O Languishing e a saúde mental do trabalhador

(Foto de Ono Kosuki no Pexels)

Carla Reita Faria Leal

Guilherme Liberatti

 

Na semana passada, o Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, publicou portaria que declara o fim da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) provocada pela COVID-19 no Brasil, sendo que as decisões mencionadas no documento começarão a valer 30 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União.

Paralelamente a essa discussão, já existem vários trabalhos científicos que têm tratado dos efeitos da pandemia na saúde das pessoas, em especial da saúde mental, e muito tem-se falado no languishing.

Languishing significa “definhamento”, expressão cunhada pelo sociólogo e psicólogo Corey Keyes, nos anos 2000, que ficou popular quando o psicólogo norte-americano Adam Grant resolveu usá-la para descrever como se sentia: uma sensação de estagnação e vazio, constituindo uma vida de desespero silencioso. Essa sensação, segundo Grant, não correspondia ao burnout, sobre o qual já falamos aqui, nem à depressão ou à ansiedade, porque ele ainda tinha energia e se mantinha esperançoso (GRANT, 2021). 

O tema voltou a ser tratado na atualidade porque, para além do agravamento da saúde mental da população, a pandemia também criou novas formas de sofrimento. Isso porque o fato de a pessoa não poder planejar o futuro é muito perturbador, mexendo com nossas ilusões de controle. A necessidade de se adaptar o tempo inteiro é exaustiva, colocando as pessoas em alerta contínuo, e a sensação de definhamento é resultado dessa exaustão. 

Segundo dados levantados pelo Ipsos, uma das maiores empresas de estudos de mercado do mundo, no estudo “Um ano de COVID-19”, feito em 30 países e divulgado em abril de 2021, 53% dos brasileiros observaram mudanças negativas em seu estado emocional. O índice de infelicidade, por sua vez, que é o resultado da soma das taxas de inflação e de desemprego, atingiu no primeiro trimestre de 2021 o pior patamar em cinco anos, conforme aponta um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV).

Por outro lado, normalmente a abordagem da saúde é negativa, pois esta normalmente é definida a partir da existência ou inexistência de outra condição, seja doença, anormalidade, disfunção, ou de fatores de risco, buscando suprimir a sua presença, mas não com a finalidade de gerar saúde. Ou seja, saúde é considerada a ausência de doença, no caso da saúde mental, ausência de doença mental, de transtorno e psicopatologia. 

Por isso, Corey Keyes propõe uma mudança no foco de análise psicológica, mediante uma abordagem positiva. Para o autor, “curar ou erradicar os transtornos mentais não vai garantir uma população mentalmente saudável”, pois “a saúde mental pertence a um contínuo, e a ausência de saúde mental – uma condição descrita como ‘languishing’ – é tão ruim quanto um episódio depressivo; a estratégia nacional de focar somente nos transtornos pode, na melhor hipótese, reduzi-los, mas não promover saúde mental” (MARASCIULO, 2021).

Dessa forma, faz-se necessário adição de uma abordagem positiva à saúde mental, que inclua aspectos como as capacidades e as potencialidades humanas e a forma de desenvolvê-los, por exemplo. A Organização Internacional do Trabalho (1984) parece ser protagonista de um dos primeiros antecedentes da abordagem positiva da saúde mental no âmbito ocupacional ao destacar a necessidade de desenvolver indicadores positivos, como engenhosidade e criatividade, habilidade para resolver os problemas, força do ego, adaptabilidade, sociabilidade, amor próprio, introversão/extroversão, atitude positiva/negativa, respeito ao futuro, resistência psicológica e controle interno/externo, bem como desenvolver os métodos para a sua determinação (VÁZQUEZ-COLUNGA et al., 2017).

Por fim, Adam Grant destaca que “à medida que nos aproximamos de uma nova realidade pós-pandemia, é hora de repensar nossa compreensão de saúde mental e bem-estar. A ausência de depressão não significa que você não está lutando, a ausência do burnout não significa que você está empolgado. Ao reconhecer que muitos de nós estão definhando, podemos começar a dar voz ao desespero silencioso e iluminar um caminho para sair do vazio” (GRANT, 2021).

Desta forma, isso se refere especialmente aos ambientes de trabalho, que sempre foram locais de adoecimento físico e cada vez mais têm se tornado local de adoecimento mental, especialmente durante a pandemia de COVID-19. Portanto, é necessário um olhar atento e cuidadoso por parte dos administradores da empresa para com seus empregados, pois esses, muito embora possam não estar com alguma doença ou transtorno mental, podem estar passando por algum tipo de sofrimento que da mesma forma demande uma intervenção para que o seu equilíbrio mental seja restaurado.

 

*Carla Reita Faria Leal e Guilherme Liberatti são membros do Grupo de Pesquisa sobre o meio ambiente de trabalho da UFMT, o GPMAT.

 

Referências 

 

GRANT, Adam. There’s a Name for the Blah You’re Feeling: It’s Called Languishing. The New York Times, 2021. Disponível em: https://nyti.ms/3DICnEO. Acesso em: 4 abr. 2022.

 

KEYES, Corey LM. The mental health continuum: From languishing to flourishing in life. Journal of health and social behavior, p. 207-222, 2002.

 

MARASCIULO, Marília. “Languishing”: o que é o transtorno de saúde mental causado pela pandemia. Revista Galileu, 2021. Disponível em: http://glo.bo/3J7Ehja. Acesso em: 4 abr. 2022

 

ORGANIZACIÓN INTERNACIONAL DEL TRABAJO. Factores psicosociales en el trabajo: naturaleza, incidencia y prevención. Ginebra, 1984.

 

VÁZQUEZ-COLUNGA, Julio César et al. Saúde Mental Positiva Ocupacional: proposta de modelo teórico para abordagem positiva da saúde mental no trabalho. Saúde e Sociedade, v. 26, p. 584-595, 2017.

 

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