|terça, 22 maio 2018

    Meus 41 anos em Mato Grosso

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    Numa tarde morna do dia 25 de agosto de 1976, cheguei a Cuiabá, montado no meu velho Corcel 1969, azul claro. Vim de vez pra trabalhar. Morava em Brasília desde a adolescência e atuava como jornalista no Jornal de Brasília.

    Por conta da divisão do estado que caminhava a passos tortos, o governador da época, José Garcia Neto, quis reforçar o quadro de jornalistas no governo. Corria solta na mídia estadual e nacional uma queda de braço entre as lideranças políticas das regiões Norte e Sul. Em Cuiabá, a resistência contra a divisão. Em Campo Grande, uma poderosa conspiração a favor de separar as duas regiões.

    Na realidade, a disputa vinha desde o fim da guerra com o Paraguai. Oficiais gaúchos derrotados, fugidos da Revolução Farroupilha (1835-1845), localizaram-se na fronteira de Mato Grosso com o Paraguai. Uma região mal demarcada e muito vazia. Estabeleceram-se por ali e começaram a questionar o tamanho do Matto Grosso da época, que incluía o atual estadão de Rondônia. E era governado por Cuiabá. Um imenso isolamento do Sul.

    Em Cuiabá, a resistência
    contra a divisão. Em Campo Grande, uma poderosa conspiração a favor de separar as duas regiões

    Em 1932, a Revolução Constitucionalista de São Paulo atraiu o Sul de Mato Grosso para a causa paulista, o que o fez descolar bastante do Norte. Chegou até a emancipar-se com o nome de Estado de Maracaju.

    Passada a Revolução de 1932, as relações com o Norte pioraram muito até a década de 70, quando o governo federal optou por dividir o estado.

    Nessa onda de crise política, apareci em Cuiabá, vindo de Brasília. Confesso que, na minha juventude, embaracei-me profundamente diante daquela tarefa imensa de ajudar o governo na crise com a imprensa. Mas, como era morrer ou morrer, fui à luta.

    Viajei em comitivas do governo para quase todos os 78 municípios das duas regiões. De Aripuanã no extremo noroeste, a São Felix do Xingu no outro extremo, ou Paranaíba no Sudeste e Bela Vista na fronteira paraguaia. Corumbá no coração do Pantanal com sua beleza colonial fantástica. Línguas e linguajares diferentes num mesmo estado. Animosidades políticas em todas as regiões. Mato Grosso era um caldeirão fervendo.

    Ansioso e efervescente!

    Minha família ficou morando em Brasília. Não me senti seguro de trazer Carmem, André, Fábio e Marcelo naqueles primeiros momentos. Ia voltava a cada 15 dias no Corcel. Saía de Cuiabá na sexta-feira depois do expediente no Palácio Paiaguás, viajava a noite toda e chegava lá por vota das 7 horas da manhã. No domingo, às 18 horas, voltava e viajava a noite toda. Chegava direto no palácio pra trabalhar. Foram seis meses assim.

    Era outro universo, se comparado aos dias de hoje. A rodovia ligando Cuiabá-Rondonópolis a Goiânia era um vazio só. Meia dúzia de pequenos caminhões de 8 toneladas, os Mercedes 1113 ou 1313, de um eixo atrás. Raro um Scania de 10 toneladas. Nada mais, fora as caminhonetes F1000 e as C10. Muitos fuscas trafegando à velocidade de tartaruga. Um ou outro caminhão Ford F600 e os chevrolets.

    Linguajares diferentes no mesmo estado. Animosidades políticas em todas as regiões. Mato Grosso era um
    caldeirão fervendo

    O processo político da divisão de Mato Grosso é uma novela pouco resgatada pela História. Penso até que, quando ela for devidamente resgatada, maior parte terá se perdido junto da memória dos protagonistas da época, que terão morrido todos. O governador Garcia Neto morreu em 2009. José Fragelli, seu antecessor e apóstolo sulista da divisão, morreu em 2010.

    Vivenciei como jornalista os anos da divisão, durante e depois. Foram anos tormentosos. Dúvidas. Incertezas. Dívidas. Economia frágil. Mas já se vão 38 anos. E eu completando 41 anos no estado. Para escrever este artigo, filtrei como abordar o assunto. Dariam livros e livros todas as memórias desses 41 anos.

    Optei por uma breve crônica. Um livro, um dia, quem sabe? Até lá, fico nas comemorações de viver em Mato Grosso quatro décadas e um ano. Ter vivido essa história, penso que valeu a minha vida.

     

    Assinatura Coluna Onofre

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