Médico vence a covid e comemora aniversário no dia em que acordou de intubação

Ele ficou 37 dias internado, sendo 10 intubado, e chegou a perder provisoriamente o movimento das pernas, mas se recuperou completamente e hoje comemora a vida

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre)

Quando o oftalmologista Edson Bussiki, hoje com 71 anos, pegou a covid-19 em novembro de 2020, ainda não havia vacina e os hospitais estavam lotados. Foi um momento de terror para toda a família do médico, em especial para a esposa, a esteticista Maria Rosilei do Carmo Lopes Bussiki, 54 anos, que não poupou esforços para salvar a vida do marido.

Os 37 dias de internação de Edson foram de muita luta e oração, com direito a 10 dias de intubação, transferência para São Paulo às pressas, onde ele ficou no Hospital Sírio Libanês, uma infecção, que precisou ser combatida, e a tetraparesia do doente crítico, que o fez ter que ser submetido a fisioterapia para voltar a andar.

O início

A contaminação aconteceu em novembro de 2020. Os sintomas começaram a aparecer por volta do dia 10. Edson contou não ter a menor ideia de onde pode ter se contaminado, visto que tomava todos os cuidados, principalmente no consultório.

Nos primeiros dias, ele começou a sentir mal-estar e febre, sintomas que foram o sinal de alerta para ele parar de atender em seu consultório e se isolar em um quarto de seu apartamento.

Após três dias, ele fez um teste que ficava pronto em duas horas e o PCR, o resultado foi positivo para covid-19. Era sexta-feira, 13 de novembro de 2020.

Ele e a esposa compraram um medidor de saturação e passaram a acompanhar a saturação do oftalmologista, que no momento ainda estava boa. No sábado de manhã, porém, ela começou a cair e os dois foram para o Hospital Santa Rosa, em Cuiabá.

Nesse momento, o médico que o atendeu fez uma tomografia, mudou a medicação que Edson estava tomando e disse que ele podia continuar em casa, pois estava tudo bem. Na segunda-feira (16/11/2020), porém, ele começou a ter muita febre e retornou para o hospital. A partir daí, Edson foi internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para receber acompanhamento.

“Internado eu passei a tomar medicações parenterais, porém, meu quadro continuou piorando. E a partir daí eu não me lembro muito bem. Eles me sedavam, então eu dormia muito”, contou Edson.

Não demorou para que Rosilei também fosse diagnosticada com a covid-19 e precisasse começar o tratamento. Devido a também estar contaminada, ela pôde acompanhar Edson no hospital por todo o tratamento.

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre)

Transferência

Como ele só piorava, ela resolveu seguir algo que o casal já havia conversado: se ele não melhorasse, era para ela tentar transferi-lo para um hospital de São Paulo. Durante dias, porém, todos os hospitais estavam lotados.

“Eu acordava algumas vezes, via as pessoas. Vi o meu filho, que veio de São Paulo para me ver. Ai eu percebi que meu quadro era grave. Se meu filho saiu de São Paulo para me ver aqui, meu quadro era grave”, lembrou Edson.

No sábado (21), Rosilei foi informada que Edson já estava usando 100% de oxigênio para respirar e, por isso, precisaria ser intubado.

“Ai intubaram ele no Santa Rosa e ele nada bem. Isso foi umas 9 horas da manhã. Quando foi 11 horas, o doutor Roberto Kalil, do Sírio Libanês, ligou dizendo que tinha conseguido a vaga dele e nós fomos atrás de conseguir o táxi aéreo para levá-lo”, contou Rosilei.

Às pressas, Rosilei e o sobrinho de Edson, o médico Eduardo Bussiki Cuiabano, que também o estava acompanhando, conseguiram um táxi aéreo para as 15 horas. Quando a ambulância chegou para levá-lo para o aeroporto, porém, quando mexiam no corpo de Edson, a saturação dele caía para 49.

“Os médicos daqui falavam assim: ‘ele não vai conseguir, quando o avião decolar ele morre. Com essa saturação ele não aguenta chegar em São Paulo’. Mas o médico também já tinha me falado que do jeito que ele estava piorando e já usando 100% de oxigênio, eles não tinham mais o que fazer com ele aqui em Cuiabá, e que ele não passava de dois dias do jeito que ele estava. Ai eu pensei: ‘Bom, se ele não passa de dois dias, vamos tentar, se ele morrer, vai morrer tentando'”, lembrou Maria Rosilei.

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre)

Ela só conseguiu que o marido fosse levado pela ambulância com muita insistência e assinando um termo autorizando e assumindo todas as responsabilidades, junto com o sobrinho de Edson, caso algo acontecesse com ele.

Quando a ambulância estava chegando no aeroporto, a equipe foi informada que o Marechal Rondon estava congestionado e, por isso, a decolagem teria que ser realizada na pista da Bom Futuro.

No caminho, Edson só piorava. Ao chegar na Bom Futuro, os paramédicos não conseguiam fazer a saturação dele estabilizar para poder transferi-lo para o táxi aéreo.

Às 17h45 o piloto do táxi aéreo informou à Rosilei que só poderia decolar até às 18 horas. “Ai eu bati na ambulância e falei: ‘Nós temos que colocar ele no avião e temos que ir embora’. Eles disseram: ‘Mas ele não está bem’. ‘Mas temos que ir, se ele não sair daqui hoje, não vai sair mais’. Colocaram no avião e quando o avião decolou ele melhorou, não teve intercorrência nenhuma de Cuiabá até São Paulo, foi perfeito”, contou Rosilei.

