|sábado, 21 abril 2018

No divã

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“Pessoas insanas sempre têm a certeza de que estão bem. São apenas as pessoas sãs que estão dispostas a admitir que são loucas”. (Nora Ephron, escritora norte-americana)

“Ela faz terapia”, foi o que me confidenciou uma amiga estrangeira quando descobriu que uma conhecida atendia sessões de psicanálise. “Para quê? Isso é coisa de louco”, ela emendou.

“Pois eu acho que todo mundo precisa fazer terapia”, foi a minha resposta, a qual acredito piamente.

Mas aquilo me incomodou.

Como alguém, principalmente uma cosmopolita como ela, ainda tem esse tipo de preconceito? Em pleno século XXI, quase 100 após Freud, ainda tem gente que prefere acreditar na certeza da vida do que colocar tudo em cheque?

Se até o Papa Francisco, um homem santo, já teve seus dilemas e recorreu à psicanálise, como nós, reles mortais, rejeitaríamos momentos de conversa e questionamentos?

Nunca desconfiei de quem fizesse terapia. Nunca imaginei cenas de loucura quando alguém me disse que contava com a ajuda de um terapeuta. Esse tipo de preconceito sempre passou longe de mim, mesmo quando não era paciente.

Talvez tenha sido influência da minha tia Patrícia, uma psicanalista, que sempre me entendeu como poucos e por quem tenho profunda admiração. Talvez tenha sido minha vó Biloca, que nunca escondeu que viajava 300 quilômetros para fazer suas sessões. Ou, talvez, seja ainda mais simples. Acho que, desde cedo, entendi que poucos conseguem resolver seus dilemas sozinhos. Nem os aparentes e, menos ainda, os escondidos. Em algum momento da vida, alguém vai precisar de ajuda. E tudo bem.

De verdade, terapia não deveria ser considerada dispensável ou mesmo banal.

Se uma vez por semana todo mundo encarasse o espelho, que é implacável ao refletir tudo, inclusive nossos defeitos, o mundo teria menos guerras e as pessoas seriam mais tolerantes.

Terapia é isso: é se olhar no espelho e ver a alma. Ver tudo o que é bom e ruim. É ver tudo desmoronar e, com paciência, lutar para tudo se reerguer. É ver acerto e erro, bonito e feio, certo e incerto.

Quem diz que fazer terapia é fácil não sabe o que está falando. Mas, apesar das dificuldades e entraves, todo mundo seria melhor se tivesse um espaço para pensar na própria vida.

Não voltei ao tema com a minha amiga, aquela da conversa que reproduzo no começo do texto. Pelo que sei, sua vida está bem complicada. E com certeza deve ter mudado de ideia. Tomara.

Assinatura Debora Nunes

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