|Segunda-feira, 20 agosto 2018

    Nenhuma Santa Casa foi canonizada

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    Ednilson Aguiar/O Livre

    Santa Casa

    Dez dias depois da reportagem do programa Pop Show, da Band-MT, sobre casos de nepotismo e salários elevados envolvendo a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, a direção da instituição continua oferecendo evidências de que a transparência exigida pelo Brasil da Lava Jato é menosprezada por gente que se julga blindada por atividades filantrópicas.

    Confrontados com revelações amplificadas por este site, os comandantes da entidade se limitaram a divulgar palavrórios tão agressivos quanto confusos. Numa nota intitulada “Palavra do Presidente”, por exemplo, Antônio Preza fez elogios a ele próprio e à sua mulher pelo que considera demonstrações sublimes de desprendimento.

    “O cargo de Provedor da Santa Casa e Vice-presidente não recebem (sic) nenhuma remuneração por seu desempenho”, começa a autolouvação. “A Senhora Telma Maria Ribeiro Preza, minha esposa, exerce trabalho estritamente voluntário, sem qualquer remuneração, dentro e fora da instituição”. Em seguida, o signatário ressalva que, no quadro de 750 funcionários, “apenas 04 parentes são contratados”. Atenção para o “apenas”. Preza acha pouco a contratação de um quarteto.

    Também lhe parece pouco o que embolsa mensalmente a parentela. Luis Otávio Gonçalves Preza, engenheiro civil, “recebe o salário bruto de R$ 12.000,00 (bruto, sem descontos legais)”. O presidente da Santa Casa não detalha quanto ganham a advogada Sheila Preza Moreno, a dentista Ana Paula Preza Moreno ou Maria Stela Gonçalves Preza, “formada em Eventos e Turismo e Gastronomia”. As cifras retornam ao texto do presidente quando se informa que Fredson Correia de Souza tem direito a R$ 16.000,00 por mês.

    Num país com mais de 12 milhões de desempregados, só alcançam tais faixas salariais, profissionais que se valem do próprio talento ou são socorridos por parentes generosos. Em vez de notas que ferem o português e o bom entendimento das coisas, Antônio Preza deveria simplesmente escancarar a movimentação financeira da Santa Casa, incluindo folha de pagamento, receitas e despesas.

    Com isso, permitiria que os mato-grossenses soubessem o que exatamente acontece numa instituição que, aos 200 anos de existência, é vista com respeito e carinho pelos que buscam seus serviços. Estranhamente, os envolvidos na história preferiram invocar a teoria da conspiração e enxergar manobras e insultos que jamais existiram.

    Esses fantasmas imaginários sublinham uma “nota de esclarecimento sobre denúncias das santas casas de Cuiabá e Rondonópolis”, subscrita por Maria Elizabeth Meurer Alves, presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Mato Grosso (Fehosmt). Trecho: “Nos estarrece (sic), nos últimos dias as infundadas denúncias que sofreram as santas casas de Cuiabá e Rondonópolis e seus dirigentes, afim de confundir a população e denegrir a imagem dessas instituições centenárias que são responsáveis pela assistência à saúde da grande população de MT que necessita do SUS. Estas instituições passam diariamente por fiscalização dos órgãos competentes municipais, estaduais e federais, bem como constante auditorias (sic)”. Rezemos para que a doutora Maria Elizabeth trate os pacientes com mais competência da que exibe no tratamento dispensado à língua portuguesa.

    O Livre não está interessado em atingir nenhum dos supostos filantropos. O que queremos é que todo estabelecimento hospitalar seja suficientemente eficaz e transparente para que quem o procura se sinta devidamente amparado. As “notas de esclarecimento” nada esclareceram. Continuamos à espera de explicações convincentes. A independência que marca o jornalismo aqui praticado vai prevalecer mais uma vez sobre tentativas de intimidação.

    Desde o dia do nascimento prometemos aos leitores que todas as verdades seriam expostas. Temos feito isso há um ano. Também devem submeter-se à verdade os dirigentes de instituições bicentenárias. As Santas Casas, repita-se, merecem respeito e carinho, mas convém lembrar que nenhuma delas foi canonizada. Os que as comandam, portanto, não podem exigir o tratamento reservado a santos.

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