Menos aprendizagem e mais desistência: qual será o impacto da pandemia no ensino público?

Avaliação mostra que alunos não estão aprendendo o necessário e que a previsão é que a evasão escolar aumente na volta às aulas

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Que a pandemia do novo coronavírus vai provocar um forte impacto no ensino e aprendizagem de crianças e adolescentes em todo o país, todos já imaginavam. Especialistas ouvidos pelo LIVRE apontam, no entanto, que além da queda no nível de aprendizado, é possível que haja uma evasão escolar maior do que a média.

A avaliação de entidades estaduais de ensino é que os alunos já estão aprendendo menos do que o necessário para passar adiante na graduação do ensino fundamental. Isso devido ao modelo improvisado às pressas para não atrasar por muito tempo calendário letivo de 2020.

“Os alunos precisam desenvolver certas habilidades para pode passar adiante na aplicação de conteúdo. São pré-requisitos. Por exemplo, em Matemática se aprende o perímetro das figuras geométricas, mas antes é preciso apreender a identificar a figuras geométricas”, explica o presidente da União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação em Mato Grosso (Undime-MT), Eduardo Ferreira.

Segundo ele, o desperdício na aprendizagem das habilidades dos estudantes, em vários níveis do ensino fundamental, foi percebido há algum tempo durante a pandemia e vários fatores têm contribuído a perda.

Desde a falta de atenção do aluno num ambiente inapropriado para a concentração nas tarefas, às dificuldades dos pais de orientar nas atividades e até a inabilidade dos professores de lidar com o manuseio de tecnologias.

A mesma a avaliação é feita pelo Sindicato dos Trabalhadores da Ensino Público em Mato Grosso (Sintep-MT). As entidades dizem que a pandemia expôs a defasagem do Brasil no domínio de tecnologias para a educação.

“Algumas pessoas estão dizendo que o ano está perdido, porque não estão conseguindo lidar com a questão das tecnologias de ensino e isso tem contribuído para a queda da aprendizagem dos estudantes. Isso mostra que os professores estão precisando lidar com  questões não estavam imaginando, porque as aulas presenciais estavam funcionando”, disse o membro do sindicato, professor Henrique Nascimento.

Interrupção do ensino

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A surpresa da pandemia e o despreparo do sistema de ensino devem interromper a melhora lenta que Mato Grosso vinha apresentando nos últimos anos na aprendizagem. E o resultado já não era dos melhores.

Conforme dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), somente em 2015 os alunos do quinto ano apresentaram equilíbrio na aprendizagem de algumas matérias. Em Língua Portuguesa, 50% dominavam as atividades, número que subiu para 54%.

em Matemática, a situação está pior. Em 2018, último ano com pesquisa do Ideb, apenas 40% dos estudantes do quinto ano dominavam as atividades; quatro anos antes, o volume era de fracos 32%.

“É importante ressaltar que o problema no desenvolvimento de habilidades não se reduz somente a Português e Matemática. Ele aparece também em Geografia e outras disciplinas e todas com pré-requisito de aprendizagem”, disse o professor Eduardo Ferreira.

Desistência

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Outra previsão preocupante é o aumento da evasão escolar, principalmente dos estudantes que estão na fase final do ensino fundamental. Conforme o professor Henrique Nascimento, a média histórica em Mato Grosso está em 30%.

Seja pelo desinteresse nos estudos ou pela dificuldade em unir jornada de trabalho e aulas, o que ocorre para um bom número dos estudantes da rede pública é abandonar a escola antes de ingressar no ensino médio.

A pandemia vai ser só mais um fator que contribuirá para isso. A evasão em um ano normal, digamos, acelera no segundo semestre, quando os estudantes veem que as notas dos primeiros bimestres são muito baixas e que não vão conseguir recupera no restante do ano”, disse.

Conforme dados do Ideb, quase 15 mil estudantes desistiram do ano escolar em 2018. A imensa maioria (mais de 11 mil estudantes) estava no ensino médio.

Pesquisa Anuário Brasileiro da Educação Básica 2020 mostra que a evasão escolar deve crescer 33% pós-pandemia. Tanto questões econômicas, como a perda de renda, quanto o medo de contágio dos filhos devem pesar na decisão.

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