Audiovisual em MT: saiba quais os desafios entre a idealização e a tela

Como angariar recursos? Como sobreviver na área. Com a palavra, os realizadores de cinema no estado

Algumas produções cinematográficas rodadas em Mato Grosso e idealizadas pela “prata da casa” estão prestes a estrear. Entretanto, até chegar ao ponto em que o filme se materializa na tela do cinema – ou em qualquer outra tela – o caminho é longo, árduo e suado.

Segundo registros da Agência Nacional do Cinema (Ancine), existem em Mato Grosso 84 produtoras de audiovisual, sendo 64 em Cuiabá, com faturamento médio anual de cada uma delas entre R$ 300 a R$ 500 mil.

Entre 2016 e 2018, por meio de editais de fomento realizado pelo Estado e município em parceira com a Ancine, FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) e Arranjos Regionais foram investidos no audiovisual mato-grossense mais de R$ 11 milhões para a produção de 23 filmes (entre curtas, longas e pilotos de séries).

O investimento, porém, está ameaçado.

O desmanche dos equipamentos públicos que fomentam o audiovisual no Brasil e a falta de incentivo é quase unanimidade no discurso de quem produz no país.

Em Mato Grosso, longe dos considerados grandes centros, os efeitos são ainda mais intensos. Como angariar recursos? Como sobreviver na área?

Com a palavra, os realizadores de cinema no estado

Bárbara Varela é produtora há mais de 10 anos e mato-grossense de São José do Rio Claro.

Para ela, a falta de políticas públicas que incentivem a área é latente. “Hoje, não existe um programa no estado para o desenvolvimento do cinema, do audiovisual. O problema é que a área não é vista como as outras áreas: geradora de emprego e renda”.

Para provar o contrário, Bárbara cita os números de uma das últimas obras que passou pelas mãos dela: A Batalha de Shangri-lá, do diretor Severino Neto.

“Foram mais de 300 pessoas contratadas e que participaram do projeto. Por isso, o que nos falta é fomento”.

Bárbara está por trás do Box de Curtas, projeto fomentado pelo governo do estado. A primeira edição produziu quatro curtas ficcionais e um piloto para uma série de TV.

Os filmes participaram de mais 80 festivais mundo a fora, conquistando prêmios nacionais e internacionais. Entre eles: “Teodora quer dançar”, “A gente nasce só de mãe”, “Juba” e “Aquele disco da Gal”.

Ela se diz privilegiada de conseguir criar fluxo e ter sempre trabalho na área. “A maioria não tem tempo de fazer. A realidade é sempre outra e tem que compensar com publicidades e outros projetos”.

Severino é publicitário e tem pós-graduação em cinema. Ele acredita que, apesar de estar melhorando, o mercado em Mato Grosso ainda dá os primeiros passos. Agora, só precisa andar.

“O estado está começando a engatinhar na área. Temos esperança que essa nuvem negra que está tratando o cinema como inimigo passe”.

Para ele, ainda é impossível viver apenas de cinema no estado.

“Aqui fazemos cinema pela esperança, pela vocação, acreditando que vai dar certo”.

Severino conta já ter tirado dinheiro do próprio bolso para produzir documentário e curtas.

O primeiro longa de ficção de Severino, A Batalha de Sangri-lá, já roda em festivais pelo Brasil, mas deve ter estreia oficial em breve.

A história gira em torno de João, um jovem executivo do agronegócio que tenta resgatar seu passado, partindo em uma grande viagem rumo ao desconhecido. Os pais adotivos do moço morrem e ao descobrir uma papelada, fica sabendo do paradeiro da mãe.

É daí que o rapaz que vive no bairro Shangri-lá, em Cuiabá, vai em busca da mãe que mora no interior.

Caroline seguiu o que ela classifica como chamado.

“O cinema me fez um chamado para expressar a minha arte. E é óbvio que a gente sonha em viver dessa arte, mas infelizmente, por não ter respaldo e depender de políticas públicas, é quase impossível”.

Ela é produtora, publicitária e diretora de arte. Já trabalhou em projetos como ‘O  Anel de Eva’ e ‘Pandorga’.

Para a profissional, a área está sempre no estágio inicial e faltam políticas públicas para dar continuidade ao processo de evolução do setor.

“Muda governo, diminui orçamento e sempre voltamos ao zero. Ficamos tentar convencer os governantes que cultura não é só festa aniversário da cidade, festa de bairro”.

A urgência da área ser vista como indústria também deve estar em pauta, de acordo com a produtora.

“E é uma indústria limpa, que não polui, traz os olhos para o patrimônio imaterial de uma sociedade”.

Há 20 anos na área, Caroline também é professora. “Estou nessa trincheira que é resistir. Uma sociedade precisa se registrar, mostrar as histórias”.

Amauri Tangará

Autor do primeiro longa rodado de Mato Grosso, Amauri Tangará está há algum tempo na estrada. De ‘Pobre é quem não tem jipe’, de 1997, até ‘Pantanal e outros bichos’, trabalho mais recente, muita coisa mudou no mercado.

O filme conta a história de um menino que sonhava conhecer o outro lado dos horizontes dos chapadões. O longa pode ser visto no Youtube.

Para ele, é como se uma viagem para o mesmo destino fosse feita a pé e de avião; a diferença é clara.

Amuri disse que consegue viver do meio, entretanto, não do cinema, da arte. “Vivo de teatro e morro de cinema”, afirma, explicando que está sempre com um pé no exterior – já rodou filmes em Portugal e na República Tcheca.

A grande dificuldade, segundo ele, é a dependência do que é feito em nível de Brasil.

“Esse pessoal que entrou agora está querendo meter a mão no fundo setorial que não tem a ver. É obrigação fazer filme gospel, patriótico. É tudo muito equivocado e acaba atingido o estado”.

Tati Mendes é produtora executiva e cineasta. Ao lado de Amuri comanda a Cia D´Artes do Brasil e inúmeras produções. Na quarta-feira (11), ela acompanhava a tramitação do Veto 62, no Senado, e da PEC 187 na Câmara dos Deputados.

O primeiro estabelece a prorrogação do prazo para a utilização do Recine, medida vetada pelo presidente Jair Bolsonaro e que trata da desoneração de impostos para construção de salas de cinema no país.

Já a PEC 187, determina a extinção de fundos e da autorização para o governo usar para outras finalidades o dinheiro retido em fundos infraconstitucionais. Neste caso, um dos fundos ameaçados é do audiovisual (FSA).

A questão, porém, é que o fundo opera com fontes de receitas próprias do setor e não com dinheiro do orçamento público ou de impostos pagos pelo cidadão.

“São as lutas que nós temos que travar para trabalhar. Os editais municipais, estaduais – se existirem – dependem e precisam estar ligados com os federais. Os valores que o município e o estado dedica para a área são muito irrisórios”.

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