Moradores de rua de Cuiabá ganham dia de Natal especial

Mais de 100 moradores de rua da Capital puderam sentir na manhã do dia 25 de dezembro o real símbolo do Natal: o amor incondicional ao próximo

(Foto: Suellen Pessetto/ O Livre)

A simbólica noite de Natal é feita de confraternização. Familiares se reúnem em torno da mesa para apreciar a ceia farta. Peru, frutas frescas e um bom vinho são fundamentais para que tudo saia perfeito. Para encerrar a celebração, a troca de presentes não pode faltar.

Na Associação Espírita Wantuil de Freitas, no Bairro 1º de Março, em Cuiabá, a manhã do dia 25 de dezembro se inicia de um jeito diferente. A associação já existe há 23 anos e há dez presenteia os esquecidos pela sociedade de forma única. Ganham um pouco de dignidade, serviços básicos, alimentação e amor.

Já na madrugada, moradores de rua aguardam pela chegada dos voluntários, feito crianças a espera dos presentes deixados pelo Papai Noel. Ao todo, 100 voluntários se dedicam ao trabalho delicado e que exige poder de persuasão.

Os grupos se dividem em cozinheiros, manicures, barbeiros e os anjos de resgate. Duas vans saem às ruas da Capital para resgatar aqueles que foram abandonados pelas famílias, ou simplesmente preferiram desistir do convívio em sociedade. Idosos, jovens e mulheres, a maioria com dependência química, problemas psiquiátricos e vícios como o álcool, são convidados a terem um dia digno e feliz.

Alguns já estão na rua há muito anos e de longe já reconhecem a equipe, que sempre chega com sorriso no rosto e não se acanha em abraçar os andarilhos. Outros, mais desconfiados, não aceitam a aproximação e acham o convite suspeito. Os mais antigos ajudam a convencer os companheiros desconfiados de que o dia valerá a pena.

E assim as vans seguem, resgatando a confiança de quem já não acredita no amor ao próximo e na caridade.

(Foto: Suellen Pessetto/ O Livre)

Os primeiros momentos

Ao chegarem na Associação, os resgatados são recebidos com abraços e música ao vivo. Os sorrisos e o clima de alegria aos poucos vão quebrando o gelo dos que ainda não entendiam muito bem o motivo da ajuda gratuita.

Os convidados seguem para o banho, ganham roupas e calçados limpos. Ao saírem do vestiário, um farto café da manhã os espera. Sanduíches, bolos, iogurtes, frutas e tortas enchem os olhos e matam a fome dos que estavam há dias sem uma refeição.

Já alimentados e mais calmos, chega o momento mais divertido para eles: o do corte de cabelo, barba e higienização dos pés e mãos. Como flores desabrochando, a vaidade no rosto de homens e mulheres que já não se reconheciam diante do espelho vai tomando forma.

Semblantes sérios dão espaço a sorrisos largos. Falar dos vícios, medos e da saudade de casa já não parece tão ruim. Como o caso do senhor Edinildo Xavier, de 54 anos, conhecido como “Iaia” e que há 30 anos está nas ruas. “Eu venho todos os anos e saio daqui todo cheiroso, vou até aproveitar que estou de barba feita e vou visitar as minhas filhas”, contou, sorrindo.

Reflexão e fé

A manhã segue animada. Entre histórias de vida contadas e as novas amizades que nascem na espaçosa varanda de convivência do Wantuil, todos são encaminhados para o salão principal, onde se inicia a palestra. O som calmo e as palavras ditas pelo médico Márcio Monteiro, palestrante e um dos coordenadores da Associação, convidam os presentes à reflexão. Fé, vícios e amor ao próximo são abordados de forma clara e objetiva.

“Todos nós temos vícios, seja do álcool, de remédios controlados ou compulsões alimentares. É preciso reconhecer tais vícios e ter força de vontade para que haja a real cura”, afirmou durante a palestra.

Dr. Márcio disse que é preciso ter uma linguagem de igual para igual com os moradores de rua. “Preciso falar a língua deles. Para que não se vitimizem e nem tão pouco se sintam o lixo da sociedade. Isso provoca neles o questionamento e aceitação de que somos todos iguais perante Deus”.

(Foto: Suellen Pessetto/ O Livre)

Após a palestra, todos seguem para a câmara de passe. Um local onde médiuns fazem uma corrente de boas vibrações enquanto a prece é feita. Os “pacientes” – como os moradores de rua são chamados – meditam e parecem entender o que se passa, tamanha é a vibração do local. Tudo dura menos de cinco minutos, mas com intensidade suficiente para ver lágrimas nos rostos de alguns deles.

“É a primeira vez que venho. Meu companheiro de rua me convenceu de que seria bom. Mas confesso que fiquei com medo de ser levado a força para uma clínica de reabilitação. Agora estou limpo, alimentado e, mesmo que seja só por hoje, volto para as ruas mais feliz e digno. Meus vícios são mais fortes e não consigo deixar essa vida, mas hoje me senti amado e menos culpado”, desabafou um deles, que preferiu não revelar o nome.

Tratamentos

A Associação conta hoje com estudos mediúnicos, tratamento para depressivos e doenças da alma, pronto atendimento médico com encaminhamento para hospitais da Capital, palestras abertas ao público, refeições em dias específicos para moradores da comunidade, escola infanto-juvenil e oficinas de artesanato. E, para 2019, esperam a conclusão da construção do estádio com rádio web e da área de reabilitação para dependentes químicos, homens e mulheres. Novas oficinas como a têxtil e distribuição de marmitas também estão no ousado projeto.

Finalizando a singular manhã de Natal, os 116 moradores de rua e de albergues puderam escolher roupas e sapatos doados por frequentadores do lar espirita e receber kits de higiene com roupa íntima, escova de dente, creme de barbear, xampu e condicionador. No refeitório, se deliciaram com escaldado e, de sobremesa, panetones e frutas.

Outros lares se uniram ao Wantuil na ação natalina, como as obras sociais Nimpho Corrêa, Anália França e Filomeno de Miranda. “A união é que nos fortalece. Fora da caridade não há salvação. E de mãos dadas nossa ajuda chega a lugares e corações inimagináveis”, disse o vice presidente da associação Espirita Wantuil de Freitas, Roberto Fernandes.

No retorno à sua rotina nas ruas, era possível ver na expressão dos andarilhos gratidão pelo amor recebido dos voluntários. Nos olhos deles, a imagem de que é possível mudar e se reinserir na sociedade e a crença de que não estão fadados ao fracasso e à solidão.

Mais informações sobre os trabalhos do Wantuil de Freitas pela página no Facebook. Doações podem ser feitas pelo telefone: (65) 3649-5851.

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