Lives musicais: um “improviso” que vem salvando artistas e casas noturnas (será?)

Elas deram a visibilidade que muitos artistas jamais haviam experimentado, mas até que ponto são rentáveis financeiramente?

Power Rock Trio é uma das bandas que aderiu a essa nova forma de chegar ao público (Foto: Reprodução)

A quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus provocou uma revolução no mercado musical em todo o planeta e popularizou as lives musicais. O futuro é ainda incerto, no entanto músicos, produtores, publicitários e profissionais do mundo digital concordam que as lives são um caminho sem volta.

O novo formato pegou de surpresa o mercado musical, que ainda não tinha experiência técnica para produzir as lives, com qualidade de imagem e som. Ao mesmo tempo foi preciso discutir mundialmente como evoluir em novos modelos econômicos para a comercialização da produção musical.

Mas o público aprovou a nova tendência. Pesquisa da MindMiners, empresa de tecnologia especializada em pesquisa digital, feita a pedido do CNN Brasil Business, demonstrou que 76% dos espectadores das lives querem a continuidade delas, mesmo após o fim da pandemia.

O levantamento foi realizado com 500 pessoas, de todas as regiões do país e classes sociais distintas, nos dias 13 e 14 de abril.

E alguns profissionais da música vão além, avaliam que a ferramenta digital poderá ampliar o público, atraindo pessoas que já não frequentavam mais a vida noturna.

A lives em Mato Grosso

Sambistas, bandas de rock, músicos da MPB, do blues, do instrumental… Mato Grosso entro rápido na onda digital. O músico Wellington José Andrade Souza, conhecido como Bêre, conta que disputar a atenção do público com tantas alternativas é a parte complicada, mas não a única.

“É aquela velha máxima: sobrevivem os que se adaptam as mudanças, pois é impossível reverte-las. Mas ninguém quer fazer algo amador e o fazer profissional exige estrutura e recursos financeiros”.

Bêre é baixista, integrante da banda Camerata, de Cuiabá, e professor de música. E precisou correr atrás de profissionais experientes em transmissão de lives no Facebook e Instagram para conhecer os detalhes técnicos, principalmente, quanto à qualidade do som e imagem.

O guitarrista Danilo Bareiro, com 25 anos de carreira musical, logo percebeu a diferença de padrão de mixagem do som.

“Antes, a gente tinha um retorno melhor do som porque o público estava presente e a caixa de som permitia que a gente percebesse a qualidade. Agora é preciso considerar o smartfone, celulares, computadores e o hometeather. No início, foi angustiante porque não sabíamos se o som estava bom”.

A interação com o público durante as lives é outro desafio.

“As pessoas enviam mensagens e os músicos não conseguem tocar e, ao mesmo tempo, interagir com quem está assistindo. Então, é fundamental ter alguém respondendo ao público. Na atual conjuntura, não existem recursos para remunerar um profissional para isso”, ele lamenta.

O comportamento dos músicos também foi um dos fatores discutidos. Danilo diz que agora é preciso ficar mais atento aos comentários “porque entramos na casa das pessoas”.

Do palco para as telas

No início da quarentena, as lives tinham uma proposta bem modesta: arrecadar recursos ou cestas básicas para profissionais da música e pessoas carentes. O artista se apresentava em casa, filmando com seu celular e utilizavam o Instagram, Facebook ou Youtube para chegar ao público.

Na segunda quinzena de março, no entanto, surgiram os festivais de música virtuais, reunindo – apenas no mundo virtual – dezenas de músicos brasileiros de diversos gêneros.

Em Cuiabá, o Ixpia Festival foi o primeiro produzido em Cuiabá. Organizado pelo músico André Coruja, tinha a proposta de abrir espaço para inúmeros músicos apresentarem seus trabalhos.

“No Ixpia Festival percebemos as limitações, como não contar com a banda completa, por exemplo. Observei também a questão da gravação, a filmagem, mas isso impõe equipamentos apropriados. Naquele momento, o objetivo era fazer música”.

