Marcas do Beco do Candeeiro ganham reportagem multimídia

Recém graduada em Jornalismo pela UFMT, Bruna Barbosa contou ao LIVRE seus aprendizados e desafios ao retratar uma realidade que marca o centro de Cuiabá

Vinte anos após ser palco da chacina de um policial contra três adolescentes moradores de rua, o Beco do Candeeiro, que já possui seus tempos áureos de comércio português, ganha uma plataforma online – a reportagem multimídia “Beco do Candeeiro: marcas da violência e do abismo social em Cuiabá” que retrata as memórias e personagens residentes no local.

A importância histórica do local, a invisibilidade de seus moradores e as recentes intervenções na região – como as obras no local e a destruição da “Ilha da Banana” – foram alguns dos motivos que levaram a recém-graduada em Jornalismo na UFMT, Bruna Barbosa, a retratar suas histórias, numa iniciativa independente que se materializou em seu trabalho de conclusão de curso.

O trabalho da jovem é mais um reflexo de suas escolhas pelo jornalismo humano, em retratar “Conhecidos Anônimos”, termo que dá nome ao blog no qual Bruna conta histórias, a partir de entrevistas com pessoas comuns e muitas vezes, invisibilizadas. “Desde a construção do blog eu já queria fazer algo assim”.

Reportagem conta com depoimentos e vídeos de moradores e ex-moradores do beco (Foto: Bruna Barbosa)

Já na abertura da reportagem, ela relembra e atualiza o episódio da chacina, com foco nos moradores do beco, com os quais conviveu por dois meses, semanalmente. “Um crime terrível sem punições até hoje”, ressalta.

Ela traz também informações sobre a Galdino Pimentel, principalmente em relação ao comércio, significativo simbólica e historicamente no local. “Foi uma rua muito movimentada pelo comercio português, sendo por algum tempo a única rua iluminada de Cuiabá, hoje naquela situação”, afirma Bruna.

A repórter contou com entrevistas de estudiosos, participantes de projetos sociais e ex-moradores do local, que contaram histórias sobre a “pasta-base”, droga predominante no convívio da região. Um deles, é o rapper e comunicador Raul Lázaro, que hoje toca projetos culturais de prevenção à dependência química.

O projeto “Psicanálise na Rua”, principal canal entre a estudante com os moradores, também ganha um espaço especial na plataforma que encerra contando sobre seu 1º Colóquio realizado na UFMT – e festa! No dia 10 de dezembro de 2017, data que comemora os Direitos Humanos, o beco foi tomado por funk, rap, grafite e Bruna documentou tudo.

(Foto: Bruna Barbosa)

O olhar

A jovem jornalista conta que seu objetivo sempre foi olhar o beco de forma próxima e despida de rótulos. “Indo lá, sentando na calçada que eles dormem e usam as drogas, realidade de muitos”, explica. O que encontrou foi uma relação ambivalente dos residentes com o local, sobre a qual retrata com a sensibilidade da escrita.

“Aquele é um mundo à parte, ali eles amam, dançam, choram, vivem alegrias e tristezas naquelas calçadas e casarões abandonados”, conta.

Bruna também foi motivada pela ânsia em documentar a realidade sem sensacionalismos e o incomodo com as abordagens preconceituosas que encontra sobre o local. “Se você buscar matérias e reportagens da época da chacina, por exemplo, elas se limitam a tratam os meninos como jovens infratores, sequer mencionam os seus nomes”.

“Quis contar que aqueles meninos tinham nome, sobrenome e famílias. Entrevistei a mãe de um deles, o Edgar Rodrigues de Arruda, conhecido como ‘indinho’. Ela chora a morte do filho até hoje e conta que descobriu o assassinato do filho pelo programa Cadeia Neles. Precisou até se mudar de cidade pelo tamanho do trauma, ela não conseguia olhar aquela estátua sem imaginar o filho na situação”, conta.

Aos 24 anos, Bruna é adepta a história de interesse humano, e busca dar voz a personagens invisibilizados (Foto: Dandara Araújo)

Desafios jornalísticos e formação pessoal

Uma das principais barreiras que Bruna encontrou foi exatamente o que buscou combater. “Eu tinha medo deles, fui ensinada a ver o perigo. Vivo dentro nessa construção social que nos vê como superiores, porque trabalhamos e temos a nossa rotina, rotina que essas pessoas quebram ao ocupar aquele espaço público”, confessa.

A dificuldade de aproximação de suas “fontes” ou, como preferem os literários, “personagens”, foi um dos maiores aprendizados durante o trabalho que lhe deu o diploma. Por respeito, estratégia e certa carga de preconceito, Bruna conta que o processo de aproximação com os moradores do local foi gradual e contou com a presença direta do projeto Psicanálise na Rua.

“São pessoas que estão ali buscando ser enxergadas como seres humanos. No começo eu esperava o pessoal do projeto, mas depois da primeira vez eles já me reconheciam e vinham falar comigo”.

Como a proposta da reportagem era utilizar o máximo dos recursos midiáticos, Bruna precisava não só escrever, mas convencer suas personagens a fazer fotos e gravar vídeos, o que aumentou o grau de dificuldade e sensibilidade de abordagem.

“A gente tem tanto medo deles, quanto eles têm da gente. Me lembro que um dia esperando minha orientadora, eles já tinham me visto e eu visto eles, ficamos nos olhando com desconfiança mútua e depois sentamos e conversando numa boa, era um garoto super educado”.

O garoto da ocasião, Rodrigo, foi ex-jogador profissional de futebol no time várzea-grandense, Operário, chegando ao beco através das drogas que começou a utilizam em suas vitórias.

(Foto: Junior Silgueiro)

Achados

“A vida de quem está na rua é muito difícil e a gente nem imagina as questões mais básicas que faltam àquelas pessoas. Uma das coisas que uma das professoras do projeto fez, foi me fazer imaginar como seria para nós, mulheres, menstruadas, estar na rua, no calor de Cuiabá”, conta Bruna.

Desde modo, a experiência possui importância não só nos âmbitos profissionais ou acadêmicos. Nestes, a escolha por um projeto experimental, ao invés de uma monografia, como trabalho de conclusão de curso, também expressa a busca pela responsabilidade.

“Nos meus estudos teóricos, a jornalismo sempre aparecia como uma função social, o jornalismo é a rua. O jornalista tem que estar na rua e com as inovações tecnológicas, muitos vem perdendo aquilo que é seu princípio”, afirma. A tecnologia, ela deixou para a linguagem da reportagem, que conta com fotos, vídeos e textos: confira AQUI.

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