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Opinião

O Brasil em uma foto

Foto de Pedro Benedito Canaverde
Pedro Benedito Canaverde

Dois acontecimentos políticos ocorridos nos últimos dias permitem ilustrar a fragilidade das instituições brasileiras: a tolerância com o que deveria ser inadmissível e a repercussão de um fato político de uma forma que expressa certa imaturidade política.

O primeiro acontecimento refere-se à foto acima. Se você perguntar para o cidadão médio brasileiro, ou seja, aquele que é alfabetizado e acompanha minimamente a vida política brasileira, o que ele vê na foto, o que será que ele responderá? Provavelmente  ele reconhecerá a figura do presidente Luiz Inácio, mas não sei se reconhecerá a ministra Carmem Lúcia da Suprema Corte.

Muito provavelmente também não se espantará com o que a foto representa: uma ministra da Suprema Corte de mãos dados com o chefe do Executivo, ambos sorrindo.

A ministra do STF então presidente do TSE, tribunal superior eleitoral, a instância jurídica máxima da justiça eleitoral brasileira. Isso em ano de eleições majoritárias em um conflito de interesses evidente, pois o atual presidente é candidato à reeleição. 

Traduzindo para uma linguagem mais coloquial , é como se o presidente do flamengo chegasse a um evento de eleição na CBF, abraçado com o presidente da Comissão de arbitragem. 

Mas, o que mais chamou atenção foi a naturalidade com que isso foi visto pela sociedade brasileira. Embora seja um escândalo, conforme alertou alguns órgãos de imprensa, não provocou grandes reflexões.

O segundo acontecimento diz respeito à descoberta de que o principal candidato de oposição, Flávio Bolsonaro, pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, o nome das manchetes envolvendo corrupção no momento, para financiar um filme sobre a história do pai, Jair Bolsonaro. 

A história toda ainda é nebulosa. Flávio negou, depois assumiu que negociou com Daniel Vorcaro. A produtora do filme nega que tenha recebido dinheiro, mas Flávio fala da cobrança de parcelas atrasadas. Enfim, ainda não temos informações claras sobre o que realmente aconteceu. Mas, eu quero abordar aqui a repercussão do caso entre aqueles que pensam ou pensavam em votar em Flávio Bolsonaro.

Em alguns grupos de WhatsApp, a notícia caiu como uma bomba. Principalmente entre aqueles simpáticos à candidatura do primogênito de Jair Bolsonaro. Decepção, desejo de que o adversário vença o pleito de outubro e lamentos e críticas ao candidato baseadas na sua personalidade, caráter, enfim. Críticas que expressam decepção em relação a um indivíduo não virtuoso. 

Fica claro que, na avaliação desses eleitores, a escolha de um candidato é realizada em cima de atributos do indivíduo. Ele tem que ser bom, responsável, honesto e virtuoso. É claro, que esses atributos são desejáveis, mas e o programa que ele pretende executar?

Parece que isso fica em segundo plano, o que sugere certa imaturidade política. Elege-se um indivíduo sem saber com clareza o que ele fará, baseando-se apenas em seus atributos enquanto indivíduo?

Na eleição passada, Luiz Inácio não apresentou um programa de governo. Isso inclusive dificultou os debates. Como a opinião pública e os eleitores avaliarão um candidato se ele não apresenta seu programa de governo?

Qual o programa de Flávio Bolsonaro? Isso é o mais importante em uma democracia. Claro, se o candidato comete deslizes éticos inadmissíveis, deve ser criticado ou até substituído, mas cair no desespero e desejar a vitória do adversário expressa imaturidade política e pouco contribui para o exercício da democracia.

Ignorar o comportamento inadmissível do presidente Luiz Inácio na posse do novo presidente do TSE e ver no discurso do candidato Flávio Bolsonaro uma cilada passível de fazer seus eleitores desistirem da participação na disputa eleitoral parece refletir a fragilidade de uma democracia.

Ignorar o indivíduo é desconsiderar a fonte de ideias originais e de propostas que merecem a atenção do eleitor. Mas, transformá-lo na única medida que referencia um projeto político é simplificar exageradamente algo que é mais coletivo que individual. 

Em termos sociais e políticos, tudo começa no indivíduo. A foto acima expressa o que os brasileiros não podem tolerar. Eles não podem achá-la normal porque ela denuncia tudo que é lamentável nos indivíduos que achamos virtuosos e no que não cobramos que eles representem.

Pedro Benedito Canaverde é graduado em filosofia e empreendedor. 

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