Mães da guerra

Será que é preciso ser mãe para entender o amor maternal, um dos mais puros e genuínos do mundo?

(Foto: Divulgação)

“Mulher, qual é o seu nome?” “Não sei.”

“Quantos anos você tem?” “Não sei.”

“Por que você cavou esse buraco?” “Não sei.”

“Há quanto tempo está escondida?” “Não sei.”

“Por que você mordeu meu dedo?” “Não sei.”

“Você sabe que não irei machucá-la?” “Não sei.”

“De que lado você está?” “Não sei.”

“Estamos em guerra, você tem que escolher.” “Não sei.”

“Seu vilarejo ainda existe?” “Não sei.”

“Aqueles são seus filhos?” “Sim.”

(Wislawa Szymborska, em Vietnã)

Lendo um livro de poemas, na semana passada, deparei-me com este escrito. Ele me tocou na alma. Nunca havia lido Vietnã. Nunca tinha ouvido falar do trabalho da escritora polonesa Wislawa Szymborska.

A poesia remete à cena de um conflito histórico do século passado, a Guerra do Vietnã. No entanto, seu conteúdo é atual e universal.

Durante um embate, uma mãe perde tudo. Perde os sonhos, perde a noção de tempo e espaço, perde as certezas de toda uma vida. Mas, ainda assim, consegue saber quem são seus filhos.

O nome do poema poderia ser outro. Poderia ser Síria. Poderia ser Iraque. Poderia ser Afeganistão. Poderia ser Brasil.

Reconhecer nossos filhos, mesmo quando não reconhecemos nós mesmas, é a história da maternidade. Eu me olho e não encontro nada. Olho para meu filho e vejo todos os sonhos e promessas do mundo.

Há exceções, claro. Mas a maioria das mães  conseguiria enxergar — e tentar proteger — seus filhos, ainda que estivessem na pior das batalhas.

É preciso ser mãe para entender o amor maternal, um dos mais puros e genuínos do mundo?

Não.

Szymborska não tinha filhos. Mas conseguiu ser sensível a ponto de compreender o amor incondicional e instintivo. O amor em que não se espera nada em retorno. Sincero. Puro. Eterno.

Não vivemos uma guerra como a do Vietnã.

Só que vivemos algo muito pior.

É uma guerra velada, que fingimos não ser conosco. A violência brasileira não é muito diferente da de um país em guerra. É mais angustiante, talvez, porque temos que seguir adiante, fingindo que está tudo bem.

Qual a cara do nosso inimigo? A impunidade? O crime organizado? A desigualdade? O tráfico de drogas? A indiferença? O egoísmo?

Uma mãe que cria seus filhos no Brasil não deixa de ser uma heroína. Não deixa de ser uma mãe da guerra.

Sabe que o filho poderá não voltar para casa por viver em um país cheio de conflitos. Uma mãe brasileira sabe que poderá nunca mais ver o ser humano pelo qual daria sua vida por causa da criminalidade que atinge quase todas as cidades brasileiras.

Não importa o tipo de guerra: reconhecida ou ignorada, econômica ou ideológica, civil ou psicológica, a mensagem é clara —podemos não reconhecer nada, mas reconhecemos nossos filhos.

Se o poema Vietnã não define a maternidade, não sei mais o que definiria.

Feliz Dia das Mães. Meu carinho e admiração a todas que vivem em guerra, mas sonham com a paz.

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