O grande Mixto!

O orgulho e a dor de torcer pelo Tigre da Vargas

Quando eu era criança, descobri o tamanho e a grandeza do Mixto Esporte Clube.

Lembro que minha avó fez um bandeirão para que eu e meus primos pudéssemos sentir o doce sabor, que só uma avó sabe fazer, de torcer pelo Mixto.

Naquela época, meados dos anos 70, milhares de pessoas já lotavam o Dutra e posteriormente o Verdão para torcer pelo gols do Bife, Tostão, Luiz Carlos Beleza, craques como Ruiter e admirar a elegância e a classe do camisa 10 Pastoril, um exímio batedor de faltas.

A paixão de torcedor fez com que despertasse em mim o sonho de ser jogador de futebol. “Quem não sonhou ser um jogador de futebol?”

E lá fui eu trilhar nas escolinhas de base em busca da concretização do sonho de jogar no Mixto.

Equipe do coração

Meus primeiros passos foram no Grêmio Antônio João, do Sargento Corrêa, no 13 Futebol Clube, do famoso Chico Tripa, e no Quilombo, de Washington Dorneles que depois de contratado para treinar o Tigre da Vargas e acabou me levando para a equipe por quem meu coração batia.

Vivíamos em uma república no bairro Popular, sob os cuidados do falecido jornalista, radialista e muito apaixonado pelo Mixto, William Gomes. A tradição de força, a garra e a luta nos foram transmitidas pelos tradicionais mixtenses.

Por falar em tradição, ela era tão forte que o Sargento Correa, grande incentivador do esporte e meu pai, operariano (CEOV) de coração, me levou para jogar no Mixto e passou a ser mixtense, porque seu sangue corria nas veias do “Alvinegro da Vargas”.

Grito inflamado

Já no profissional, depois de estrear aos 16 anos em Cáceres pelo campeonato mato-grossense, via aquela maravilhosa e incansável torcida, liderada pela fantástica Nhá Barbina, que acompanhava o Mixto em tudo quanto era lugar, gritando: “Mixto!”, “Mixto!”, “Mixto!”

Esse grito inflamava os jogadores e no vestiário do Dutra a gente dizia:

“Aqui quem manda somos nós! Aqui quem manda é o Mixto, não tem como perder com essa torcida gritando aqui.”

E realmente a gente não perdia. A torcida nos obrigava a dar a vida se preciso fosse. A Boca Suja acompanhou e acompanha o Mixto em todos os lugares… Quando jogávamos no interior, por exemplo, cinco torcedores da Boca Suja calavam os estádios do interior e, em campo, nós falávamos: “Vamos jogar por eles!”

Tigre sem garra

Hoje tudo mudou… os times do interior vêm em Cuiabá e ganham do Mixto com muita facilidade. O Mixto não reage, se acostumou a perder e a não reagir. O Mixto se tornou um tigre sem garra, apático, sem sangue, sem amor, sem tradição e sem orgulho de ser Alvinegro.

Na época em que tive a honra de jogar com Elias, Genildo Carioca, Rui (que veio de São Paulo), Donizete, Benevan, Geraldinho, Marcão (filho do ex jogador Felizardo), Tostão, Marcão, Nikita, Panzarielo e o velho Gonçalves, as coisas eram muito diferentes.

A gente transpirava sangue e éramos treinados por pessoas com alma mixtense, como Ruiter Jorge de Carvalho, Hélio Machado, o zagueiro tricampeão do Mundo Brito e Natanael Henrique de Moraes (in memorian), mixtense doente e apaixonado pelo Tigre da Vargas.

Não posso deixar de citar que a tradição mixtense nasceu na casa do Ranulpho Paes Barros, visionário e grande idealizador do Mixto, e foi perpetuada por ícones da sociedade cuiabana, como o saudoso português e mixtense de coração Armindo Carreto Pardal e o mixtense mais mixtense que conheci na vida, o Dr. Luís Alberto, que gratuitamente sempre ajudou o Mixto da base ao profissional.

Nós fizemos história com a camisa mixtense e hoje estamos tristes, humilhados, cabisbaixos, mesmo sabendo da “grandeza” do Mixto que um dia defendemos, sofremos vendo o Mixto seguir para a 2ª Divisão do campeonato mato-grossense.

Dizem que “há males que vêm para o bem”. A dor e o sofrimento são grandes, mas a esperança de ver o tradicional Mixto vivo e em campo novamente nunca morrerá.

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Franz Corrêa é mixtense fanático e ex jogador do Mixto Esporte Clube

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