São Paulo

Ao descer em São Paulo e ser colocado na ambulância, a saturação de Edson voltou a cair. Rosilei narrou que o percurso para o Sírio Libanês foi desesperador, visto que os médicos diziam ao motorista da ambulância que se não corresse, Edson não chegaria com vida ao hospital.

“Eu nunca passei tanto medo na minha vida igual naquele dia. Eu achava que íamos morrer nós de acidente e ele de covid com acidente junto. Foi uma sensação horrível”.

Já no hospital, ela contou que antes de receberem Edson, mesmo com a situação de emergência dele, primeiro precisou pagar pela internação.

“O Sírio é um excelente hospital, mas tudo gira em torno de dinheiro lá e é dinheiro vivo, não é cheque calção. Antes de tirarem ele da ambulância eu já tive que ir para a parte financeira, e o sobrinho ficou com ele, senão ele não seria atendido. Ai fiz tudo isso e ele foi levado para a UTI”.

Menos de 24 horas depois, no dia 22 de novembro, às 15 horas, quando Rosilei foi chamada para a visita na UTI, Edson, que havia sido levado usando 100% de oxigênio, já estava usando apenas 40% de oxigênio.

No terceiro dia que o oftalmologista estava na UTI, ele sofreu uma intercorrência, uma infecção causada pelo cateter. No entanto, o primeiro medicamento que os médicos tentaram usar para combater a infecção deu certo e ele rapidamente ficou bem.

Edson lembra que durante a intubação teve muitos pesadelos.

“Eu não sei se esses pesadelos foram durante a intubação, ou se foi no momento que eu estava acordando, voltando da sedação, na UTI. Eram pesadelos feios, coisas relacionadas com vida e morte”, contou.

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre)

Extubação

Segundo Rosilei, se no 10º dia de intubação Edson não fosse extubado, os médicos precisariam fazer uma traqueostomia nele. Por isso, no dia 1º de dezembro, às 15 horas, quando ela chegou no hospital, ele havia sido extubado.

Edson ainda precisou ficar mais uma semana na UTI, dias muito difíceis, pois ainda sofria efeitos dos remédios usados na intubação e, por isso, tinha delírios.

Após uma semana, ele foi para a semi UTI, onde ficou apenas acompanhado de Rosilei e, aos poucos, foi melhorando. Mas sempre chamando muito pela esposa.

Ele contou que se sentiu muito surpreso ao acordar, pois dormiu em um hospital e acordou em outro. Mas quando ficou com a consciência recuperada, a esposa conversou com ele e contou tudo que havia acontecido.

“A partir daí eu passei a fazer fisioterapia e continuei o tratamento hospitalar. As medicações continuaram, as visitas médicas, a presença do pessoal do hospital era constante, tanto que até incomodava de tanto cuidado. Eu fui recuperando. Eu tive a tetraparesia do doente crítico, que ocorre nas pessoas que ficam muito tempo na UTI. E fui recuperando aos poucos com a fisioterapia”, lembrou Edson.

Foram cerca de 40 dias no Sírio Libanês, entre UTI, semi UTI, quarto e retornos após alta. A alta hospitalar aconteceu no dia 23 de dezembro, mas eles só foram liberados para retornar para Cuiabá no dia 28 de dezembro de 2020.

Edson e a esposa Rosilei (Foto: arquivo pessoal)

Recuperação e lição

Um ano após acordar da intubação, Edson já não tem nenhuma sequela da covid. Ao acordar ele teve a tetraparesia do doente crítico, porém, com fisioterapia três vezes na semana, ele voltou a andar e hoje está até melhor do que antes da covid-19.

Para comemorar a vitória contra a covid, este ano ele resolveu fazer seu aniversário em dia diferente: no dia em que acordou da intubação.

“Como se eu tivesse revivido. Eu estava comemorando um ano de vida. Porque eu cheguei perto da morte e renasci, então merece uma comemoração”, disse Edson.

Ele conta que a doença mostrou quem eram seus verdadeiros amigos e trouxe a família para mais perto.

“Eu aprendi que os amigos realmente existem, os amigos estão com você, porque muitos amigos me ajudaram, não só materialmente, como em orações, em torcida. E também a família mais perto. A minha esposa muito dedicada a mim. Nesse ponto eu me modifiquei muito. Então eu sinto a família mais próxima”, afirmou o oftalmologista.

A dedicação de Rosilei, inclusive, chegou a ser desabonada por várias pessoas, mas ela conta que não deixou nenhum momento isso atingi-la.

“Quando ele estava no hospital aqui, com essa questão dos médicos falarem que ele não ia suportar o voo, eu cheguei a ouvir de várias pessoas – não foi só de uma: ‘Para com isso, você vai gastar dinheiro atoa, não vai resolver’. Mas acho que a fé que eu tinha e o amor por ele, estar do lado dele, foi muito importante pra ele. Até o próprio doutor Kalil, lá de São Paulo, me liberou para estar com ele todos os dias. E quando eu não estava e ele começou a sair da sedação, ele chamava meu nome o tempo inteiro. Foram momentos muito difíceis, mas que nos fizeram ver a vida de uma forma diferente. Ele é tudo na minha vida, eu não saberia viver sem ele”.

(Foto: arquivo pessoal)

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