E, por enquanto, cobrar ingressos não é uma preocupação de boa parte dos profissionais.

“Por enquanto a maioria das apresentações são gratuitas e, por isso, acho complicado a cobrança. Eu vejo como uma arte de rua, onde as pessoas contribuem ou não”, avalia Coruja.

Para os músicos independentes, atingir mais gente já pode ser recompensador.  Acostumados a tocar em bares e festivais com um público de cerca de 100 pessoas, alguns já chegaram a mais de 5 mil espectadores em lives.

O Festival Roda Rock Zona Sul, produzido pelo músico cuiabano Charlyes Das Matas, por exemplo, atingiu 7.125 pessoas.

Transmitido pelo Instagram, em 6 de junho, ele reuniu 10 bandas ligadas à cultura urbana de Cuiabá e Cáceres, além de músicos de Mato Grosso do Sul, São Paulo e Espírito Santo.

Em julho foram feitas lives todos os finais de semana e a programação segue até agosto.

 

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Só casa cheia salva o mercado musical?

O Malcon Pub, que mantêm shows semanais em Cuiabá sentiu na carne as restrições causadas pela pandemia do novo coronavírus. Mas as lives foram alternativa imediata para oferecer shows das bandas locais ao público.

A banda Straus, uma das mais conhecidas bandas de rock de Cuiabá, fez sua primeira live em parceria com a casa noturna, em junho. Foi considerada pela equipe de produção do projeto “Malcon Lives”, como uma das melhores já transmitidas.

Produtor da Strauss, Luís Henrique Andrade conta que foram utilizadas cinco câmeras, sendo quatro fixas e uma móvel, “o que garantiu qualidade nas imagens e no som”. A live  teve cerca de duas mil visualizações nas plataformas do Malcon no Instagram, no Facebook e no canal Youtube.

Mas transmissões de bandas pela internet, nem de longe representam faturamento para as casas noturnas. Apesar disso, Luis Henrique acredita que, em breve, surgirão alternativas de comercialização.

“O site Vaquinha tem sido usado. Esses sites cobram 10% do valor arrecadado e repassam o restante depois de 25 dias. O que se tem hoje também é o patrocínio de empresas para fomentar as lives musicais”.

Na opinião do empresário e proprietário do Malcon Pub, Alexandre Matozo, para os pequenos negócios “as lives deram um pequeno respiro. Mas a renda que se tem ainda é muito pequena, principalmente para os músicos”.

“Não se pode comparar com o movimento de venda de ingressos e bebidas. Para o Malcon, que, hoje, é a maior balada de Mato Grosso, com capacidade para mil pessoas, o estrago feito pela pandemia foi imenso”, ele diz.

Em março, a União Brasileira de Compositores (UBC) forneceu as possíveis soluções para quem quer monetizar as transmissões.

“A Stageit, um web-based local de desempenho é uma das plataformas onde é possível monetizar uma live. Ela abriga performances de artistas musicais que realizam ao vivo via webcam. Com sede nos Estados Unidos, tem boas ferramentas para monetização de conteúdo. No Brasil, a Netshow.me atua no campo de transmissão e há startups surgindo nesse horizonte, como o aplicativo OpenStage, ‘feito de artistas para artistas’, além de agências como a Clap.me, especializada em engajamento via live streaming, e o Sound Club, que conta com uma série de ferramentas para monetização”, informou.

A plataforma remunera da seguinte forma: o artista recebe entre 63% e 83% da venda de ingressos para a live, dependendo da faixa de vendas. A partir de R$ 1,5 mil em receitas brutas, o valor é transferido no mesmo dia para a conta bancária informada. A plataforma também recolhe direitos autorais.

O público pode comprar “notes”, a moeda criada pela Stageit, e depois adquirir os ingressos para os shows. A plataforma foi premiada no Midem, em 2013, na categoria “Direct To Consumer Sales & Content Monetisation”.

(Josana Salles, especial para o LIVRE)

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