A leitura do noticiário de meu fim de semana sugere que a vida social atual parece repleta de conflitos. O presidente do conselho nacional de educação, Cesar Callegari, afirma que “a educação é um campo de disputa permanente. É um campo de conflito também”. Por essas razões, ele se opõe a propostas para a área da educação como o homechooling, o sistema de vouchers e, principalmente, as escolas cívico-militares. Em grupos de WhatsApp familiares ou não, multiplicam-se casos de brigas que expressam conflitos políticos. Afinal, o conflito sempre foi um processo social ubíquo ou tem sido acentuado nos últimos tempos?
É uma pergunta difícil de responder. Teoricamente, pode-se sustentar que estamos diante das duas coisas. O conflito é ubíquo e tem se acentuado nos últimos tempos. É ubíquo, ou seja, está em todos os lugares. A vida social implica que quando interagem, os indivíduos cooperam, competem e entram em conflito. Esta é uma hipótese geral, válida para todos as sociedades humanas. Entrar em conflito significa que os indivíduos tentam obter recompensas pela eliminação ou enfraquecimento de seus competidores. É um fenômeno mais de grupo do que individual.
E se é um fenômeno de grupo, temos que avaliar se as demandas dos grupos são ou não socialmente válidas. Invalida-las totalmente apenas porque pertencem a grupos políticos adversários não parece uma estratégia politicamente tolerante e socialmente eficaz.
A transformação de adversários políticos em inimigos, ou seja, a mudança da ideia de que seu adversário político tem que ser superado para a ideia que ele tem que ser eliminado, como temos assistido atualmente, é o triunfo da dimensão da vida social que pode ser cooperativa, competitiva e conflitiva para ser exclusivamente conflitiva.
Mas, por que parece que conflito tem se acentuado nos últimos anos? Entre os vários fatores que podem nos ajudar a entender isso, podemos abordar o conflito enquanto explicação da vida social. A ideia que norteia nosso presidente do Conselho Nacional de Educação.
É uma ideia parcialmente verdadeira. Mas que tem sido desastrosa em sua aplicação. Cesar Callegari está certo quando diz que a vida social é repleta de conflitos, mas está errado quando reduz a vida social apenas a conflitos. Falta ao secretário a dimensão empírica da manifestação da sua hipótese. O conflito nunca se manifesta isoladamente, como dá a entender o sociólogo. Sim, Cesar é sociólogo. O conflito é uma etapa de vários processos sociais encadeados, esteja ele na educação, economia, ou qualquer outra área da vida social. Ele é a ponta de um processo que tem cooperação e competição. Ele não pode ser compreendido separadamente. Onde tem cooperação, tem competição e possibilidades de conflito. Onde tem conflito teve cooperação e competição. Onde tem competição, tem cooperação e algumas das competições fatalmente se tornarão conflitos.
Escola não é quartel, diz o sociólogo. É verdade. Mas, hierarquia e cumprimento de ordens estão presentes nos dois espaços sociais. De maneira diferente, mas estão presentes. Quando o presidente do CNE diz que cumprir ordens vai na contramão da vida moderna, quando ele despreza a hierarquia enquanto instrumento de organização social, ele separa o conflito da cooperação e competição e cria um mundo social ingovernável, inadministrável, em que os grupos se estruturam com uma hierarquia menos flexível, menos sutil, mais intolerante com a manifestação das diferenças. Isso simplifica artificialmente a vida social porque erroneamente ignora que toda estrutura social tem uma hierarquia, tem desigualdade de poder e acesso a recursos.
Os teóricos do conflito, durante décadas, reclamavam que os teóricos do liberalismo econômico viam competição em tudo. Eles estavam certos. Na verdade, muitos admiradores do liberalismo econômico exageravam na visualização da competição porque negligenciavam a cooperação e o conflito. Parece que os teóricos do conflito repetem o erro dos teóricos liberais mais exagerados.
A competição está em toda parte. O conflito também é ubíquo. Mas, quando você sai do nível explicativo para o nível prático da vida social, é necessário fazer ajustes, se você é um proponente de políticas públicas. Os recursos, públicos ou não, são sempre limitados, portanto, criar mecanismos diferenciais de acessos, é priorizar aqueles que mais precisam. Uma forma de diminuir conflitos, pois ele é uma etapa dos processos sociais e não a única etapa.
Ignorar que os indivíduos competem quando têm semelhanças (pois se são muito diferentes não competem) e buscam o mesmo recurso é transformar em conflito algo que não necessariamente precisa desembocar em conflito. A ideia de que a igualdade tem que ser a regra e, portanto, o instrumento de desvio da competição não é apenas irrealista, é propulsora de conflitos improdutivos que empobrecem a vida social.
André Luís Ribeiro-Lacerda – Sociobiologista e psicólogo cognitivo, ensina sociologia na UFMT, campus Cuiabá-MT.




