Lei exige aposentadoria de cavalos e charreteiros questionam de onde virá o ganha pão

Prefeitura de Cuiabá age em prol da defesa animal, enquanto trabalhadores defendem sobrevivência

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Fumacê, Ventania, Lula e Shiryu foram aposentados de maneira compulsória pela Prefeitura de Cuiabá. Os cavalos desempenhavam o papel de puxadores de carroça, atividade que foi suspensa no final do ano, após a aprovação de uma lei municipal que proíbe o trânsito de animais nas ruas da cidade.

Agora, os donos deles, que foram pegos de surpresa pela restrição, não sabem o que fazer para sobreviver.

Conforme a prefeitura, a restrição tem a finalidade de proteger os animais de maus-tratos e ainda garantir a sanidade nas regiões onde eles atuam.

Porém, sem trabalho, o futuro deles também é incerto.

O charreteiro José Fernandes Pimenta, 70, explica que o cálculo é simples: 50% do valor pago por frete fica por conta das despesas com o animal.

José Pimenta trazendo Fumacê para participar da reportagem (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Pimenta argumenta que, sem o trabalho, não sabe como vai cuidar do “companheiro”, já que ficará comprometida até mesmo a alimentação de sua própria família.

Outra preocupação do trabalhador, como do restante da categoria, é a falta de espaço no mercado de trabalho atual.

“Aqui, a maioria tem mais de 50 anos, pouco estudo e terá muita dificuldade para achar alguma oportunidade”.

Pimenta trabalha desde 1996 como charreteiro, recolhendo lixo e materiais para descarte na cidade.

“Eu comecei porque estava com cinco filhos pequenos e minha família passava necessidade. Então, eu mesmo construí minha primeira carroça com uma casca de geladeira. Mas, como não tinha dinheiro, quem puxava era eu”.

Muitos afetados

Atualmente, são 60 charreteiros apenas na região Norte de Cuiabá, na Grande CPA. A maior parte deles usa o Ecoponto do CPA 3, perto da Lagoa da Águas Cuiabá, como ponto de apoio e descarte.

Um local que funciona há 14 anos e, agora, não significa mais segurança. Isso porque, de acordo com a lei, qualquer pessoa que chegar lá com carroça terá a estrutura e o animal levados para o depósito da prefeitura.

Caso isso aconteça, uma série de taxas será cobrada e o proprietário do animal ainda corre o risco de vê-lo ser eutanásido, se for considerado com a saúde irrecuperável.

Muitos dos profissionais já não param mais a carroça no Ecoponto com medo de ter problemas com a fiscalização. Outros seguem a rotina normal e afirmam que não vão desistir facilmente.

No sábado (11), eles estão programando uma grande ação.

Todos os charreteiros da cidade e os organizadores e participantes de comitiva vão integrar o grupo. Será a primeira grande reunião da categoria, que quer ser ouvida.

Saúde animal

Segundo Pimenta, os animais que estão no Ecoponto são bem tratados. Ele diz que geralmente são comprados por baixos preços e, muitas vezes, chegam “coro e osso”.

Então, eles são tratados até terem condições físicas de puxar a carroça.

Cavalos descarregando entulhos no Ecoponto do CPA3, em Cuiabá (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Milho, pasto à vontade nos terrenos baldios do bairro, ração com frequência e vitamina de vez em quando. Esta é a fórmula para garantir a saúde do animal.

Há alguns anos atrás, os alunos de uma universidade particular de Cuiabá faziam visitas contantes ao local, colhiam sangue para exames e consultavam os bichos.

“Era um trabalho muito bom. Veterinário é muito caro e nem sempre temos condições de pagar”.

Com o fim do serviço, os charreteiros ficaram desamparados.

Transição

Prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB) diz que a lei será publicada no Diário Oficial no dia 8 de janeiro e, a partir de então, haverá 90 dias para regulamentação.

Neste período, Pinheiro diz que será realizado o levantamento de quantas pessoas vivem do ofício. Também será organizado um processo de transição.

Com relação a detalhes desse processo, o prefeito adiantou apenas que vai dialogar com os charreteiros e demais interessados.

Na opinião dele, a medida se faz necessária por conta de questões ambientais e do bem estar animal. Argumenta que é um exigência mundial o fim da exploração.

Vale lembrar que em Belém (PA), Natal (RN) e Fortaleza (CE), os veículos de tração animal tem o trânsito restrito ou proibido dentro das áreas urbanas.

Já em Petrópolis (RJ), as tradicionais carroças foram substituídas por charretes elétricas.

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3 COMENTÁRIOS

  1. O fim dos “ganhos” ou mesmo a sobrevivência (melhor seria “subsistência”) dos carroceiros não pode servir de argumento para a exploração sem limites dos animais. A proibição ou – em alguns casos – a regulamentação do transporte por tração animal já chega com décadas de atraso e tomara que seja copiada pelo máximo de cidades, até que um dia estejamos livres desse mal.

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