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Foto área de aldeia produzida durante as viagens feitas pela Comissão de Inquérito do Ministério do Interior que resultou na elaboração do Relatório Figueiredo
A chacina que dizimou pelo menos sete índios Cinta Larga em 1963 ocorreu a mando do irmão do ex-prefeito de Cuiabá, Hélio Palma de Arruda. A acusação está presente no Relatório Figueiredo, um documento que apontou crimes cometidos contra indígenas durante a ditadura militar. Segundo o relatório, a morte dos Cinta Larga foi encomendada pelos seringalistas Sebastião Palma de Arruda e Antônio Mascarenhas Junqueira.
Os dois eram sócios-proprietários da empresa Arruda Junqueira & CIA, que atuava em Aripuanã, no extremo norte de Mato Grosso. Um inquérito elaborado pela Polícia Federal dois anos e meio após a chacina indiciou como executores os suspeitos Toschio Lombardi Xatô, Ataíde Pereira dos Santos, Francisco Luiz de Souza, Manoel Virgínio de Almeida, Ramiro Costa e outros dois homens, identificados apenas como “Zuíno” e “Silvestre”.
O grupo percorreu mais de 2.000 Km e demorou 68 dias para chegar à terra dos Cinta Larga. A expedição punitiva foi liderada pelo pistoleiro Francisco Luiz de Souza, conhecido como “Chico Luiz”, e pelo piloto Toschio Xatô. Este último também é acusado de lançar dinamites na aldeia indígena. Por terra, o crime foi comando por Chico Luiz, que metralhou os índios logo pela manhã, quando eles começavam o trabalho diário.
Os relatos das atrocidades cometidas só foram colhidos porque o pistoleiro Ataíde Pereira dos Santos resolveu confessar sua participação. Ele tomou a decisão depois de não receber 50 mil cruzeiros prometidos por Junqueira e Arruda para executar o serviço. O primeiro a ouvir as confissões do assassino foi o padre jesuíta Edgar Schimdt, que gravou toda conversa.
A confissão foi feita novamente por Ataíde em Cuiabá, quando foi chamado pela polícia para prestar depoimento. Ele repetiu a mesma história em Brasília ao depor à Polícia Federal. A gravação feita pelo jesuíta chegou até às mãos do engenheiro Ramis Bucair, funcionário da 6ª Inspetoria do Serviço de Proteção Indígena (SPI) em Cuiabá. O depoimento de Bucair foi anexado ao Relatório Figueiredo:
“Um bando de celerados chefiados pelo facínora alcunhado de Chico Luiz, a soldo da poderosa firma de seringalista Arruda Junqueira & Cia. metralhou um grupo de Índios Cinta Largas; que, após a matança, encontraram uma índia remanescente conduzindo seu filhinho de 6 anos; que mataram a criancinha com um tiro na cabeça e penduraram a índia pelos pés, com as pernas abertas, e partiram-na a golpe de facão, abrindo-a a partir do púbis em direção a cabeça”, diz trecho do documento.
O desejo sangrento pela terra
Segundo depoimentos colhidos de funcionários do SPI, o prefeito de Aripuanã, Amauri Furquim, teria autorizado a construção de uma pista de pouso clandestina dentro da área indígena. O que aumentou a tensão entre índios e não índios na região.
Furquim e a empresa Arruda Junqueira & CIA também foram acusados de vender parte do território indígena a uma empresa norte americana interessada na extração de cassiterita. Segundo o chefe da 6ª Inspetoria, Hélio Jorge Bucker, a chacina foi uma forma de efetivar os negócios de homens poderosos da região.
“Para a posse dessa área se impunha o afastamento da tribo Cinta-larga e para isto, foram feitas várias expedições com o fito de matá-los e escorraçá-los. A última expedição foi feita em 1963. Na ocasião o SPI denunciou e pediu providências”, diz trecho de uma carta enviada por Bucker ao ministro do Interior na época, Albuquerque de Lima.
Investigação
A situação só se tornou caso de polícia depois que o jornalista Carlos Rangel escreveu a reportagem “Morte no Paralelo 11” denunciando o massacre em Mato Grosso. Os crimes tiveram repercussão internacional e a Polícia Federal iniciou as investigações.
Mas o inspetor presidente da PF, Job Maia Salgado, não conseguiu ouvir o piloto Toshio Xatô, que conseguiu foragir. O suspeito “Silvestre” também foragiu e “Zuíno” morreu antes do fim das investigações. Graças às confissões de Ataíde a PF indiciou os mandantes e os executores do crime e o processo foi despachado para a 3ª Vara Criminal da Justiça Federal em Cuiabá.
Apesar disso, ninguém foi ou julgados punido pelo crime. Parte desta morosidade foi resultado da promulgação do Ato Institucional 5, que endureceu ainda mais a ditadura militar e debilitou a capacidade das instituições de apurar e punir irregularidades.
O próprio Relatório Figueiredo – finalizado com 7 mil páginas e com a indicação de demissão e condenação à diversos suspeitos – acabou desaparecendo depois do episódio político. O documento foi reencontrado apenas 45 anos depois, em 2013.
Em tempo: Antônio Mascarenhas Junqueira e Sebastião Palma de Arruda morreram sem julgamento. Sebastião aposentou-se como funcionário da Secretaria de Agricultura de Mato Grosso. Junqueira foi acusado pelo assassinato do missionário espanhol Vicente Cañas, morto em 1987. Em 2006, ele foi livrado do julgamento por conta da idade avançada. Apesar das acusações, o seringalista foi homenageado com o livro “Seringal – O mundo dos bravos”, do autor catarinense Marco Aurélio Nedel.



