O jogo do perde-perde no preço da carne

Entenda porquê o produtor de carne não necessariamente ganha quando os preços sobem no supermercado

Foto: Divulgação/Abiec

“Confira agora a cotação da arroba do boi gordo”. Quem assiste aos programas voltados para o Agro, sobretudo na televisão, já escutou essa frase. E se o telespectador for pecuarista, aguarda este momento do jornal para ver se o preço informado condiz com suas margens ou se terá que readequar seus custos para obter lucro.

Do outro lado do balcão, frequentemente, o preço dos alimentos tem variação nas gôndolas e, consequentemente, impactam no já achatado orçamento familiar, sobretudo das famílias de mais baixa renda, em que grande parte do salário é destinado a alimentação.

Com a carne não é diferente. E toda vez que isso acontece, os pecuaristas são chamados pelos veículos de comunicação para dar explicações e, de certa forma, são responsabilizados, sobretudo quando o preço sobe. Mas será que essa leitura por parte do consumidor está correta? Não. E eu explico.

A realidade é que o pecuarista, de uma forma geral, não é responsável diretamente pela formação dos preços da carne comercializada nos supermercados, nem dos insumos que ele compra, nem do gado que ele vende. A dinâmica de comercialização do produtor se baseia em duas perguntas principais: Quanto custa e quanto você paga?

Para o lojista que vende as matérias primas que o produtor consome para produzir, tais como sal mineral, vacinas, rações, arame, etc., a pergunta que o pecuarista faz é: “Quanto custa?” Para o frigorífico, na hora que ele vende o seu gado para o abate, a pergunta do pecuarista muda para: “Quanto você paga?”

As exportações certamente influenciam o valor da carne na gôndola dos supermercados em todo o país, mas o mercado interno representa 70% de toda a produção brasileira. Com o apetite chinês em 2020 e 2021, o preço pago ao produtor pela arroba subiu consideravelmente. A margem do pecuarista até ficou, em um primeiro momento, mais atrativa. Mas rapidamente o custo de produção teve um incremento ainda maior.

Com a suspensão das exportações para o mercado chinês, o valor pago pela indústria ao pecuarista caiu cerca de 20%, mas os custos não, sobretudo dos animais confinados, que já representam 15% do nosso abate. E a pergunta que fica é: com o custo de produção maior, vai aumentar do preço da arroba? Não necessariamente, pois quem define o preço pago pela arroba não leva em conta o quanto custou para o pecuarista produzir e, sim, por quanto, no máximo, a indústria consegue vender.

Essa questão complexa começa a ficar mais nítida e o cidadão consumidor pode compreender melhor observando que a desvalorização em queda livre no valor do boi pago pela indústria aos pecuaristas nos últimos 60 dias não foi percebida pela dona de casa, quando compra carne. Mas uma coisa é certa: produto tem.

Os açougues e gôndolas dos supermercados estão repletos de carne, mas os preços praticados não agradam os consumidores e não são repassados para os produtores. Nessa batalha do perde-perde, é possível que os pecuaristas, mais do que desestimulados, estejam descapitalizados para manter a roda girando. Se essa situação não se normalizar, talvez, um dia, essa realidade mude – só que para pior. Aí, sim, além de carne mais cara no supermercado, vai faltar produto na mesa do brasileiro.

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*Oswaldo Pereira Ribeiro Júnior é médico, pecuarista e presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat)

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