O “bolsonarismo” existe?

O povo brasileiro despertou de seu longo sono político

Peronismo: discurso de salvação e busca por perpetuação no poder (AP)

Analistas erram muito quando recorrem a fórmulas simples para tentar interpretar momentos históricos complexos. A meu ver um dos erros que está sendo cometido pelos analistas políticos de direita e esquerda hoje é crer na existência de um movimento quasi-religioso em torno do presidente Bolsonaro, o chamado “bolsonarismo”… Será que este tal  bolsonarismo existe mesmo?

Vamos voltar ao “peronismo”, o movimento que entronizou a figura de Juan Domingo Perón, eleito três vezes presidente da Argentina, para entender como um movimento político personalista se definiria. Perón alcançou o status de semideus político graças a circunstâncias muito próprias à Argentina dos meados do século XX.

O país empobrecido se rendeu ao carisma pessoal de Evita, que se tornou uma espécie de alter-ego bem-sucedido do trabalhador argentino. Una-se à devoção que Evita inspirava ao discurso populista do ditador e vemos nascer um movimento e uma ideologia política que foi seguida depois por seus sucessores e venceram nove das 12 eleições que disputaram.

Nossos analistas brasileiros, sem muito critério, apressam-se em incorporar o mesmo “-ismo” ao apoio popular à recém-nascida presidência de Bolsonaro, o que a meu ver é um sufixo desnecessário e falacioso.

O apoio a Juan Domingos Perón virou o “peronismo” não só devido ao eco que sua figura teve com o público, mas por algumas características que não estão presentes no atual movimento de apoio a Bolsonaro. O peronismo em primeiro lugar tinha como base política um discurso populista.

Reconheço que a palavra populismo está desgastada. Mas na definição tradicional o populista trabalha com uma redução da ideia de povo a uma alegoria. O “povo” para esta abordagem política é uma massa abstrata amalgamada em torno de algumas percepções emocionais, do tipo “injustiçado pelas elites” ou “explorados pelo capitalismo”.

O político que trabalha nessa base não dialoga com o “povo.” Sua interação com os eleitores é um monólogo pautado no louvor a seu autoproclamado messianismo (“nunca antes na história deste país”, por exemplo…) Ele se percebe como parte do povo e como a resposta para todos os seus problemas.

A política populista funciona como uma força centrípeta, atraindo todos os seus projetos, propostas e interações para seu centro personalista. Até a iniciativa social o PT queria controlar completamente. O nosso lulismo é assim. Lula usava a sua pseudo-condição de “povo” para propor medidas que na verdade tinham como efeito submeter as pessoas que compunham este povo a seu julgamento e visão.

A principal proposta desse populismo é recompensar ou ressarcir a massa pelas perdas que ele como político identifica e tem o foco no presente. O governo Bolsonaro até agora tem preferido ver o governo como força centrífuga, responsável por descentralizar e soltar as amarras para que a sociedade civil tome mais espaço na construção do novo país.

Outra característica do peronismo foi ter se estabelecido através de privilegiar coalisões corporativistas, rejeitando os princípios liberais que teriam tirado as amarras da economia do país em nome de uma rejeição ao “capitalismo”. Além disto, pretendia se consolidar como o principal partido no poder, com uma clara intenção de perpetuidade soberana.

Se o Peronismo se parece com algum movimento político no Brasil, é com o lulismo. O corporativismo do lulismo, por exemplo, fica cada vez mais patente com as revelações da Lava-Jato. O Estado Populista do Brasil que reinou de 2002 a 2016 tinha como objetivo estabelecer um grupo de megaempresários amigos do poder como donos do Brasil. Neste sentido ele era como queria Perón para a Argentina: um Estado nem capitalista e nem comunista, era a terceira-via populista, o  Estado que tinha como verdadeiros donos o partido e seus comparsas.

Bolsonaro não se elegeu nesses termos. Ele não enganou o povo com uma fala doce para obter apoio na eleição. Não prometeu mundos e fundos e nem benesses gratuitas do governo. Sofrendo de “sincericite” aguda, como disse alguém, sempre foi honesto ao avaliar a situação do país. Atreveu-se a propor uma agenda negativa, de aperto das contas do governo, uma grande reforma previdenciária e mais policiamento.

O povo, de maneira inédita neste Brasil acostumado com desmandos, escolheu este deputado do baixo clero como seu porta-voz. Foi o povo quem o fez. A força de sua candidatura não operava de cima para baixo, como as candidaturas anteriores, ou a de seu concorrente principal. Até então todos os candidatos eram dependentes de um caríssimo aparato de marketing para se fazerem perceber como relevantes. Mas a ascensão do “Mito” Bolsonaro mudou essa equação.

Ele não se propôs a si mesmo, não foi produto de um marqueteiro espertíssimo cobrando milhões.  Bolsonaro não criou uma “persona” para se eleger. Era o mesmo boquirroto de sempre, mas foi escolhido pelo povo como seu candidato. Sua candidatura teria sido pequena e até passado desapercebida se o povo, num determinado momento, não tivesse percebido que novamente repetiria a farsa dos anos passados, comprando gato por lebre se escolhesse qualquer um dos outros candidatos.

O eleitor tornou relevante este obscuro deputado sem uma carreira de peso no Congresso porque viu nele alguém que enxergava o momento do país da mesma maneira que ele próprio. Quem construiu o mito não foi o político. A história das mensagens do WhatsApp pagas por verba de campanha sustentada pela esquerda após a eleição só parecia plausível aos que estavam muito distantes das casas dos brasileiros.

Quem ouvia as ruas sabia que era um momento em que o país passaria por uma mudança cultural radical. O povo havia despertado de seu longo sono político.

Foram as “tias do Zap” que construíram em Bolsonaro a figura do político honesto, o estadista pró-país e pró-futuro em que eles escolheram confiar. Elas era mais de 50 milhões de brasileiros.

Mas a pergunta fica: era o Bolsonaro mesmo o alvo final? Este povo que optou pela lucidez de uma mudança política radical optou também pela lealdade cega a seu novo eleito? Atrevo-me a crer que não. Atrevo-me a pensar que a maturidade que levou o povo a construir um candidato anti-populista e catapultá-lo ao poder também vai mantê-lo sob vigilância. O que vejo no Brasil não é um bolsonarismo, a devoção religiosa ao presidente, ou a uma agenda populista construída no emocionalismo da necessidade do povo de um pai-Estado como os peronistas da Argentina.

Ao contrário, parece que estamos vendo um povo determinado a ver o país transformado. O povo vai ficar com o presidente enquanto ele demonstrar o caráter independente e íntegro que demonstrou até agora. O povo que elegeu a si mesmo na figura dele quer probidade, independência e compromisso com a agenda liberal-conservadora. Bolsonaro, se for esperto, não vai se enxergar maior do que este povo.