|sábado, 21 abril 2018

Mato Grosso antecipou o fim da festa dos poderosos patifes

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Ednilson Aguiar/O Livre

Silval Barbosa, Operação Sodoma

Silval Barbosa em audiência com a juíza Selma Arruda, também conhecida como “Moro de saias”, em referência ao juiz Sérgio Moro, da Lava-Jato 

No fim da primeira década do século 21, a contemplação da face horrível de Mato Grosso reforçava a suspeita de que o novo oeste brasileiro fora condenado a eternizar o primitivismo jurássico do velho oeste americano. Em dezembro de 2010, por exemplo, notícias sobre ocorrências no berço do Marechal Rondon eram protagonizadas por gente capaz de roubar fralda de bebê no berçário. Era compreensível que leitores de grandes jornais associassem essa porção do território nacional não à inteligência de Roberto Campos, mas à ferocidade explícita de João Arcanjo Ribeiro, à dissimulada vigarice de José Geraldo Riva e à cupidez sinuosa de Silval Barbosa.

O Comendador Arcanjo estava preso desde a ofensiva inaugural da Operação Arca de Noé, mas parecia prematuro considerar sepultada a organização criminosa que por tanto tempo controlara Mato Grosso. Riva, deputado estadual desde 1991, fazia e desfazia no comando da Assembleia Legislativa. E as urnas haviam acabado de conferir a Silval o direito de governar o Estado por mais quatro anos.

Neste fim de 2017, o lado escuro do rosto mato-grossense é apenas uma lembrança dolorosa — e uma prova contundente de que, por mais que a noite dure, a chegada da manhã é inevitável. Arcanjo perdeu a liberdade, o poder, a arrogância e a maior parte da fortuna juntada pelo chefe supremo da maior, mais gananciosa e mais próspera quadrilha da história de Mato Grosso.

Condenado a 82 anos de prisão, dos quais já cumpriu 14, esse goiano de Jeroaquara vai passar o resto dos seus dias contando a incrédulos vizinhos de gaiola que, durante muito tempo, foi ele quem decidiu se, quando e como um desafeto iria morrer. Transferido há poucos meses de um presídio no Rio Grande do Norte para o sistema penitenciário estadual, foi reduzido a um número que identifica integrantes da população carcerária.

Reeleito deputado estadual em 2010 com mais de 90 mil votos, José Riva começou a descer a ladeira no último dia do mandato, quando presidiu na Assembleia Legislativa a sessão de posse do sucessor de Silval Barbosa. O novo governador, Pedro Taques, era a cara de um novo Mato Grosso, sonhando com a prevalência da Justiça e exausto da bandidagem hegemônica. Ainda a serviço do Ministério Público, ele se destacara na linha de frente da Arca de Noé.

A imagem de xerife incorruptível e sem medo garantiu a Pedro Taques uma vaga no Senado (conquistada, num paradoxo aparente, na mesma eleição que prolongou a permanência de Silval na chefia do Executivo). Em 2014, ele interrompeu o mandato em sua metade para disputar a sucessão estadual. O triunfo do candidato do PDT, e sobretudo a votação do vitorioso, avisou que as as mudanças no clima político-eleitoral de Mato Grosso haviam tornado inviável a sobrevivência simultânea de duas tribos antagônicas: a dos homens da lei e a dos fora-da-lei.

A primeira prevaleceu, atesta a paisagem consolidada nos últimos dias da primavera. A insistência na tática das revelações em conta-gotas confirma que Riva gostaria de adiar a opção exigida pela encruzilhada. Mas o tinhoso capixaba de Guaçuí decerto já compreendeu que, se não fizer um acordo com a Justiça e contar tudo o que sabe, terá o mesmo destino imposto a Silval Barbosa pela juíza Selma Arruda na histórica sentença de 400 páginas divulgada com exclusividade por este site.

Como deixou claro a reportagem de O LIVRE, o ex-governador descobriu tarde demais que a magistrada não se deixara enganar pelo truque da meia delação. Pelos termos do acordo, Silval teria a pena reduzida em dois terços caso confessasse em detalhes os crimes que cometeu e identificasse todos os comparsas. Em vez disso, procurou atribuir-se o papel de mero coadjuvante nos episódios mais cabeludos. Acabou condenado a 13 anos e sete meses de reclusão por organização criminosa, concussão e lavagem de dinheiro.

A delação que o chefe da quadrilha prometeu foi considerada monstruosa pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal. As revelações que efetivamente entregou foram consideradas “tímidas” por Selma Arruda. “Conferir a este colaborador a mesma redução de pena que se há de conferir a outro que foi totalmente sincero, seria não apenas injusto em relação àquele, mas importaria em permitir a banalização os acordos de colaboração premiada”, explicou um trecho da sentença.

“Diante destas constatações, deixo de diminuir a pena em 2/3, aplicando a fração de 1/3 em seu benefício”, concluiu a juíza. Como tantos bandidos que o precederam em depoimentos no mesmo tribunal, e que também se achavam muito ladinos, Silval aprendeu que tentar tapear a doutora Selma é uma péssima ideia. Conforme prevê o acordo, a pena será cumprida em regime “diferenciado”: em vez de hospedar-se numa cela, ele estará alojado na própria casa, em regime de prisão domiciliar. Mas a vida que levará está longe de ser confortável.

Ainda assim, se lhe resta algum juízo, obedecerá sem chiadeiras nem espertezas às restrições prescritas na sentença. Um delas: o condenado “não poderá se ausentar de sua residência, exceto mediante autorização do Juízo, após ouvido o Ministério Público. Outra: o ex-governador “ficará submetido a vigilância eletrônica pessoal em tempo integral, mediante o uso de tornozeleira”.

Se o acervo de bandalheiras descobertas pela Lava Jato não fosse tão vasto e tão espantoso, seria noticiada em manchetes a cirúrgica remoção da face horrível que envergonhava os mato-grossenses decentes. Fechou-se o cerco à organização criminosa aparentemente invencível liderada por Arcanjo quando o Petrolão ainda estava nos trabalhos de parto. E operações como a Sodoma ocorreram quando a guerra à corrupção institucionalizada era apenas um brilho no olhar de Sérgio Moro.

Sem prazo para terminar na maior parte do Brasil, a festa da bandidagem vai chegando ao fim no Estado que parecia irremediavelmente distante dos tempos modernos. Há sete anos, Mato Grosso era um caminho a evitar. Virou um exemplo a seguir.

 

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