O cristão tem mais tendência totalitária do que o ateu?

Quem tem mais tendência para o totalitarismo?

Muitos pensam que  a religião cristã alimenta o autoritarismo. O senso comum nos diz que a pessoa não religiosa ou secular, que não reconhece nenhuma autoridade que transcenda a sua própria, é mais tolerante, mais livre e, portanto, tem menos tendência para o autoritarismo.

Será que isto é verdade? Será que a religião cristã inclina as pessoas na direção de uma  política mais autoritária?  O raciocínio seguido pela maioria é mais ou menos assim: o cristão pensa que “é dono da verdade” e, portanto, imbuído do “estar certo” ele se sente no direito de impor essa verdade a outros.

Mas a verdade é bem outra. E aqui tenho que recorrer a um tema fundamental na religião, que se chama antropologia, que trata da maneira como a religião cristã define o ser humano.

Somos criaturas

Ao contrário de quem não crê em nada, nós os cristãos nos definimos como criaturas. Fomos feitos por um Deus, que é maior, mais sábio e mais capaz do que nós jamais seremos. O Deus Criador nos atribui valor e nos guarda em si mesmo.

O mundo em que habitamos não existe fora da presença do Criador. Tudo o que fazemos está diante da divindade. Nem sequer existiríamos sem a presença dinâmica do ser divino na Terra. Esta consciência, a de ser criaturas, nos torna vulneráveis e responsáveis diante de um amor maior do que nossa limitada existência terrena.

Uma outra consciência do ser tem o indivíduo que não reconhece a existência do Deus Criador. Na ausência de Deus, estamos sós no universo, não prestamos contas a ninguém e a nada devemos nossa existência.

Estamos aqui, todos nós, como mera obra do acaso, uma multiplicação celular a menos, ou alguns segundos a mais na explosão do Big Bang e kabum!, tudo seria diferente. Talvez eu e você nem estivéssemos aqui.

Consequências

Qual a implicação política disto? Quem se vê como criatura, filho, filha, produto do ato criador de um ser divino que transcende a nossa mera existência, sabe que está debaixo de seu domínio.

Quem se vê como ser independente, ao contrário, tem logicamente direito de exercer domínio. O filósofo inglês John Milbank diz que a ideia do Estado como um espaço secular, no qual o ser humano tem direito ao domínio sobre outros indivíduos e sobre o coletivo, só surge na história da filosofia quando alguns teólogos medievais construíram a ideia que chamamos hoje de “natureza” humana.

Quando a sociedade passou a entender o ser humano como um ser  dotado de propriedade intrínsecas, sua natureza,  isolando-o  portanto de um  Criador que  o tornava humano, nossos problemas começaram.

Leviatã

Parece um jogo de palavras, mas não é. Este ser humano autossuficiente criou também um governo, ou uma noção de domínio sobre outros que também era autossuficiente. É daí que o filósofo Hobbes, do ser humano completamente definido por sua condição natural, ou seja, independente de Deus, extrai a ideia de que o único Estado possível é o Leviatã, todo poderoso e sem limites.

O corpo artificial e todo-poderoso do governo que Hobbes visualiza só se torna necessário num mundo onde o ser humano, ao invés de ser dominado por um Deus amoroso que o cria, domina de maneira independente o mundo.

A antropologia que conceitua o ser humano à revelia de sua relação com Deus é a base necessária para a construção da ideia do Estado como poder, ao invés de serviço e do ser humano como portador de direitos, ao invés de uma criatura que tem deveres para com seu Criador e seu próximo.

Portanto, voltando à nossa dúvida inicial, quem tem mais tendência para o totalitarismo?

Certamente não é o cristão, porque já embutida na ideia de governo está o “serviço” e não o domínio. Por não ser livre de obrigações, o cristão também não tem direito legitimo ao domínio de nada e nem ninguém.

Num universo sem Deus, no entanto, a única liberdade da qual gozamos é a “liberdade” para dominar e oprimir uns aos outros.

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