Número de enterros quase dobra em Cuiabá e o motivo é a covid

Em uma das unidades públicas da Capital, gavetas estão sendo construídas para tentar evitar um problema de espaço no futuro

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Os enterros em Cuiabá aumentaram 94% nos meses de junho e julho, em comparação ao mesmo período do ano passado, e o motivo é a covid-19. Os dados são da Prefeitura. Nestes dois meses de 2019, o total de óbitos foi 1.092. Este ano foram 2.119.

Vale lembrar que a maioria das famílias recorre aos cemitérios públicos por conta dos custos de se manter uma sepultura. Conforme os dados, nos dois últimos meses, 54% dos enterros foram realizados pela Prefeitura de Cuiabá.

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Uma demanda que não tinha como ser planejada, contudo exigiu a elaboração de uma estratégia para que não haja falta de espaço, caso os efeitos da pandemia se estendam.

Cemitério do bairro Despraiado é exclusivo para vítimas do covid (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Gerente da Central de Óbitos da Prefeitura de Cuiabá, Ivana Varanda explica que o impacto não foi tão grande na Capital porque muitas famílias tinham convênio com a Pax Nacional Prever ou túmulos de família.

Mesmo assim, houve uma procura pelas pessoas que não tinham condições de pagar o enterro e também de familiares de paciente de fora do município, que foram transferidos para hospitais em Cuiabá, onde morreram.

Em alguns casos, os corpos foram impedidos de fazerem o translado pelo decreto governamental. A regra acabou alterada, mas o problema não foi resolvido por completo, já que o preço para fazer o transporte particular é expressivo e nem todas as prefeituras oferecem o serviço.

Onde estão as vagas?

Nos cemitério públicos, existem vagas disponíveis no Despraiado e no São Gonçalo. A Piedade, Porto e Coxipó da Ponte estão disponíveis apenas para quem já tem jazido no local.

A equipe do LIVRE esteve onde ainda acontecem os enterros. No Despraiado, haviam poucas covas, abertas com auxílio de uma máquina ainda no começo da pandemia.

A maior parte já estavam ocupadas, sendo que algumas tinham uma cruz ou um indicação de quem ali estava. As demais eram identificadas apenas pelas pelas marcas da terra revirada.

Nem todas as família conseguiram identificar as covas onde estão enterrados os parentes (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

O local foi reservado para as vítimas da covid por conta do espaço e também do tempo de remoção. Em situação normal, os restos mortais estão em condição de serem retirados dentro de 3 anos. No caso dos mortos pela nova doença, a demora é de até 10 anos.

A gerente da Central de Óbitos explica que o saco impermeável em que os corpos são  embalados dificulta o processo de decomposição. E, como eles precisam ser, preferencialmente, colocados na terra, isso dificulta a rotatividade.

Nos cemitérios públicos de Cuiabá, os corpos ficam enterrados por 3 anos e depois de  removidos, são acomodados em um ossário. Assim, o espaço fica disponível para outro sepultamento.

“Temos os mortos pela covid, mas o restante das doenças e causas que continuam a demandar o serviço e também precisam ser atendidos”, explica Varanda.

Para evitar problemas futuros, também estão sendo construídas gavetas. Elas ocupam um espaço menor e possuem vários andares, o que permite a acomodação de mais corpos em menos terreno.

Entre um enterro e outro, funcionários se dedicam a construção das gavetas (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Já no cemitério do São Gonçalo, que ficou destinado às demais doenças e motivos de mortes, os esforços dos trabalhadores estão na remoção dos corpos para receber outros corpos.

Conforme as regras, após os 3 anos, os ossos retirados vão para o ossário da unidade, onde ficam por algum tempo até que a família faça a transferência para outro local. Caso isso não ocorra, o material é encaminhado ao ossário municipal.

Mais trabalho

Enquanto a equipe do LIVRE estava no cemitério do São Gonçalo, funcionários se preparavam para receber quatro funerais.

O primeiro que chegou veio acompanhado de familiares e amigos. O carro funerário parou próximo à cova e todos se aglomeravam entre os buracos que têm cerca da 40 centímetros de distância.

Parentes ajudam a carregar o caixão até o local do enterro no cemitério do bairro São Gonçalo (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Houve uma pequena parada e abertura de caixão para que as pessoas pudessem fazer a última despedida.

Neste momento, chegou um novo cortejo e, para não haver ainda mais pessoas juntas, foi aberta uma estrutura sanfonada de metal um pouco depois do portão de acesso, embaixo de uma árvore.

Ali, o caixão foi acomodado e aberto, sendo que o próprio motorista da funerária segurava a tampa para que os familiares fizessem as últimas orações.

Quem ali trabalha, fala que a rotina mudou muito. Em alguns dias, mais de 10 cerimônias são realizadas.

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