Mi Esfuerzo: uma crônica nova-iorquina

Você permitiria o quebra-quebra em nome de uma solidariedade artificial em torno de um ato de injustiça?

(Foto: Braulia Ribeiro)

Há algumas semanas, no auge dos protestos do BLM  (Black Lives Matter), aconteceu no bairro de Nova York  onde resido temporariamente um episódio que gerou indignação em alguns e boas risadas em pessoas como eu, que ainda acalenta a expectativa de que o “espírito americano” possa ser mais forte do que a  falta de bom senso.

O quebra-quebra corria solto na cidade com a conivência do prefeito “psolista” Bill de Blasio. Uso a palavra “psolista” aqui metaforicamente, com o PSOL simbolizando tudo o que há de pior no esquerdismo e que é abraçado indiscriminadamente por políticos pusilânimes como De Blasio – apesar dos desastres que essas ideias comprovadamente geram na administração pública.

Os líderes dos provocadores de tumulto se comunicavam com as pessoas via Twitter e Instagram para avisar qual parte da cidade seria o próximo alvo. Meus filhos jovens recebiam notificações repassadas pelos amigos woke[1] (a rede de covardes conta principalmente com a adesão inocente de jovens e adolescentes).

A população do bairro de Manhattan, “Little Dominica”, já esperava que o “protesto” chegasse. E se preparou. Na noite marcada para a visita da turba, os dominicanos se postaram na frente de suas lojas e restaurantes armados até os dentes. Com medo de retaliação, o grupo de arruaceiros fugiu pianinho da avenida Dyckman e não voltou mais.

Descendentes de escravos

No dia seguinte, o Twitter e o Instagram de meus filhos estavam cheio de insultos aos dominicanos. Eles se tornaram racistas imbuídos de “privilégio branco”, os novos intolerantes da vez, insensíveis às injustiças cometidas contra a população “de cor”.

Só que os dominicanos são, em sua maioria, negros e mulatos. Ainda não encontrei nenhum dominicano branco. Nas ilhas do Caribe, a população é toda formada por descendentes dos escravos levados ali para as plantações de cana de açúcar, e por mestiços, mais comuns nas ex-colônias espanholas do que nas inglesas e francesas.

Os negros dominicanos não vieram para a América para reclamar e exigir tratamento VIP. Vieram em busca de mais trabalho e oportunidade – e não são estranhos ao sofrimento. Não querem o espaço dos brancos, querem encontrar o seu próprio; e a América, generosa, responde bem a isso.

A maioria do comércio da avenida Dyckman e derredores lembra a estética e a cultura do comércio de sua terra natal. O morador local pode ir na bodega da esquina e fazer uma “conta” em seu nome, no caderninho do seu José, para pagar no final de semana. Os cheiros, as músicas e até a sujeira no chão lembra um país latino. Deve ser difícil para um branco americano não se sentir um estrangeiro passeando por aqui.

Proteção a quem trabalha

O que a Little Dominica tem de diferente da verdadeira República Dominicana é a oportunidade real de fazer dinheiro – e a lei e a ordem que, apesar de Bill de Blasio, ainda prevalecem. Enfim, o Tio Sam permite ao imigrante que trabalha duro uma vida economicamente estável e digna.

Os latinos sabem disto: negros, brancos, mestiços, não importa.  Quem trabalha tem e o que se tem é protegido pela lei.  Os pequenos restaurantes, lojas de roupas e sapatos, até as barraquinhas de empanadas fritas parqueadas ilegalmente na calçada, alardeiam as benesses da América ostentando nomes que contam a história de luta de seus donos: “Mi pequeña conquista”, “El sueño de mis padres”, “Mi Esfuerzo”.

Agora me diga, leitor: se você fosse um dominicano desses que lutaram vinte anos para se estabelecer, conquistando o pequeno comércio através do qual pagam o curso universitário de seu filho, permitiria o quebra-quebra em nome de uma solidariedade artificial em torno de um ato de injustiça?

É fato que existe uma empatia pelos afro-americanos e até uma adoção estética da cultura do hip-hop, especialmente pelos dominicanos mais jovens. É claro que a polícia também algumas vezes age com brutalidade por aqui também. Mas os valores fundamentais da primeira e da segunda gerações de imigrantes são bem diferentes dos supostos valores woke, que o BLM quer impor sobre a população negra. Chilique político não é parte do menu nas ruas da Little Dominica.

“Novos brancos”

Devidamente pesados na balança, os problemas da América são pequenos em relação a suas vantagens. Um exagero policial aqui e ali ainda é melhor do que viver à mercê de gangues e milícias.

A “insegurança” policial de Nova York não se compara à insegurança verdadeira das ruas dos países latinos. Enfrentar um eventual muxoxo vindo de um branco quando se comete um erro de inglês não é nada se comparado ao sofrimento de viver em seu próprio país dominado por uma oligarquia política corrupta, que com a perfídia de seus conluios destrói toda a possibilidade de ascensão social.

Pois é. Por isto os dominicanos não hesitaram em levar seus revólveres e metralhadoras para frente de suas bodegas, restaurantes e lojinhas. Quem não tinha arma pegou emprestado.  Dizem as más línguas que até os traficantes locais estavam presentes para defender, junto com a gente de bem, a integridade de seu bairro. Formaram na Dyckman um verdadeiro “paredón” em defesa dos valores americanos, esforço pessoal, conquista honesta e respeito à propriedade privada.

No dia seguinte, a indignação woke contra eles foi geral. Os “novos brancos” agora são os negros latinos. Se você procurar esta notícia na mídia, não vai encontrar. Mas eu posso te contar à boca pequena que existem hoje, na América, dois tipos de negros. Os que são dominados pelo discurso extremo, imposto pelo branquismo. Este branquismo cheio de culpa precisa dos sentimentos e da narrativa do coitadismo como ingrediente político para a eleição dos brancos-messiânicos da esquerda, como Biden.

E há o negro que ainda preserva a sua dignidade, que quer vencer à custa de seu próprio esforço e que sabe que a América, apesar de todos os seus males, ainda é o Shangri-lá se comparada aos países do hemisfério Sul de onde viemos nós e nossos antepassados.

Eles sabem, como eu, que não há forma de racismo mais ofensivo do que a condescendência, veneno que destrói a necessidade do esforço pessoal e com ele a nossa dignidade. Nova York, berço maior do wokismo, ainda tem seus cidadãos dignos.

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[1] Woke, em português: desperto é o termo usado na mídia americana para designar o espírito politico e moralmente “correto”.

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