares e dos esquerdistas é só uma: lógica. Damares apenas segue a lógica clara, sem distorcê-la.

Se eu hoje sou hétero, mas amanhã decido me tornar pan-sexual, tenho todo o direito de fazê-lo, por que o contrário não pode ser também possível? Para chegar a uma conclusão moral oposta, a esquerda é obrigada a distorcer a conclusão final, ignorando a lógica de suas próprias premissas.

No final Trigueiro tentar produzir uma conclusão que acaba soando ambígua e covarde. Ele não se sente capaz de propor diretamente uma interlocução saudável com a ministra direitista, que está interessada nos mesmos resultados práticos. Menciona en passant a possibilidade de diálogo, e a “arcana ciência esotérica da política” – mas me parece que a exortação se confunde com a ideia de estabelecer um cordão sanitário, para se proteger talvez da “esperteza” da ministra.

“Eles são o mal não importa o que façam…” – Essa é a política mais parecida com a esquerda do que qualquer outra iniciativa que contribua para o bem da sociedade como um todo, e principalmente para o bem dos pobres. Ou seja, no final da nova “compreensão” da “ideologia” da Damares, tudo fica como está.

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[1] https://epoca.globo.com/coluna-o-que-esquerda-brasileira-ainda-nao-entendeu-sobre-ministra-damares-24163000

[2] https://en.unesco.org/sites/default/files/cou_4_18_por.pdf

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